Lançamento direto em DVD

Deslizando na linha

De uma infância terrívelmente problemática, incluindo uma morte arrasadora do irmão, Dewey Cox foge ainda novo para tentar carreira como músico, e aos poucos vai se infiltrando na conturbada indústria da música, ao criar sua família e ser tentado pelos demônios da carreira.

A sensação do gênero cômico do momento, Judd Apatow, que dirigiu e produziu ano passado os ótimos “Ligeiramente Grávidos” e “Superbad - É Hoje”, respectivamente, volta a produzir esta valiosa mesmo que menor entrada no gênero, uma paródia bem divertida às incansáveis cinebiografias que tanto explodem nas telas atualmente, como tambem aos próprios músicos. Apatow produz, e escreve ao lado de Jake Kasdan, que também dirige. A inexperiência do cineasta, que dirigiu poucos filmes e mais episódios é visível. O que ataca bastante essa comédia de acertos e erros é sua irregularidade. É bem fácil soltar algumas carregadas risadas pela produção, que consegue ser engraçadíssima sem precisar apelar, mas entre cada grande acerto existe uma furada, uma piada mal colocada completamente sem sentido.  O filme, portanto, não chega a decolar de verdade, mas diverte o suficiente para o deixar com um largo sorriso e ainda cria personagens com os quais torna-se surpreendentemente fácil de se envolver.

Assumidamente, é uma paródia completa de “Johnny & June” em sua metade inicial, onde arranca o maior número de risadas e possui as mais inspiradas piadas e referências. Exageros a parte, como a morte grotesca do irmão do futuro músico, é humor bem competente, incluindo uma tirada ótima à cena do filme onde Joaquin Phoenix destrói uma pia do banheiro. Aqui, o personagem de John C. Reilly destrói seis pias no total. Funcionam muito bem algumas tiradas como essa por realmente serem críticas e por parodiarem sem cair no mal gosto e no desnecessário. Para melhorar ainda, muitas existem para exemplificar o absurdo da indústria megalomaníaca da música, como também as fórmulas dos filmes cinebiográficos. Em outras palavras, não são futéis, e adicionam ao filme ao invés de prejudicar, como ocorre em “sátiras” como os recentes “Deu a Louca em Hollywood” e “Uma Comédia Nada Romântica”, que destroem a sí mesmos com apelações e pura mediocridade assassina. Os criadores por trás de “A Vida é Dura” possuem conciência, são espertos na maior parte do tempo e não zoam de sí mesmos, caindo na auto-crítica, mas sempre focalizando entreter em meios à referências precisamente cinematográficas e musicais.

O filme se limita mesmo justamente pelo existente deseqülibrio em certos aspectos do roteiro e principalmente da direção, onde o foco não é exatamente definido e algumas piadas bem sem graça entram em cena. Na maior parte do tempo, porém, são eficientes e arrancam o devido efeito na audiência. O filme ainda ganha pontos ao incluir de quebra canções originais escritas especialmente para o filme que realmente funcionam, como a faixa título “Walk Hard” que, mesmo longe da maestria, é realmente legal e até merecida de sua indicação ao Globo de Ouro. Ao lado disso, destaco o elenco exemplar que, além de incluir as participações coadjuvantes muito boas de Jenna Fischer, Margo Martindale, Jonah Hill, Jack Black, Justin Long, Paul Rudd e Jason Schwartzman (sendo que estes últimos quatro fazem o grupo dos Beatles numa excelente cena muito bem humorada e esperta), temos a formidável atuação de John C. Reilly no papel título, utilizando carisma e charme mas principalmente seu talento inconfundível, fazendo um memorável e consistente personagem que adiciona ao filme muito do que perde.

