Publicado por: Wally | Quarta-feira, Abril 2, 2008

Jogos do Poder

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A soma de todo cinismo

A história de um congressista de Texas, Charlie Wilson, e como ele assistiu aos rebeldes do Afeganistão durante a guerra com os Soviéticos. Mas sua ajuda causou muito mais barulho do que ele esperava.

O filme Jogos do Poder é um bastante simples, apesar das sofisticações do roteiro, dos pequenos detalhes e o fato de tratar de uma trama política. Talvez por ter sido tão bem escrito. O roteirista Aaron Sorkin, que adaptou o elogiado livro sobre a história verídica de Charlie Wilson, não só escreve com atenção à detalhe, à personagem e, principalmente á diálogos, mas sabe construir sua trama, delineando a narrativa para que nada soe complicado ou cheio demais para o espectador entender. Basta um conhecimento básico para ser entretido e até fascinado por esse conto refrescante, que hoje soa extremamente cínico, graças à habilidade de Sorkin em inserir o filme de alguma forma na realidade atual. É cínico, bem humorado, sofisticado e entretenimento valioso. A força do filme está aí, no roteiro. E é uma lástima ter que dizer que só não é melhor porque Mike Nichols não conseguiu o deixar melhor.

Acreditem, a maior falha do filme está na direção do cineasta brilhante que nos trouxe as pérolas Closer – Perto Demais e A Primeira Noite de um Homem. Não parece o mesmo diretor desses filmes e, apesar de muitos momentos inspiradíssimos e outros onde percebemos – claramente – a decência do diretor, ficou bem aquém das expectátivas. Mas o filme funciona, muito bem por sinal, tanto por causa do roteiro quanto por causa dos fatores trabalhando a favor dele. Nesse caso, entram elementos como construção de época habilidoso, recursos técnicos valiosos e uma estética louvável, principalmente direção de arte e figurino. Ajuda a situar o espectador na época, no local, e os diálogos conseguem nos inserir diretamente na história, seguindo o ritmo acelerado dos personagens. Alias, é impossível não elogiar os geniais diálogos. Cada um melhor e mais influente que o outro. Não estão ali para enfeite ou para encher linguiça. A maioria quer dizer alguma coisa. São importantes. E, numa época recheada de produções pomposas e blockbusters descerebrados, é bom ver um filme que adiciona algo, que consegue facilmente fascinar e envolver, além de claro, entreter.

Além do excelente roteiro, destaco o elenco. Tom Hanks está claramento longe daqueles seus dias mais gloriosos. Talvez a idade o tenha carregado muito cedo. Mas é fácil perceber o quanto ainda é competente. Não surpreende ou se sai acima do esperado, mas é um bom desempenho, que traz a irreverência adequada ao papel, tornando Charlie Wilson em uma pessoa autêntica e real, mesmo que nós saibamos que ele tenha existido de verdade. Ao seu lado, me decepcionei um pouco mesmo com Julia Roberts. Está linda, ta com belo figurino e maquiagem perfeita, tem ótimos diálogos, mas ela – e sua personagem – não adicionam muito ao filme. Ela está – odeio dizer – um pouco sem vida. A ela falta autênticidade. Mas é compensado pelo elenco coadjuvante que, além de incluir carismáticas Amy Adams e Emily Blunt, encontra em Philip Seymour Hoffman o seu maior forte. Hoffman, além de vibrante e essêncial para o entretenimento e o prazer obtido ao final da sessão, comprava que Capote não foi apenas um papel para toda sua carreira (principalmente porque ele teve outros muito bons antes) e que depois do Oscar ele ainda vai entregar muita coisa boa. Seu talento é incontestável e sua performance, irretocável. Ajudada claramento pelo figurino, maquiagem e os diálogos preciosos. Um primor.

