Publicado por: Wally | Quarta-feira, Abril 23, 2008

Senhores do Crime

 
Cicatrizes violentas

Anna é uma simples e inocente enfermeira que, por acaso, encontra numa jovem adulta morta, um diário altamente relevante e perigoso. Ela acaba cruzando os caminhos com Nikolai, um misterioso homem que ao mesmo tempo que motorista para a família mafiosa Vory v Zakone, parece em quem confiam para acertar contas pendentes. Quando o perigo de Anna e o diário se torna mais crescente para a família, o nível de intriga e tensão predomina.

O que define um ser humano? Melhor ainda, o que define as escolhas que uma pessoa faz ao decorrer de sua vida? David Cronenberg, que de uma carreira iniciada com projetos loucos que hoje atingem estado cult, conseguiu há poucos ano, atingir a maestria com seu violento e denso filme Marcas da Violência, que focava justamente o poder do passado, a ambigüidade do ser humano e sua capacidade de fazer escolhs. Tal assunto volta a ser tratado em seu mais novo filme. Mesmo que de forma menos intensa. O que faz de seu novo filme um trabalho de arte tão único e forte é a forma como aborda tais elementos, com originalidade e extremo detalhismo. A forma como Cronenberg nos envolve lentamente até o núcleo de sua história é incrível, e satisfação é o mínimo que obtemos ao fim, depois de termos sido fascinados, entretidos e chocados, talvez pela brutalidade, ou talvez pela honestidade.

O que marca mesmo o filme é seu desejo em querer desvendar o que há de mais sombrio na mente humana. Melhor ainda, vai a fundo ao investigar que, além do sombrio, pode sim existir vestígios de uma velha e inocente vida, deixada para trás, estigmatizada e finalmente cicatrizada pela violenta realidade predominante e intensa. A capacidade do ser humano, sua vulnerabilidade sempre crescente, em ceder para o mais fácil, se tornando uma criatura estranha até para sí mesmo. É o que occore com Nikolai, interpretado com brilhantismo por Viggo Mortensen, numa performance ainda melhor que demonstrada no exemplar anterior de Cronenberg. Sua minuciosidade e seu trabalho arrebatador na construção de personagem, exterior e interior, fazem da atuação um deleite. O personagem, porém, já era forte. Ele é o núcleo. Representando justamente toda a união entre vida e morte, escolhas erradas e escolhas certas. Ele é a ambigüidade moral em pessoa. Tudo é abordado em cima de seu persona, e com muita genialiade, por assim dizer. Além dele, encontramos atuações valiosas em Naomi Watts e principalmente Vincent Cassel, ótimo. Mas seus personagens e suas construções virtuosas que merecem os méritos maiores.

Elogios merecem ir, portanto, ao roteiro denso e até provocativo, que entre diálogos poderosos e memoráveis, personagens excelentes e cena fortes, chega à um final que de primeira vista assusta, mas logo maravilha, fascina, pela sua autênticidade e também pela sua ambigüidade. O filme de Cronenberg não entrega respostas fáceis. Justamente por que elas não existem. É um desfecho corajoso e realmente necessário, momento onde seus personagens podem ser explorados a fundo, desde sua moralidade até sua capacidade de fazer escolhas. Escolhas estas que não só lhes definem, mas definem todos a sua volta. O show do filme de Cronenberg está, portanto, em fatores interiores. Apesar de ter um visual glorioso, contando com direção de arte e fotografia sofisticadas, além de uma trilha tenebrosa e eficiente, os valores são mais encontrados no roteiro, rico em virtudes e personalidade.

Mas a brutalidade tour de force da direção de Cronenberg se mantém a quase todo momento. Exemplo disso é a tão badalada cena da sauna que, retratada de forma angustiante e nervosa, exemplifica o quanto são perigosos e violentos os rumos que muitas vezes podemos tomar, caindo nas armadilhas sempre impostas pelos estigmas da violência, que se impregnam em todos e deixam suas manchas claras, seja no emocional ou físico. Por isso, o filme é um complemento magnífico à Marcas da Violência. Um adiciona algo ao outro. São dois pratos frios e impressionantes irresistíveis e necessários, representando não só cinema belo e triunfal, mas um estudo pertubador, em vezes assombrador, sobre a realidade atual, os demônios, os anjos e tudo que acabamos por encontrar no meio do caminho. Porque, como certo personagem tão define no filme, às vezes, quando as coisas estão fechadas, você simplesmente as abre novamente. Cronenberg compreende isso, e tal diálogo pode ser empregado aos próprios personagens do filme, que de meros misteriosos, cujos corpos fechados infligem apenas terror, prazer ou violência, podem esconder muito mais do que esperamos. A verdade é que ás vezes, as cicatrizes deixadas pela violência são fundas demais.