Seria certo dizer então que “A Vida é Dura” não anda na linha (ou melhor, “walks the line”), realmente não superando os filmes dos quais tanto satiriza, mas desliza na linha com um descompromisso invejável, de uma forma largada estilizada e sempre entretendo, mesmo nos escorregões de deseqüilibrio usuais dos quais acaba se acostumando durante a projeção curta e prazerosa. O filme nunca incomoda, e é bom, numa época com filmes como “Os Espartalhões” e “Superherói - O Filme” batendo na porta, assistir à uma paródia de bom gosto que entre acertos e erros, é mais lembrada pelos acertos do que pelos erros. Infelizmente, ao contrário das bombas listadas acima, o filme não ganhou o lançamento devido nos cinemas, sendo largadamente lançado diretamente em DVD. Realmente, nota-se o quanto brasileiro tem mal gosto, ao vermos que preferem mais a sátira escrachada e idiota do que a esperta e irreverente. Mais uma vez exemplifico: “A Vida é Dura” não está à altura dos irmãos “Todo Mundo Quase Morto” ou “Chumbo Grosso” no sentido de paródias, mas funciona, surpreendentemente bem, dependendo também bastante de seu humor e sua abordagem. Vale a pena a locação.

Walk Hard: The Dewey Cox Story (2007)
Direção:
Jake Kasdan
Roteiro: Judd Apatow, Jake Kasdan
Elenco: John C. Reilly, Raymond J. Barry, Margo Martindale, Jack White, Frankie Muniz, Jenna Fischer, Jack Black, Jonah Hill, Justin Long, Jason Schwartzman
[Comédia, 96 minutos]

O ano já chegou rapidamente à metade e já fomos presenteados com um maravilhoso número de excelentes filmes. Como fiz ano passado no antigo Cine Vita, farei aqui o top 10 dos melhores trabalhos até agora.


01.Sangue Negro (Paul Thomas Anderson)


02.Desejo e Reparação (Joe Wright)


03.Wall•E (Andrew Stanton)


04.Onde os Fracos Não Têm Vez (Joel & Ethan Coen)


05.Na Natureza Selvagem (Sean Penn)


06.Juno (Jason Reitman)


07.Persépolis (Vincent Paronnaud & Marjane Satrapi)


08.Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Tim Burton)


09.Medo da Verdade (Ben Affleck)


10.Não Estou Lá (Todd Haynes)

E como para cada rosa existe uma espinha, listo abaixo os 10 piores do ano até o momento…:

01.Aliens vs. Predador 2 (Colin & Greg Strause)
02.Cativeiro (Roland Joffé)
03.Maldita Sorte (Mark Helfrich)
04.Onde Tudo Acontece (John Cosgrove)
05.O Olho do Mal (David Moreau & Xavier Palud)
06.Eu Sei Quem Me Matou (Chris Sivertson)
07.Os Irmãos Solomon (Bob Odenkirk)
08.Os Seis Signos da Luz (David L. Cunningham)
09.Alvin e os Esquilos (Tim Hill)
10.Amor e Outros Desastres (Alek Keshishian)

Confiram todas as críticas acessando os links aqui.

Um mês muito bom, teve um aumento em quantidade e mantive a boa média em questões de cotação. Este foi um mês mais fácil de rever ou ver filmes lançamentos em DVD, ao passo que tentei ver ao máximo as sugestões de meus queridos amigos blogueiros, não tendo encontrado vários. Primeiramente, a relação completa de filmes vistos, em ordem de preferência. Depois, as estatísticas e sobre as sugestões.


01.Wall•E de Andrew Stanton [9,5]
02.Onde os Fracos Não Têm Vez de Joel & Ethan Coen [9,5] ♣
03.O Sexto Sentido de M. Night Shyamalan [9,0] ♣
04.Corpo Fechado de M. Night Shyamalan [9,0] ♣
05.Juno de Jason Reitman [9,0] ♣
06.Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet de Tim Burton [9,0] ♣


07.A Cor Púrpura de Steven Spielberg [8,5]
08.Planeta dos Macacos de Franklin J. Schaffner [8,5]
09.O Gângster de Ridley Scott  [8,5] ♣
10.A Família Savage de Tamara Jenkins [8,0]
11.Sinais de M. Night Shyamalan [8,0] ♣
12.A Vila de M. Night Shyamalan [8,0] ♣
13.Cloverfield - Monstro de Matt Reeves [8,0] ♣
14.Um Lugar Chamado Notting Hill de Roger Michell [8,0]
15.Coração Satânico de Alan Parker [8,0]
16.Jogo Subterrâneo de Roberto Gervitz [8,0]


