Publicado por: Wally | Sábado, Outubro 25, 2008

O Sonho de Cassandra

Neblinosas fraturas de sangue

Cassandra’s Dream (2007)
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkings, John Benfiel, Clare Higgins, Ashley Madekwe
[Drama, 108 minutos]

Irmãos sempre unidos, Ian e Terry seguem suas pacatas vidas como trabalhadores com ambições mas limites financeiros, encontrando no caminho duas mulheres que mudará o rumo da vida de ambos. O estopim para a mudança virá, porém, com a chegada do tio, Howard. Mas o pedido dos irmãos da ajuda do tio logo se transforma numa troca de favores quando este pede dos dois assassinato, deixando profundas marcas em todos os três envolvidos.

Conhecendo o Woody de hoje e não o de ontém, tendo conferido, de antigo, apenas seu primoroso “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, estou aprendendo sobre o cineasta conferindo justamente seus filmes mais criticados. Já tive minhas decepções mas, há dois anos, conheci sua genialidade com seu fascinante “Match Point – Ponto Final”, densamente provocativo. Foi o filme a mudar sua faceta de cômico neurótico à dramaticista nervoso, exprimindo com seu roteiro inspirações de Dostoeieviski maravilhosas. O diretor parece ter se sentido comfortável no território mais psicológico pois, na sua mais nova experiência, aborda um tema tão sombrio quanto denso, também lembrando “Match Point” com seu fim surpreendentemente impactante. Aqui, Woody volta a trabalhar o fator humano não com bom humor e ácidez crítica, mas com um olhar observador que oscila entre o cinismo e o introspectivo. É, antes de qualquer coisa, um admirável exemplar vindo do cineasta e uma obra de múltiplas facetas e virtudes.

O primeiro a se notar porém, no filme concebido em sua maioria por diálogos e debates, é a esperteza formidável do elenco, entregando atuações sempre relevantes. O destaque são os contrastantes Ewan McGregor e Colin Farrell (este retornando ao seu bom tempo como intérprete de “Por um Fio”), que estabelecem desempenhos intrigantes ao mesmo tempo que antagônicos, de maneiras intrigamente intensas, que vão se desenrolando de uma forma misteriosamente satisfatória ao decorrer da sessão. Ainda encontramos, no excelente Tom Wilkinson, um coadjuvante de peso. A trama é, por si só, bastante intrigante. Tudo movido por um lado psicológico fascinante, caracterizado por um roteiro que constrói habildosamente ótimos personagens e diálogos sempre realistas, além de instigantes. Por isso, ao passo que o filme seja lento e praticamente todo dialogado, somos lentamente sendo puxados até o fim, visto o interesse que acabamos por depositar nos personagens bem construídos. Ajuda também ter um compositor simplesmente magistral como Phillip Glass encabeçando o motriz de toda tensão possívelmente gerada, cuja composição para o filme se revelou misteriosa, sombria e extremamente eficiente.

Ainda que, aos poucos, vamos percebendo o descuido de personagens secundários que outrora poderiam ter tido maior relevância e a fragilidade de certos atos nem sempre tão bem estruturados pelo roteiro, continuamos a assistir com um senso de intriga curioso. Woody falha onde não havia em “Match Point”, ao não polir todos os seus extremos como deveria, tornando até mesmo difícil avaliar e julgar certos personagens imprescindíveis para o desenrolar da trama, cujos atos em momentos não soam de todos claros ou mesmo plausíveis. O fim, por sua vez, é imprevisível. Difícil em seu impacto, mas plausível de qualquer forma. Serve-nos para questionar a inevitabilidade de nossos atos e entrar em confronto com os nossos lados mais sombrios. Mas, ao mesmo tempo que seja difícil para nós, não consegui isolar a idéia de que tudo tenha sído uma saída um tanto fácil tomada pelo roteirista. Tudo bem que exprime muito significado, mas o conceito de final tão rápido soou fácil pelo ponto de vista de concepção.

