Publicado por: Wally | Segunda-feira, Junho 15, 2009

Frost/Nixon

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Depois do incidente de Watergate, o público americano queria respostas para os atos do presidente infame Richard Nixon. É quando surge David Frost, ambicioso apresentador/ jornalista que reúne um grupo para arquitetar uma entrevista com Nixon que será vista por em torno de 400 milhões de pessoas em rede nacional. Surge então o duelo enquanto Nixon se defende e se esquiva dos questionamentos e acusações de Frost.

Quando Richard Nixon se resignou, após o vergonhoso escândalo de Watergate, os Estados Unidos inteiro viu a presidência com um olhar diferente, muito como a casa branca foi vista durante os mandatos de George W. Bush. As pessoas queriam respostas, e o ex-presidente definhava em sua luxuosa mansão, vivendo às custas de sua mediocridade. Alias, já aponto aqui a minha reprovação quanto ao trigésimo-sétimo presidente dos EUA, um homem que abria mão até mesmo de suas crenças para chegar onde queria (mudou do partido democrático para republicano quando perdeu as eleições). O filme de Nixon, propriamente dito, é o “Nixon” de Oliver Stone (quem mais?), mas “Frost/Nixon” é ótimo ao humanizar o personagem e traze-lo num embate fervoroso com David Frost, numa entrevista histórica que serviu de palco para um duelo deliciosamente rico entre dois homens que se viam à beira do precipício. Dirigido de uma forma muito instigante por Ron Howard (Anjos e Demônios), o filme baseia-se numa peça escrita por Peter Morgan (A Outra), que também assina o roteiro cinematográfico. Os dois atores principais, Martin Sheen (Anjos da Noite – A Rebelião) e Frank Langella (O Corajoso Ratinho Despereaux), também personificaram os personagens no teatro.

Primeiramente, é válido ressaltar que, mesmo baseado em uma peça, “Frost/Nixon” deixa suas características teatrais para trás, num roteiro bem estruturado e uma direção que, ainda que não reserve nada original, cumpre seu dever ao conseguir arquitetar o filme com riqueza de nuances e planos que capturam de forma ácida e envolvente discussões e bastidores. O filme de Howard é daquele típo de exercício cinematográfico louvável cuja ação se reserva à força de seus diálogos e, neste aspecto, as cenas das entrevistas entre Frost e Nixon são cenas de ação excelentes. E os enquadramentos são bons, os diálogos eficientes e o retrato dos bastidores consegue inserir autênticidade digna ao longa. Mas o brilho aqui, o motriz do filme e que o faz ecoar é a força de seu elenco. Langella traz um Richard Nixon despido de qualquer exagero, ao não realizar uma imitação e se deixar levar pela composição honesta e pungente do homem. Enquanto isso, Sheen não definha diante do talentosíssimo ator mais velho, e encarna Frost com uma densidade notável, conferindo a ele olhares extremamente eficientes em meio à ansiedades. Ambos compõem um painel genuíno, e o duelo não se reserva apenas aos personagens (apesar dos atores sumirem em seus papéis) mas também aos atores, que desafiam um ao outro tanto fisicamente quanto psicológicamente. É impossível não vibrar diante de tamanha eletricidade.

O elenco, porém, não se limita apenas à Sheen/Langella. Elogios merecem ir à um ótimo Sam Rockwell (Choke – No Sufoco), o excelente Kevin Bacon (Ligados pelo Crime) e coadjuvantes de peso como Matthew Macfadyen (Morte no Funeral), Oliver Platt (Ensinando a Viver) e Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona). Eles adicionam vida ao trabalho muito bem editado, e conduzido com instigação natural por Howard, que parece evoluir sua linguagem cinematográfica mesmo que o trabalho em si não denote nenhuma originalidade e se reserve à ser demasiadamente acadêmico. Howard aposta no poder do primoroso roteiro de Morgan (compensando o fraco script de “A Outra”), voltando à boa forma de “A Rainha”, onde possui a chance de compor personagens com desenvoltura e imensa densidade. O retrato de Morgan do personagem de Nixon é de um homem bem arrogante e incapaz de reconhecer seus atos, definhando diante de acusações ao enrolar seu acusador com respostas longas e irrelevantes. Mas é na última cena entre Nixon e Frost que vemos o quanto o personagem é bem composto, roteirizado por Morgan sem cair em armadilhas de biografias habituais, ao entregar Nixon não como um mero homem da história, mas como um ser humano, antes de qualquer coisa.

E estas virtudes transformam “Frost/Nixon” no típo de filme imperdível que, mais do que entregar o retrato de um fato histórico, nos fascina ao construir belos personagens, ótimos diálogos e dignos momentos de drama que elevam o longa à muito mais do que um mero testemunho. Mesmo que seja notável a carência de um formato mais ousado, Howard acerta o suficiente para compensar seu erro e faz de “Frost/Nixon” sua direção mais recompensadora ao lado de “Uma Mente Brilhante”, provando ser sim um contador de histórias hábil, claramente ajudado pelo furor de um roteiro impressionante e um elenco bom de mais para meros elogios. E o filme, portanto, termina contigo, e pedirá revisões e revisões. Afinal, nada é mais fascinante do que testemunhar personagens tão críveis em duelos tão escaldantes e reais. Como um drama realizado à base de diálogos, “Frost/Nixon” pode não ser poderoso aponto de sobreviver à passagem do tempo, mas não só descobre belo ritmo, mas te deixa querendo mais ao final. Uma forte recomendação.

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Frost/Nixon (2008)
Direção:
Ron Howard
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Sam Rockwell, Kevin Bacon, Matthew Macfadyen, Oliver Platt, Rebecca Hall, Toby Jones, Andy Milder, Kate Jennings Grant, Gabriel Jarret
(Drama, 122 minutos)

Disponibilidade | 15 de Julho nas locadoras.