17.O Incrível Hulk de Louis Leterrier [7,5]
18.Agente 86 de Peter Seagal [7,5]
19.Rambo - Programado para Matar de Ted Kotcheff [7,5]
20.As Crônicas de Narnia - O Leão, a Feitiçeira e o … de Andrew Adamson [7,5] ♣
21.Lendas da Paixão de Edward Zwick [7,5]
22.Joshua - O Filho do Mal de George Ratliff [7,5]
23.A Dama na Água de M. Night Shyamalan [7,0] ♣
24.E a Vida Continua de Roger Spottiswoode [7,0]
25.Atos que Desafiam a Morte de Gillian Armstrong [7,0]
26.Hulk de Ang Lee [7,0] ♣
27.Fazendo História de Nicholas Hytner [6,5]
28.Fim dos Tempos de M. Night Shyamalan [6,0]
29.Vestida para Casar de Anne Fletcher [6,0]


30.Spun - Sem Limites de Jonas Âkerlund [5,5]
31.Rambo IV de Sylvester Stallone [5,0]
32.Rambo III de Peter MacDonald [5,0]
33.Rambo II - A Missão de George P. Cosmatos [5,0]
34.Manhã Sangrenta de Uwe Boll [4,0]


35.Onde Tudo Acontece de John Cosgrove
36.Maldita Sorte de Mark Helfrich

♣ (revistos)

12 revisões
6 sessões de cinema
4 sugestões conferidas
Média: [7,0] 

SUGESTÕES…:

Conferidas: A Cór Púrpura (Weiner); Planeta dos Macacos (Robson); Coração Satânico (Pedro); Jogo Subterrâneo (Alex)

Pendentes: O Sonho de Cassandra (Vinícius); Num Lago Dourado (Weiner/Otavio); Entre Dois Amores (Weiner); Estamos Todos Bem (Ygor); O Homem das Estrelas (Ygor); Bella (Kamila); Manhattan (Daniell); Veludo Azul (Daniell); Perseguidor Implacável (Otavio); A Marca da Maldade (Otavio); O Expresso da Meia-Noite (Otavio); Três Homens em Conflito (Otavio)

*De todos acima, encontrei e com certeza assistirei esse mês ao menos 09 deles, sendo que ainda não achei Entre Dois Amores, Estamos Todos Bem e O Homem das Estrelas. O Sonho de Cassandra e Bella pegarei no circuito alternativo este mês e o restante cruzarei a cidade para pegá-los numa locadora no reino Tão Tão Distante…

Quero agradacer a todos que sugeriram e quero que façam mais (sim, mais!) sugestões nesse fechamanto. Quem sabe acabam sendo de mais fácil acesso… Adoraria se todos sugerissem algo ;) Ótimo mês para todos!!!

Lançamento direto em DVD

Carrossel de emoções

Cercando a vida de várias pessoas distintas e interligadas, fala sobre as emoções que ligam um homem de negócios que aposta sua vida numa corrida de cavalos, um gângster com a habilidade de prever o futuro, uma popstar que é vitimizada por um poderoso da máfia e um médico que precisa salvar o amor de sua vida.

Filmes que flertam com a realidade e os circumstânciais eventos que podem unir as pessoas mais diferentes e distintas sempe me conquistam, provavelmente por sempre conterem mensagens belas e importantes, por conseguirem me tocar muito e por apresentarem, enfim, uma visão realista sobre emoções. Foi assim com “Crash - No Limite” e o recente “Babel”. Nesse “Ligados pelo Crime” - título vagabundo para ‘The Air I Breathe’ que seria traduzido ‘o ar que respiro’ - temos essa estrutura de vidas interligadas de forma curiosa, originando de um antigo provérbio Chinês que separa a vida em quatro emoções: felicidade, prazer, tristeza e amor. O filme começa muito bem ao apresentar cada um de seus quatro personagens principais sem nome, sendo caracterizados cada um por uma dessas emoções. O filme portanto transforma-se em um panorama sobre as emoções, mas ao passo que a direção não se carrega completamente verossímil por toda a sessão, as emoções vão se tornando frívolas, e o panorama loga se transforma em um carnaval, um carrossel de emoções superficiais.