Ou seja, fatores assim acabam deixando Jogos do Poder com o sentimento de um grande filme, mesmo que não seja. É ótimo, e eu seria ignorante ao não apontar suas maiores qualidades. Qualidades estas que, na maior parte das vezes, fazem com que os defeitos pouco transparecem. O roteiro inteligente envolve a audiência, a mantém até o final. Nichols conduz de forma aceitável, com alguns valores indispensáveis, mas falhando ao não trazer mais vida ao filme, que em muitos momentos soa seco, apesar do humor sempre presente e sempre agradável. É recomendado, veementemente, por suas grandes qualidades, seu cinismo primoroso – que em sua soma faz com que o humor vença a conciência do espectador – e claro, seu ótimo elenco, realmente divertido. O filme é isso. Longe da obra-prima que prometia ser há alguns meses atrás, mas bem perto de uma sessão querida e bem arquitetada, que merece atenção pela simples coragem ao abordar certos temas e os direcionar com tanta ácidez.

charlie-wilsons-war-1.jpg

[Charlie Wilson’s War, 2007]
Direção:
Mike Nichols
Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de George Crile
Elenco: Tom Hanks Philip Seymour Hoffman Julia Roberts Amy Adams
[Drama, 97 minutos]

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Responses

  1. Nossa tenho certeza que esse filme eu nao iria gostar! Não sou muito chegado em trama politica! acho bem complicado de entender… e tb não me chamam a atençãO!
    —-
    Nossa. mais tenho certeza que se vc voltasse a ver Smallville iria voltar a gostar da serie. Depois da 5ª temporada ela teve um gde evolução na minha opinião, e a temporada que esta no ar está ainda melhor!

  2. Filmes polítcios têm me atraído nos ultimos tempos, filmes que debatem idéias, mostram caraters, enfim, ehehhe
    tava esperando por esse aí ha´um tempão chegar nos cinemas daqui, devo assiti-lo nas locadoras…
    abraços, wally!

  3. O filme em si não achei nada de mais, fiquei assombrado com a atuação do ótimo Philip Seymour Hoffman.

    6.5

    Abraço!!!

  4. Wally, concordo com você em muitos pontos. A direção do Mike Nichols é falha. O roteiro do Aaron Sorkin é maravilhoso e Philip Seymour Hoffman arrasa.

    Discordamos em relação ao Tom Hanks. Achei que a performance dele, nesse filme, foi uma das mais naturais da carreira dele.

  5. Hmmm… Você sabe que não gostei tanto assim, mas o Sr. tocou num ponto interessante. O roteiro é legal, mas talvez o Mike Nichols não tenha entrado no espírito da coisa, né?

    Por exemplo, como ele se agarrou no texto do Patrick Marber, em CLOSER.

    Abs!

  6. Acho o roteiro muito bem intencionado – mas certos escorregões fazem dele algo que abusa dos nervos em mais de uma passagem. Seymour Hoffman domina a cena, indicação justa ao Oscar (para variar) e Hanks e Roberts apenas cumprem um papel aceitável, longínquo de seus verdadeiros talentos. Mike Nichols entregou uma direção sem surpresas, mas talvez uma das mais fracas de sua carreira.
    Nota: 7,0 (***)
    Abraço!

  7. Como disse para a Kamila, esperava muito mais desse filme (que chegou a ser um dos favoritos ao Oscar na época em que não tinha sido lançado ainda). A questão é que apenas o roteiro do Aaron Sorkin é um aspecto a ser considerado, visto que a direção do Nichols é por demais descompromissada. E concordo com você, o elenco também está bem – apesar de não enxergar nenhuma grande atuação, nem mesmo do Hoffman.

  8. Lucas, gosto de filme político quando consegue fascinar. E este me foi bem interessante. E quando estiver com tempo, voltarei a ver Smallville sim.

    Rodrigo, acho que será um pedido ainda melhor sem o compromisso do cinema.

    Pedro, realmente Hoffman está excelente!

    Kamila, também achei natural, só não achei tão boa quanto as anteriores da carreira dele. Mas eu gostei. Acho difícil resistir à qualquer performance de Hanks.

    Otavio, Closer é um casamento perfeito entre roteiro, direção e elenco. Maravilhoso filme!

    Weiner, na maior parte concordo com seu comentário. Ta bem preciso. Só valorizei mais o roteiro de Aaron Sorkin mesmo.

    Vinicius, eu também esperava um pouco mais. Mas eu gostei. Consigo lidar bem com decepções, rsrsrs (vide Homem-Aranha 3 e O Código Da Vinci). Mas adorei a performance de Hoffman, o melhor aspecto do filme, ao lado do roteiro.

    Ciao!

  9. […] cujo padre intriga por tamanha complexidade e vulnerabilidade emocional. As coadjuvantes Amy Adams (Jogos do Poder) – magnificamente forte – e Viola Davis (Noites de Tormenta) – que faz de 10 minutos momentos […]


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