Publicado por: Wally | Quarta-feira, Maio 27, 2009

Choke – No Sufoco

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Victor Mancini teve uma criação nada ortodoxa que o levou a ser – já adulto – um homem com sérios problemas. Viciado em sexo e incapaz de se relacionar de forma madura com as pessoas, Victor precisa também cuidar de sua mãe, que está internada num hospital e precisa de cuidados especiais. Para sustenta-la, Victor se alimenta da simpatia dos “heróis” que o salvam depois que ele se força a engasgar em cada uma de suas idas à restaurantes.

Victor Mancini é do típo de personagem incrédulo e, na maior parte das vezes, repugnante, que tantas vezes tentamos evitar cruzar o caminho. A coragem que alguém teria que ter em não só construir um personagem como este mas também coloca-lo como o “herói” de uma história, é algo que precisa ser reconhecido. Pois o já polêmico Chuck Palahniuk escreveu um livro inteiro sobre este homem, suas neuras e a consequência delas na vida dos outros. Apesar de não ter lido o livro, é bem seguro dizer o quão irreverente este deve ser, tendo em vista outro livro escrito pelo mesmo autor, que virou o excelente filme de David Fincher, “Clube da Luta”. “Choke – No Sufoco” abandona muitos dos elementos da adaptação prévia do livro de Palahniuk, principalmente a densidade. O roteirista (e também diretor, na sua estréia) é Clark Gregg, cujo primeiro roteiro foi o eficiente script para “Revelação”. Gregg é mais conhecido pela sua carreira como ator (coadjuvante) e marca pontos com o roteiro veementemente cínico de “Choke”. Pena que a direção seja tão repleta de falhas.

“Choke – No Sufoco” tem uma ótima linhagem de personagens que se esquivam de todos os clichês possíveis e te conquistam pela simples irreverência escandalosa aplicada pelo roteiro que é tudo menos politicamente correto. O próprio Victor Mancini é interpretado por Sam Rockwell (Joshua – O Filho do Mal) com uma postura sempre interessante e que nunca deixe que Victor se transforme em um ser deplorável e unidimensional. Além de fascinante, Victor pode ser também bastante agradável apesar de suas nada agradáveis manias. O filme, portanto, apesar de rodear seu enredo com situações em vezes imorais e irritações habituais, consegue te cativar por ter em Victor um ser humano completo, inclusive com um passado muito bem construído. O roteiro oscila o presente com o passado de Victor, no qual era muito mal criado pela sua neurótica mãe (para não dizer insana). O homem é o produto de seu meio? Palahniuk acredita que sim. E nós concordamos.

Mancini se mete com outros personagens igualmente interessantes, como a médica interpretada muito bem por Kelly Macdonald (Onde os Fracos Não Tem Vez) e, claro, com sua mãe, digna numa performance imperdível de Anjelica Huston (Ensinando a Viver). “Choke – No Sufoco” é, portanto, um filme de muitas virtudes. O problema maior, e o que inibe uma suposta genialidade de aflorar, é a inconsistência com a qual ele é conduzido por Gregg, que mais fabrica momentos irregulares do que engraçados. A comédia, alias, muitas vezes fica totalmente perdida. Os risos são poucos, mesmo que bem conceituados quanto existem. A verdade é que o texto de “Choke – No Sufoco” é cheio de fragilidades que precisam ser bem conduzidas. Em vezes, sente-se que Gregg achou um ponto certo e algumas cenas são ótimas. Mas nem é sempre assim e o filme se apresenta diversamente irregular e até mesmo exagerado. É uma sessão um tanto difícil de digerir pelas emoções muitas vezes estranhas postas na tela sem muita textura.

Apesar de tudo isso, “Choke – No Sufoco” ganha sua admiração e tem seu respeito pela sua originalidade e a acidez com a qual ele ronda elementos como criação, sexo, amizade e egoísmo. Atinge seu pique quando entra em cena um aspecto religioso gritante de tão ousado, uma das vezes em que percebe-se que Gregg achou equilíbrio entre seu texto e sua filmagem. Mas, mesmo que a narrativa nem sempre seja bem sucedida, Gregg consegue se sair bem no aspecto visual, arranca boas atuações de seu elenco e emprega um ar muito digno ao filme. É uma pena, porém, que ele não tenha agraciado uma densidade que torne o filme tão crítico a ponto de não se tornar descartável. Não é exatamente esquecível. Alias, seria bem difícil ele ser isso. Mas não deixa de ser um filme que engasga em suas próprias ambições – com o perdão do trocadilho. E pode ser que, como certo acontecimento hilário no filme, a obra não encontre alguém com os olhos abertos o suficiente para abraçar o que ele tem a entregar. E nem, por isso, simpatize por sua extrema vulgaridade. Uma vulgaridade, porém, inofensiva. Algo muito bem retratado pela última cena do filme, que é muito, muito gratificante. Tanto como estudo de personagem, quanto como lirismo irônico. O doce deixado ao fim quase que ameniza toda a amargura anterior, e “Choke – No Sufoco” finalmente eleva-se da total bestialidade que comete em tantos momentos.