De início, tudo me cativou. O elenco diversificado e competente me chamou a atenção e a forma como cada um é apresentado também foi bastante criativo e eficiente, mas o afeto que você vai construindo por cada um deles vai se esvairando aos poucos, até chegar a um ponto onde você não mais vê se importando por nenhum deles. Principalmente porque nada soa realista o bastante para realmente instigar, por isso o filme nunca se intensifica ou emociona. As escolhas de seus personagems muitas vezes beiram o inacreditável e o rídiculo, sendo que algumas me remetiam diretamente ao melodrama exagerado de novelas brasileiras. Tudo para ser emocionante e mandar uma bela mensagem. No primeiro quesito comigo o filme fracassou, enquanto no segundo talvez tenha encontrado o êxito, visto que a mensagem positiva que envia é realmente valiosa, mas se enfraquece completamente visto que o filme em sí a deixa fraca. Vai à extremos para promovê-la e peca justamente nesse sentido. Tudo é muito exagerado, pungente em todas as maneiras errôneas.

“Ligados pelo Crime” possui uma narrativa toda falha e uma linguagem extremamente fraca, mas se distância da tragédia por alguns elementos, como já listei. O filme me cativou de início e fui me tornando íntimo de seus personagens, apenas para ver que eles escorregavam da minha mão ao passo que o roteiro se tornava mais exagerado e a direção mais superficial. Também tem o elenco. Chega a um ponto onde os personagens já estão tão falsos e inverossímeis que nem os atores salvam, mas até esse momento temos boas atuações de Forest Whitaker, Kevin Bacon, Julie Delpy, Sarah Michelle Gellar, Emile Hirsch e Andy Garcia, sendo o elo fraco Brendan Fraser, um ator que infelizmente nunca conseguiu me convencer de verdade. Eles fazem a parte deles, o problema é mesmo toda a fragilidade do filme, que acha que conseguirá se sustentar em emoções exagerados e momentos catárticos que soam tudo menos autênticos.

Então torna-se fácil entender o porque do filme ter sido tão ignorado nos Estados Unidos e lançado diretamente em DVD aqui no Brasil. É um filme fraco, de intenções fortes e que envia uma mensagem positiva sobre seguir seus impulsos e suas emoções, deixando de lado o lógico. O filme faz iso diversamente, o problema é que deixa se levar por falsas emoções e acaba se tornando ilógico demais. Isso debilta os personagens, a narrativa e a mensagem em sí, que não é transmitida da forma melhor e portanto, se esvaira, não permanecendo com a audiência e se perdendo no vazio. O filme não marca, ou emociona. O máximo que faz é incomodar, visto que podia ter sido muito mais com o que tinha em mãos, desperdiçando tudo com escolhas erradas e falta de densidade ou cenas mais elaboradas. Com um orçamento tão fraco, podiam ter investido mais em tomadas mais simples e em emoções mais verdadeiras, mas insiste em sensacionalizar seus sentimentos e fazerem deles espetáculos. Mas isso não é parque de diversões.

The Air I Breathe (2007)
Direção:
Jieho Lee
Roteiro: Jieho Lee e Bob DeRosa
Elenco: Brendan Fraser, Sarah Michelle Gellar, Andy Garcia, Kevin Bacon, Forest Whitaker, Emile Hirsch, Julie Delpy, Clark Gregg, Kelly Hu
[Drama, 95 minutos]

Lançamento direto em DVD

Verdades farsantes

Erik é um jornalista em ascenção que escreve para a seção de esportes no jornal de seu estado. Com a sede de provar sua habilidade e se consagrar ao seu editor-chefe, vê em ‘Champ’ uma história refrescante. ‘Champ’ é um sem-teto que alega ser um boxeador famosíssimo de antigamente que todos acreditavam ter morrido. Erik se envolve aos poucos com o pobre e sua matéria se torna um grande sucesso, até descobrir o podre por trás de tudo, e enfrentar, ao lado de seu divórcio, problemas com o filho.