Eastern Promises (2007)
Direção:
David Cronenberg
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Josef Altin, Mina E. Mina e Aleksandar Mikic
[Thriller, 100 minutos]

No Cine Pulp: Sin City – A Cidade do Pecado de Frank Miller & Robert Rodriguez


Responses

  1. Já li em vários outros textos que o Viggo está excepcional nesse filme… taí mais um filme do David Cronenberg que quero conhecer e não me deixam!!! argh!! ehhehe…
    ‘eXistenZ’ é outro dele que tbm não encontro.. tomra que ache esse ‘senhores do crime’ mais rápido nas locadoras..
    abraços!!!

  2. Não gostei de “Senhores do Crime” tanto quanto você. No entanto, concordo que o roteiro é muito bom. O que eu mais gostei, em relação a este aspecto, é que o trio central masculino nos é mostrado em toda a sua vulnerabilidade. Por isso, acredito que o que mais se destaca no filme são as atuações, especialmente as de Armin Mueller-Stahl e Vincent Cassel.

  3. Ainda não assisti, mas a dupla Cronenberg/Mortensen fez o ótimo “Marcas da Violência”, sem falar que a carreira de David Cronenberg é especializado em violência e terror, mas com muita qualidade.

    Ainda vou assistir este.

    Abraço

  4. Não sei, Wally, mas achei a direção do Cronenberg tão ‘frouxa’ (não encontrei outra palavra melhor para defini-la). Ao contrário de “Marcas da Violência”, no qual percebemos que o diretor tem o completo domínio de sua técnica, em “Senhores do Crime” parece que ele está se divertindo com aquilo tudo sem se importar tanto com o espectador. Para mim o maior destaque foi o roteiro, já que até as atuações não tem nada de mais. Abraço!

  5. Senhores do crime é um bom filme, mérito de Cronenberg, diretor seguro roteiro bem estruturado que seduz o espectador. Viggo Mortensen é um ator que depende de um bom diretor e deve sua boa atuação também a Cronenberg. Armin Mueller-Stahl é o grande nome do filme. O conjunto é inferior a Marcas da Violência.

  6. Mortensen caracterizou de forma exemplar o seu personagem. Por isso andou em terras bálticas a estudar e a observar as gentes daquela parte do globo. Um dos pontos fortes do filme.

    Cronenberg como que ‘amaciou’ a sua linguagem cinematográfica, mas manteve a sua própria coerência.

    Um bom filme, a minha classificação é de 8/10.

  7. Engraçado é que esperava bem mais deste filme, quase nada passou da categoria “aceitável” ao meu entendimento, quando a expectativa era de algo realmente extraordinário – posto que tínhamos um roteiro poderoso e um elenco bem forte. Naomi Watts ficou na média, mas apareceu pouco, enquanto que Mortensen não merecia uma indicação ao Oscar.
    Abraço!

  8. Vi no cinema … fodão … baixei o filme … ficou mais foda ainda …

    Apesar de ser um filme aparentemente simples, a sua força é devastadora juntando com ótimas atuações …
    abraços

  9. Wally qual a cotação hein? Gosto do Viggo… minha lista tá aumentando muito!

    =P

  10. Vixi! Adorei essa parte: “Por isso, o filme é um complemento magnífico à Marcas da Violência. Um adiciona algo ao outro. São dois pratos frios e impressionantes irresistíveis e necessários, representando não só cinema belo e triunfal, mas um estudo pertubador, em vezes assombrador, sobre a realidade atual, os demônios, os anjos e tudo que acabamos por encontrar no meio do caminho.”

    Eu achei um filmaço! Um dos melhores de 2007!

    Abs!

  11. Wally, excelente texto, concordo com suas palavras a respeito do desfecho do filme e da direcao irretocavel de Cronenberg. Vc realmente dissecou a obra!

  12. Rodrigo, de Cronenberg, conheço apenas esse e Marcas da Violência. Morro de vontade de conferir mais.

    Kamila, você apontou algo muito interessante mesmo. Uma pena que não tenha gostado tanto.

    Hugo, veja sim. Acho difícil qualquer pessoa que tenha gostado de Marcas da Violência não gostar ao menos um pouco desse novo.

    Vinicius, eu discordo. Achei a direção focada e magnética, me puxou para dentro da narrativa como poucos filmes.

    Jacques, também achei ligeiramente inferior à Marcas da Violência, mas achei ótimo mesmo assim.

    Red Dust, concordo bastante com seu comentário.

    Weiner, eu realmente gostei mais. E Viggo só não merecia a indicação porque ainda tinha no pareo James McAvoy e Emile Hirsch, mas adorei sua performance.

    João Paulo, quero ver de novo. Também achei poderoso.

    Robson, a cotação ta logo acima, 4 estrelas de 5. ;)

    Otavio, que ótimo que concordamos! Brigadão!

    Romeika, muito obrigado, e concordo plenamente com você também.

    Ciao!

  13. Cada filme que passa, eu viro mais fã do Viggo!


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