Responses

  1. Olá, descobri seu blog em outros q participo, dei uma olhada e achei espetacular a nível de conteúdo, bastante abrangente, parabéns pelo trabalho, vou indicá-lo no meu blog e passar aqui mais vezes blz? Ah, gostei muito de Frost/Nixon, Frank Langella arrasou na atuação, Michael Sheen tbm está ótimo..abs! Diego!

  2. Ainda bem que Ron Howard não sucumbiu à teatralidade das origens do material. Gosto de filmes sobre presidentes americanos, e espero poder ver esse logo.
    Aliás, deviam fazer mais filmes sobre presidentes brasileiros no nosso país!

  3. Baita filme. Muito bem conduzido pele diretor e com ótimas interpretações, como você bem disse.

    Abs!

  4. Ron Howard mostra que ainda pode produzir ótimos filmes; Frost/Nixon e é prova disso!

  5. Adorei o filme, e sobre tudo as atuações, acredito que elas sim tivedram alguma carga do teatro, já o filme por completo, segue como se espera… pelicula de primeira.

    Abraçoe te mais!!

  6. OUTRO QUE EU AINDA NÃO VI E QUE PRETENDO VER EM BREVE (NUNCA ESTREOU NA MINHA CIDADE), MAS NÃO ESPERO MUITA COISA DELE.

    ABRAÇOS

  7. Frost/Nixon pode não ter sido o melhor filme do ano passado mas com certeza foi um dos que mais superou expectativas. O Langella sumiu dentro do seu Richard Nixon…
    abs.

  8. Outro filme que ainda não vi e que tenho uma enorme curiosidade em conhecer. Obrigado pela crítica!

  9. Olá, Wally. Sou um grande admirador dos seus textos e, como acabei de criar meu blog (http://bsmovies01.blogspot.com), quero te convidar pra dar uma passada por lá. Já te adicionei, espero que goste. ;D

    Sobre Frost/Nixon, pra mim foi uma das grandes surpresas do ano. Não esperava que o Howard fizesse algo tão rico e eletrizante. Ótimo mesmo.

    Abraço!

  10. Acho a interpretação do Langella brilhante, merecedora da indicação ao Oscar (e, se não estivesse concorrendo com Penn e Rourke, provavelmente mereceria vencer). É impressionante como, mesmo não se parecendo com o verdadeiro Nixon, o ator nos convence de que aquele é o ex-presidente, impondo sua presença em cena.
    No entanto, acho o filme apenas bom, acho irregular, os coadjuvantes são mal trabalhados, e a direção do Howard meio preguiçosa.

    • Diego, muito obrigado! Estarei te linkando também. E ambos estão mesmo brilhantes.

      Gustavo, o filme não é exatamente sobre Nixon, mas grande parcela é focado nele mesmo. E realmente deveriam ter mais brasileiros mesmo.

      Pedro, exatamente.

      Bruno, isso mesmo, mas eu sempre gostei de Howard (raras exceções).

      Ygor, os atores com certeza tiraram proveito de suas representações no teatro, mas não vi teatralidade nenhuma na película.

      Brenno, veja assim que puder com a chegada em DVD, vale a pena.

      Charles, concordo. Principalmente quanto à Langella.

      Filipe, por nada! E confira mesmo, vale a pena.

      Bruno, já visistei teu (excelente) blog, você está linkado.

      Wallace, concordo totalmente com seus comentários quanto à Langella, mas apesar de redonda, não achei a direção preguiçosa e nem os coadjuvantes mal trabalhados.

  11. É o filme popularmente chamado de “parado” mais ágil e empolgante da história do cinema. Um dos melhores lançamentos deste ano!

    Abs1

    • Otavio, concordo plenamente.

  12. FROST/NIXON é um daqueles filmes que marcam e que com certeza veremos referências futuras, dentro ou fora das telonas.

    SORO: fotografia; atuações; roteiro, produção; direção; maquiagem; figurino; som.

    VENENO: Kevin Bacon pouco explorado.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

  13. Não sou exatamente um fã do Ron Howard ou do cinema que ele realiza, mas confesso que fiquei completamente “vidrado” na trama desse filme desde seu início até o ótimo desfecho. Incrível como o texto prende nossa atenção por duas horas sem nunca cansar.

    • Anderson, concordo com tudo menos sobre Bacon.

      Vinícius, realmente o filme instiga e vibra, como poucos do gênero conseguem.

  14. Realmente não esperava muita coisa de “Frost/Nixon”, mas realmente me surpreendeu bastante. Ron Howard conseguiu conduzir a história (e principalmente os dias da entrevista) com ótimos dialogos, sem se tornar monotono.

    Beijos! ;)

  15. Os dialogos e a forma como estes foram conduzidos, alem da atuacao de todo o elenco, com destaque para os dois protagonistas fizeram desse filme muito bom, com uma trama que nao cansa nunca, pelo contrario, soh deixa o espectador mais curioso pra ver o q vai acontecer.

  16. Este foi o filme que mais demorei para ver na vida, acho que foram uns sete dias para completa-lo.

    • Mayara, e esse é mesmo a grande força do longa, fugir na monotonia mesmo num roteiro recheado de diálogos e retóricas.

      Romeika, disse tudo! Concordo completamente.

      Luis, sério? Eu não conseguia parar, tamanha a instigação que implantou sobre mim. Tudo foi muito bem conduzido e valorizado.

  17. […] em bilheteria. A crítica, nada receptiva, não o acolheu tão bem. De fato, o filme de Ron Howard (Frost/Nixon) tem seus inúmeros defeitos (no geral graças ao script simplório), mas a direção de Howard […]


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