Seguindo aquele estilo de filme baseado em uma história real que esmiuça uma mentira, “O Resgate de um Campeão” é um filme que ronda a todo momento o usual e o comum, tanto em seu formato, a forma como sua narrativa flui e no maniqueísmo habitual, ao lado de personagens em momentos caricaturiais. O mais legal do filme é reservado para aqueles que fugiram de prévias, sinopses reveladoras e contra-capa, visto que o roteiro reserva uma surpresa bem agradável e interessante ao desenrolar da história. Uma pena que, como “A Ilha” o filme perca tanto por acabar sendo previsível, visto o marketing errôneo. Para minha felicidade, assisti o filme sabendo pouco e a atmosfera até então batida e previsível ganhou novos ares com o twist. Nada realmente marcante, mas o suficiente para deixar o filme mais interessante, e a partir disso, iniciar um ótimo desafio aos personagens, com direito à questionamentos morais.

Em outras palavras, a história apresentada no filme é uma muito boa, instigante, muito interessante na maior parte do tempo e oferecendo personagens plausíveis, cercados por um mundo atual e urgente, desfiados por questões morais e familiares. Nesse quesito, o filme funciona muito bem, e é o seu motriz. O problema é a forma como tudo foi conduzido, de uma maneira demasiadamente acadêmica, formal, sem ousadias ou surpresas (tirando a do roteiro). O diretor Rod Lurie se torna, com isso, um cineasta bem comum, deixando a desejar. Lembrando que o grande filme de sua carreira, o ótimo “A Conspiração” é forte justamente por causa do denso e intrincado roteiro, apresentando uma direção igualmente acadêmica de Lurie. O diretor só prevalece ao conseguir entregar autênticidade aos personagens e á certos dramas, que no roteiro não ganham um tratamente muito luxuoso ou oportuno.

Acredito que o melhor que este pequeno filme tem a oferecer seja um Samuel L. Jackson em uma brilhante e realmente memorável performance. Numa atuação realmente poderosa e única, ele é capaz de deixar seu personagem muito mais complexo e denso, fisgar mais a atenção da audiência e nos fazer importar por ele ao mesmo tempo que odiar, algo que sempre digo ser bem difícil para um ator, realizado anteriormente recentemente por Nicole Kidman em “Margot e o Casamento”. Pena que ele tenha sido tão desvalorizado, principalmente quando o inssoso Josh Hartnett entra em cena. Ta aí um ator do qual não consigo admirar de forma alguma, principalmente por ter transformado o personagem impecável de “Dália Negra” (pelo menos observando a obra de James Ellroy) em algo extremamente caricato e uni-dimensional. Neste filme, do qual ele debilita diversamente, ele encontra um pouco de redenção mais para o final. Perto do desfecho ocorre uma conversa entre ele e seu filho, numa cena bem escrita. Acho que o que ele demonstrou nela dá de dez a zero em qualquer outra coisa que já faz. Mas ainda não é aquele ator que poderia ter sido sublime ao lado de Jackson.

Um bom filme, “O Resgate de um Campeão” não é inesquecível e não permanecerá muito em sua mente. A impressão que deixa é realmente uma bem fina, mas pelo menos conta com alguns válidos atributos que o torna bem mais interessante e construtivo, como a performance excelente de Jackson e o estudo de personagens também bastante admirável, principalmente quando observado o questionamento ético e moral que toca de uma forma competente na força das palavras e como essas podem representar choques ou socos, podendo dar a vida ou tirá-la, ou em como cerca as mentiras sinceras e as verdades farsantes, como nem tudo é preto e branco e devemos observar os dois lados da moeda antes de fazer julgamentos precipitados e inconvenientes. Recomendo o filme, principalmente nesse seu formato em DVD, que deverá ser observado de uma forma descompromissada. É bom enquanto dura, mas apenas alguns elementos são bons o suficiente para se carregar consigo para casa. Muitos ficam perdidos no esquecimento, principalmente ao lidarmos com a estutura tão melodramático, ora cliché, ora batida, ora comovente.