Ainda assim, o filme é uma análise sufocante do ser humano, mesmo que esta análise tenha se revelado frágil em um pacote sem muita ousadia e até mesmo faltando aquela densidade que poderíamos esperar. De qualquer forma, é mais um exemplo do quanto Allen é um talento bem maior na construção de dramas e personagens do que comédias neuróticas, sejam elas descompromissadas ou pretensiosas. Seu filme é uma bela mirage situada em um deserto sem grande atrativos. Allen pode não inovar, mas usa do que sabe (e do que sabemos) para criar um filme íntimo e até mesmo pertubador sobre a finitudade humana e conceitos distorcidos da definição de maldade. É como enfrentar uma neblina à procura de respostas. Não existirão tão fácil, até mesmo para quem conseguir identificar as fraturas incontestáveis do ser humano que sob certa pressão, podem soltar uma gema sangrenta de receios, temores e inseguranças.

Nota: 7,5

SINDICATO DOS CINÉFILOS: 66% (+)

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Responses

  1. Wally, vc deu exatamente a mesma nota que eu. Sabe oq me incomodou demais? O excesso de metáforas inseridas no longa; acredito que elas não eram necessárias, dada a complexidade do roteiro. Colin me surpreendeu demais neste filme, assim como Ewan.

    Abraços!

  2. Acho que “O Sonho de Cassandra” é um dos melhores filmes do ano, sem dúvida outro grande trabalho do Woody Allen – fica praticamente no mesmo nível de “Match Point”. A história é um tanto difícil, mas fiquei bem satisfeito com as decisões do diretor – inclusive o desfecho.

  3. Concordo com a cotação e quando vc diz q apesar de não ser tão denso e ousado, ainda sim tem o seu valor. Mas acho q o Allen é tão genial na comédia neurótica q é sua marca típica quanto nesse estilo de drama q ele abraçou desde o genial “Match Point”. Voltando ao filme, o q mais me surpreendeu foi a atuação do Colin Farrell, um ator q nunca valorizei muito.

  4. wally, alem de eu participar do cinefilando eu te vi no dvd magazine onde estou fazendo resenhas tbm (acho as suas geniais).
    Realmente Sonho de Cassandra é um “pesadelo” de Woody Allen!
    bjokas,
    vivi

  5. O velho Woody é muito bom, mas dos mais recentes o único que destoa é Match Point, excelente filme. Terei que conferir esse Cassandra Dreams.

    Abs!

  6. Como você sabe, achei meio insatisfatório. Acho que a trama previsível foi tratada de forma óbvia, que só tem bons momentos por causa de Colin/Ewan e da trilha sonora de Glass. E o final podia ter sido melhor trabalhado, e não finalizado o longa de forma abrupta.

  7. Eu sou daqueles que acha que os clichês não conseguem estragar o filme. Se fosse assim o Woody Allen já teria morrido de fome, afinal ele trabalha em cima de clichês pessoais. Sempre foi assim. E sempre gostaram, porque agora, no final da carreira vão começar a metralhar o nanico. Filmaço!!!

    Abraço!

  8. Wally, só um comentário:

    Estou com um novo blog na área. Deixei o Cinefilando e abri o Bit of Everything (http://bitlofleverything.blogspot.com/). Seu blog já foi adicionado!

    Abraços!

  9. Achei um bom trabalho do Woody… além do mais um grande salto depois do péssimo Scoop…

    vlws

  10. Wally, eu estou adorando a nova fase do Woody Allen e conheço muito pouco dos filmes que ele dirigiu antes de reencontrar a sua virtuose em longas como “Match Point”.

    Dizem que este “O Sonho de Cassandra” tem muito a ver com “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”. Como eu adorei o longa de Sidney Lumet, espero gostar do filme do Woody Allen.