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Choke (2008)
Direção: Clark Gregg
Roteiro: Clark Gregg, baseado em romance de Chuck Palahniuk
Elenco: Sam Rockwell, Brad William Henke, Anjelica Huston, Kelly Macdonald, Jonah Bobo, Paz de la Huerta, Bijou Phillips, Clark Gregg
(Comédia, 92 minutos)

Disponibilidade: Já nas locadoras.


Responses

  1. e eu nem conhecia nada sobre o filme.
    :/

  2. Parece ser um bom filme, que deve valer mesmo pelas atuações de seus atores. ;)

  3. Muita falação, por ser do mesmo escritor de ‘Clube da Luta’, e não passa de um filme razoavel, com uma boa atução de Rockwell.

  4. Muitos blogueiros falaram muito bem do filme e acho que você foi um dos primeiros que tem uma opinião mais “moderada”, o que é bom para criar um contraste. Estou com ele aqui há séculos, espero ter tempo para conferir em breve…

    • Gustavo, pois agora conhece. ;)

      Mayara, o elenco é o ponto alto, sem dúvida.

      Cleber, não acho o termo “muita falação” digno de um adjetivo para qualquer filme mas, sim, é um filme que se carrega em cima da irreverência de seus diálogos. Rockwell está mesmo muito bem.

      Vinícius, o filme tem bastante virtudes, mas não tem como ignorar as irregularidades. Ainda assim, o saldo final é bem positivo. Procure ver.

  5. Ainda que seja do autor de CLUBE DA LUTA, e mesmo com um ou outro bom nome no elenco, a sinopse e os nomes por trás da câmera não despertaram muito o interesse. Fica para outro dia…

    Cumps.

  6. Não conhecia, mas gostei muito do pôster! Entrou na minha lista… hehe. Abraço, Wally!

  7. Como fã de “Clube da Luta”, quero muito conferir este filme, até mesmo porque estou curiosa para ver a direção do Clark Gregg, que resultou num filme que tem conseguido muitos elogios dos colegas blogueiros cinéfilos.

  8. Se juntarmos todos os filmes do irmãos Farrely, do Apatow e mais alguns não chegaremos na metade da qualidade deste filme!

    • Gustavo, apesar dos defeitos, sugiro bastante o filme.

      Rafael, procure sim.

      Kamila, o filme é inferior à “Clube da Luta”, mas é um bom pedido.

      Pedro, não é pra tanto, mas é bom.

  9. Cara, ando muito afim de ver esse filme, especialmente pelo fato de ser baseado em um livro do Palahniuk (não li nada dele, mas o fato de ter inspirado Clube da Luta já me anima). E gosto do Sam Rockwell, ele costuma brilhar nesses filmes menores.
    Mas tenho visto pouquíssimos lançamentos, tô numa fase de ver muito filme nacional das décadas de 60 e 70. Assim que sobrar um tempo, no entanto, verei Choke.
    Abraço.

  10. Sou fã de carteirinha do escritor Chuck Palahniuk -participo de comunidade e tudo – e a história do filme vai além da lisergia.
    Achei que transportado para as telas ficaria um tanto esquisito, e foi isso mesmo que aconteceu,
    a tela fica pequena pra tanta sandice do autor e não fica muito espaço para as reflexões, uma coisa que seria 100% aproveitada no livro ,mas só por ser baseado num conto de Chucky vale uma espiada. E a trilha sonora desse filme é ótima, principalmente a última música do final ( quem souber poderia me dizer de quem é )

  11. a música é Reckoner do Radiohead. Achei dois minutos depois de ver o filme

  12. […] porém, não se limita apenas à Sheen/Langella. Elogios merecem ir à um ótimo Sam Rockwell (Choke – No Sufoco), o excelente Kevin Bacon (Ligados pelo Crime) e coadjuvantes de peso como Matthew Macfadyen (Morte […]


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