Resurrecting the Champ (2007)
Direção:
Rod Lurie
Roteiro: Michael Bortman, Allison Burnett, baseado em artigo de J.R. Moehringer
Elenco: Josh Hartnett, Samuel L. Jackson, Kathryn Morris, Dakota Goyo, Alan Alda, Rachel Nichols, Teri Hatcher, Kristen Shaw
[Drama, 112 minutos]

 

Lançamento direto em DVD

Oderint dum metuant

Após um ataque nuclear ter acabado com metade do estado de Texas em 2005, a nação dos Estados Unidos tenta se integrar vivendo em uma constante ameaça no ano de 2008, com o governo em total controle. Surge nesse plano, uma empresa alemã que acredita ter achado a alternativa ao petróleo. Em volta de tudo isso, grupos rebeldes fazem de tudo para garantir liberdade enquanto um ator com amnésia, uma atriz pornô com conciência e um policial surgem no turbilhão político como peças chave.

Em 2001, o desconhecido Richard Kelly lança sua carreira com o independente “Donnie Darko”, uma pequena e alucinante obra-prima da ficção que logo se tornaria uma sensação cult em todos os cantos do mundo. 5 anos depois ele finalmente finaliza o seu tão aquardado e polêmico “Southland Tales”, o lançando em Cannes, onde o filme é vaiado, odiado e extremamente criticado. O cineasta é forçado a tirar 15 minutos do filme e melhorar o visual. O filme é oficialmente lançado, fracassa na bilheteria em salas limitadas e ganha o ódio da crítica. Esse ano chegou em DVD no Brasil (quem teria coragem de lança-lo nos cinemas?). O fato é que sou um dos grandes fãs de “Donnie Darko” e por isso abordei o novo projeto de Kelly com extrema ansiedade. Fato também é que esse seu novo projeto é um terrívelmente incompreendido e completamente subestimado. Mesmo que falho, principalmente quando se diz o excesso de informações jogado na tela e a falta de polimento ao tornar tudo mais claro, o filme é um denso, meticuloso e soberbo retrato satírico sobre uma nação estadunidense não tão distante da atual. Kelly tem algo a dizer, envia sua mensagem com grande estilo e originalidade e faz de seu filme um turbilhão de referências pop, elenco gigantesco bem conhecido mas pouco prestigado e muitos questionamentos, idiretas e críticas virtuosas.

É tanta coisa enviada em apenas 145 minutos (sim, apenas isso!) que fica difícil digerir tudo. Portanto, é recomendável uma revisão. “Southland Tales” é tão complexo que alguns detalhes se enriquecem com revisões e novas percepções. De início, é bastante recomendado aproveitar a viagem, e essa é uma primorosa. O visual do filme é excelente, contando com ótima direção de arte igualmente detalhista, efeitos especiais excelentes e um estilo único, próprio e irretocável. Momentos como o desfecho bombástico, uma festa glamourosa e um sonho pertubado de um soldado são memoráveis e muito bem dirigidos. Não só em questões de estética. Kelly esconde muito com simbolismos e detalhes, sem contar incontáveis referências. Sua trilha sonora é extremamente significativa e importante. Composta por Moby, é uma sensacional. Em certo momento, um veterano do Iraque traficante de drogas submerge em um louco sonho cantando “All These Things That I’ve Done” de The Killers. Não poderia ter canção mais ilustrativa para o momento, e cai como uma luva no comentário socio-político importante do cineasta. Em outra cena simbólica, durante a festa Rebekah Del Rio começa a cantar o hino nacional do país. Se alguém viu e se lembra de “Cidade dos Sonhos” de David Lynch, a cantora aparece cantando e hipnotizando a platéria de uma ópera, em um segmento que é, na verdade, um sonho. O que Kelly quer dizer aqui é que o hino nacional tornou se uma ilusão, como também o patriotismo. Faz tudo parte de um sonho distante que hipnotiza o povo americano aponto de manipula-los. É soberbo!