  11. Gostei dos pontos que você ressaltou no texto, Wally. Mas O Sonho de Cassandra me frustra por ser um filme que poderia ser muito mais, não fosse o final. O pior é não acho que seja culpa do roteiro, mas sim da própria direção do Allen, que desprezou completamente o peso dramático de uma abordagem mais elaborada. Parece até que estava querendo poupar tempo… ou que o filme acabou antes dele rodar a verdadeira cena final.

  12. Meu comentário sumiu….

    Enfim, gostei do filme. Não me importei nem com o final abrupto.

    Abraço!

  13. Eu ainda não assisti, mas fiquei curioso pelo elenco e pela história.

    Abraço

  14. Bom, se for para ver uma obra pensarosa, reflexiva e bem-interpretada de um artista inteligente como Allen, então a sugestão está anotada, embora haja também aqueles que não se empolgaram com esse filme. Na verdade, VICKY, seu novo filme, parece mais interessante!

    Cumps.

  15. Comprei! Tá comigo e verei em breve… já não esperarei tanto, nossas cotações e idéias são bem parecidas, né? hehehe

  16. Kau até que não notei ou me incomodei com isso, mas sim, o deslocamento da abordagem de Woody às vezes na direção, que em momentos deixava até os personagens danificados. Mas sim, Farrell está surpreendemente bem. E estarei te adicionando ao blogroll.

    Vinícius apesar de não ter gostado tanto quanto você, admirei bastante inúmeros aspectos do longa (incluindo o final, em parte ao menos). Mas acho Match Point um filme bem mais superior, tanto em questões de roteiro quanto em direção.

    Romeika é aquilo que coloquei no texto, não conheço a fase boa de Woody nas comédias, sendo a única exceção “Annie Hall”. Conheço o fraquíssimo “Iqual a Tudo na Vida” e o bem mediano “Scoop”, apenas. Por isso, o peso quando se é analisado seu cinema mais denso e dramático. E sim, Farrell destaque-se bem no filme, me surpreendeu.

    Viviana vi mesmo seu nome por lá! E muito obrigado! Bem, o filme é mesmo meio assombroso, como um pesadelo.

    Marcus concordo, dos últimos filmes dele, o grande tem que ser “Match Point”, uma aula de como se deve fazer cinema.

    Matheus eu gostei do filme sim, e da abordagem em momentos. Ainda assim, o filme tem umas inconsistências incômodas e, apesar de achar as implicações do final estupendas, é bem perceptível que o desenvolvimento em sí dele foi preguiçoso. Agora, os destaques são mesmo o elenco e a trilha, primorosa.

    Pedro interessante essa sua visão. Para mim, Woody tenta sempre buscar visões paralelas, distintas ou em conexo quanto à mediocridade humana e em como nossa mente funciona diante de situações amorosas ou de perigo. Também gostei do filme, ainda que não o considere um “filmaço”. Deixo esta classificação para sua obra-prima, de 2005.

    Sérgio verdade, Scoop não achei tão ruim, bem mediano na verdade, mas é gratificante ver uma obra densa depois de sua comédia neurótica. Ainda acho que ele deveria se ater ao drama psicológico mesmo, acredito que seus dias de cômico neurótico ficaram para trás.

    Kamila também conheço muito pouco da fase pré-Match Point e estou gostando dessa nova onda de dramas psicológicos inspirados soltamente em Dostoievski. Ele deveria continuar nesse estilo. E li mesmo comparações entre este e o filme de Lumet. Todas, porém, acusaram o filme de Lumet de ser superior. O verei em breve.

    Luciano concordo completamente. Em parte, gostei das implicações subjetivas do final, mas o desenvolvimento em sí do ato foi preguiçoso, para dizer o mínimo. Mas também, foi um dos meus poucos problemas do filme, que achei bem satisfatório.

    Hugo veja, é um bom, interessante drama.

    Gustavo o filme é bem isso mesmo, merece ser visto. Mas também acredito que Vicky será de alguma forma superior.

    Robson tenho um pressentimento que me diz que você gostará, ainda que pouco.


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