São momentos essênciais como esse que tornam a sessão extremamente prazerosa e gratificante. Como se não bastasse, o elenco todo errado se sai incrívelmente bem. Nunca achei Dwayne Johnson um ator, mas aqui ele me prova o contrário. Faz um par ótimo com uma bem humorada Sarah Michelle Gellar e um surpreendente Sean William Scott, em atuação realmente ótima. Justin Timberkale continua entregando trabalhos competentes e nem mesmo Mandy Moore compromete o espetáculo. Poderia listar todos do elenco, mas ficaria o dia todo, visto que a lista é longa. O filme é um trabalho de elenco, com diversas narrativas e personagens. Todos representam um típo americano, sofrendo um apuro satírico pelo roteiro de Kelly, deixando tudo bem mais ácido e divertido. A verdade é que todo seu filme é essêncial, oportuno e muitas vezes genial. Como declarado pelo diretor, a violência usada no filme serve meramente para exemplificar o quanto é estúpida e desnecessária. Uma válida crítica, como também a que vai contra todo o sistema, aos costumes americanos debilitantes, abrindo feridas divertidas de se ver ardendo.

Ou seja, ao assistir “Southland Tales”, ignorem todas as críticas e tentam se aprofundar na visão do diretor completamente, prestando atenção aos seus detalhes e ao que o visual possa te comunicar. Fique sempre atento à música essêncial e ás referências cinematográficas importantes. Tudo isso importa e apenas adiciona ao filme. Como o que esta inscrito nas viaturas da polícia, em latim: “oderint dum metuant”. Significado? “Deixe que eles odeiem, contanto que eles temem.”. Foi dito pelo imperador romano Calígula. A frase reflete de uma forma estupenda toda a sociedade americana estigmatizada, onde o povo americano vive em completo estado vegetativo, sofrendo de ódio ao passo que temem o atual governo bélico. Como Michael Moore mostrou em seu documentário “Fahrenheit 11 de Setembro”, é com o medo que o povo é controlado. Então, uma dica: não veja “Southland Tales” de forma impaciente e não o julge cedo demais. Não o odeie, pois o que Kelly fez foi confrontar o grande medo Hollywoodiano e ir contra toda a maré. Seu filme não poderia ser mais averso e subversivo, ao mesmo tempo que genial e até mesmo brilhante. Olhos abertos!

Southland Tales (2006)
Direção:
Richard Kelly
Roteiro: Richael Kelly
Elenco: Dwayne Johnson, Sarah Michelle Gellar, Sean William Scott, Justin Timberlake, Mandy Moore, Christopher Lambert, Jon Lovitz, Bai Ling, Miranda Richardson, Lou Taylor Pucci, Amy Poehler, Cheri Oteri, Rebekah Del Rio
[Ficção, 145 minutos]

 


Estrada para a perdição

A vida de Bob Dylan, retratada por seis personagens diferentes, cada um refletindo um aspecto da vida do cantor e uma essência de sua personalidade.

“Yes, it’s chaos, clocks, and watermelons - you know, it’s - it’s everything. These people actually think I have some kind of, uh… fantastic imagination. It gets very, uh, lonesome.”

Em certo momento do novo filme de Todd Haynes, o personagem de Jude Quinn diz aceitar o caos, mas fica incerto quanto ao fato do caos aceitar ele. “Não Estou Lá” tem que ser a biografia mais atípica já realizada pelo cinema. O cineasta e roteirista Haynes não se limita a fazer apenas uma releitura da vida de Dylan, seguindo fórmulas e dramas convencionais, mas faz jus ao homem ao arquitetar um filme diversificado, onde os personagens mesclam para formar um. Melhor ainda, mesclam para refletir todos os cantores ou celebridades que já sentiram o gosto da fama. Seu filme é sobre Dylan da mesma maneira que é sobre a indústria da música, a complexidade de sentimentos e a estrada para a perdição. Seu filme é tão atípico e diversificado que a ousadia se torna explosivamente afetuosa, ao mesmo tempo que alienígena. É preciso compreender todas as intenções de Haynes para entender o seu “caos”. Ele aceitou o caos, como Dylan, mas não sabe ao certo se ele mesmo será aceito.

Ousadia é a palavra chave nisso tudo. Audacidade toma controle do volante, ao embarcarmos em planos em contraste refletindo personagens tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, cada um comunicando algo com o outro. É completamente compreensível que a grande falha do filme de Haynes seja mesmo o efeito irregular que tanta ousadia cria, ao analisar o contraste entre planos. Talvez esta seja a intenção do diretor, mas ele poderia tê-la feito fluir de uma forma melhor e mais plausível. O seu filme, porém, denso e significativo, não falha ao cativar e principalmente ao oferecer uma visão introspectiva e simbólica sobre um homem atormentado e apaixonado. O filme é original, completamente inovador e surpreendentemente ambíguo. Seguimos as várias facetas de Dylan com certa curiosidade fascinante e somos diversamente impressionados pelos diálogos certeiros do roteiro ou a criatividade estupenda do visual. Haynes sabe arquitetar uma jornada com primor, e fortalece seu filme ao fazer isso, inserindo referências valiosas ao longo do caminho. Sua narrativa é sensacional.

A paixão intensa com a qual tudo foi realizado fica em primeiro plano a todo momento, mas o elenco espetácular é uma séria ameaça. É até cliché dizer isso, mas Cate Blanchett lidera. Sua atuação é monstruosa e perfeita em sentidos desconhecidos. Ela some e uma pessoa estranha, íntima e distante aparece na tela, com os melhores diálogos e liderando os segmentos mais valiosos de todo o filme. É nesses momentos que percemos o quanto todo o trabalho é expressivo e admirável. Ainda elogio bastante as atuações excelentes de Heath Ledger, em comovente cenas, e Christian Bale, mais uma vez incrível encarnando um personagem transformado pelo destino. Ben Wishshaw tem se revelado um ator bem competente e o jovem Marcus Carl Franklin não deixa a desejar na sua estréia. Richard Gere surge com o segmento mais estranho e protagoniza o elo fraco, não entregando uma atuação memorável ou virtuosa. O mais incrível é que foi com o desfecho maravilhoso que compreendi por completo as intenções de Haynes e o segmento até então fraco de Gere, que no fim, ganha uma significância absurda. O filme é sobre reencontrar a sí mesmo. Depois de mergulhar no turbulento mundo da fama, ainda saber quem você é. Nem todos conseguem, virando vítimas da fama e estigmatizados pelos pensamentos dos outros. O que importa é se imortalizar dentro de sí mesmo, permanecer uma alma intocável.

E assim minha afeição pelo filme todo cresce. Eu adorei a viagem, mesmo que longa, é uma relevante e acima de tudo memorável. A fotografia se concretiza fácil em sua ótica por ser tão formidável e a trilha sonora irretocável é uma que permanece com você por tempos a fio. O filme comunicou comigo e me senti impressionado pela forma com que Haynes decidiu contar sua história. Apesar das falhas, é um filme conquistador significativo. É sobre pessoas e sentimentos, fama e perdição, decadência e descobrimento. Sobre essas celebridades que se perdem e às vezes nunca voltam. Acredito que cada um lerá as entrelinhas de uma forma, e eu senti que foi isso o que Haynes queria dizer, retratando toda a complexidade, todos os contrastes e toda a irregularidade. Enfim, é sobre todo aquele caos. Sobre relogios, melâncias…tudo!

I’m Not There (2007)
Direção:
Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes, Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Ben Wishshaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcua Carl Franklin, Heath Ledger, Kris Kristofferson, Julianne Moore, Charlotte Gainsbourg, Bruce Greenwood, Michelle Williams
[Drama, 135 minutos]

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