Publicado por: Wally | Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

A Outra

Quando o trono de Henry VIII é ameaçada pela incapacidade da rainha Catherine em produzir um herdeiro masculino legítimo, um duque e seu caro cunhado, visando uma própria ambição política, tentam armar para o rei um encontro com Anne Boleyn, com a intenção de levar o rei à cama. Porém, em um jogo de destino e acidentes, o rei Henrique acaba sendo conquistado por Mary, irmã de Anne. Após isso, segue-se uma rede de traições e armações políticas entre o trio e seus interesses particulares.

Dirigido pelo estreante Justin Chadwick e roteirizado pelo já renomado Peter Morgan (A Rainha), o drama histórico aqui focado por ambos é um que, em curtas palavras, pode ser resumido em “irresistível”, “polêmico” e até como “grande entretenimento”. Confiando nessas características óbvias da história que anseia contar, o roteirista que já demonstrou tanta particularidade e brilhantismo no seu roteiro anterior nomeado ao Oscar (original, por sinal, lembrando que este trata-se de uma adaptação), deposita no âmago de “A Outra” pouco desenvolvimento sincero, intenções inexpressivas de drama sério e uma irregularidade quase cômica à história real em si, tomando inúmeras liberdades onde até os menos “históricos” perceberão o absurdo. Tendo isso em vista, “A Outra” fracassa em inúmeros aspectos e sentidos, mas prevalece no único que talvez seja sua única verdadeira intenção: o entretenimento.

Quase que como um verdadeiro guilty pleasure, “A Outra” me envolveu, interessou e entreteu considerávelmente, mesmo que continuamente martele na nossa consciência sua tendência decepcionante ao melodrama, as abordagens diversamente equívocadas a certos personagens e algumas seqüências que soam puramente vaidosas. Apesar de toda essa negatividade, me vi sim instigado, e diverti testemunhando esse jogo traiçoeiro de personagens verídicos (mas nem por isso reais), e as conseqüências inestimáveis que certos atos trazem ao destino de alguns deles. Nesse cenário todo de envolvimento, a estética do filme em sí faz um papel primordial. E, apesar da qualidade técnica nunca impressionar, possui alguns atributos valiosos como o suntuoso figurino, vários cenários bem construídos e uma bela fotografia que, direcionada pelo diretor, inicialmente surpreende pelos belos posicionamentos entre objetos, cortinas e peças do cenário, nos colocando como observadores inquietantes daqueles segredos sujos rondando o palácio real. Isso tudo soa incrívelmente eficiente, mas Chadwick não conhece limites, insiste na técnica e a trasnforma num exagero, contribuindo ao desmerecimento vistoso da estética do filme.

Outro ponto estético deslumbrante do filme são seus atores, belos e luminosos. O trio principal garante ao filme um senso de carisma e beleza incontestável. Não é o suficiente, claro, quando não se têm talento. Nesse aspecto, confesso ter me decepcionado com Eric Bana (Bem-vindo ao Jogo), frio e numa atuação muito calculada e até mesmo com Scarlett Johansson (O Diário de uma Babá) que, ainda que possua seus momentos, também nunca prevalece realmente com o talento que tanto costuma entregar. Mas Natalie Portman (Um Beijo Roubado) trouxe à sua personagem uma bela força, emoções genuínas e verdadeiro sentimento. Não só isso, mas enaltece grandiosamente o roteiro de Morgan ao mergulhar sua personagem num drama ao fim que me tocou pela dedicação da atriz e me fez acreditar piamente nas suas emoções e, por consequência, na própria personagem. Portman se torna, por isso, essêncial ao tirar o filme do buraco do melodrama (e tendências “novelescas”) ao seu fim, trazendo ao menos um pouco de crueza substâncial. Portman ainda possui um bom momento com Jim Sturgess (Quebrando a Banca), que infelizmente teve um papel muito ingrato e vale notar ainda a ótima Kristin Scott Thomas (A Bússola de Ouro), em presença ilustre.

Então, entre seus vários (e são muitos) defeitos, “A Outra” pode ter tido um tratamento genêrico de Chadwick e uma visão irregular do próprio Morgan, mas ainda possui pequenas virtudes o suficiente para cativar sua audiência e prevalecer em ao menos conseguir entreter. Não se pode abordá-lo, portanto, esperando uma obra históricamente recompensadora, um drama íntimo e meticuloso ou uma obra de época indispensável. O filme é, infelizmente, passável, graças à sua levianidade pela falta de comprometimento dos criadores, cujas ambições nunca vão além do divertimento fácil do espectador. Mas se a fraca trilha não te empolgar, a fotografia irá. E mesmo quando Morgan perde todas as suas peças, Portman está lá para salvar o dia, e ela é o triunfo deste falho, bobo, mas inegávelmente divertido olhar adentro de um livro de história com vários rabiscos e manchas. Tentem, portanto, desmerecer o caráter em vezes machista ou as emoções claramente manipuladas, e se deixem levar pelo puro prazer culposo de se delicear com um retrato de época com uma das histórias mais empolgantes da Inglaterra.

Nota: 6,0

The Other Boleyn Girl (2008)
Direção:
Justin Chadwick
Roteiro: Peter Morgan, baseado em romance de Philippa Gregory
Elenco: Natalie Portman, Scarlett Johansson, Eric Bana, Jim Sturgess, Mark Rylance, Kristin Scott Thomas, David Morrisey, Benedict Cumberbatch, Oliver Coleman, Ana Torrent
(Drama, 115 minutos)

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Responses

  1. Faltou algo ao filme. Os cenários são deslumbrantes, mas o argumento apresenta-se de forma irregular e nem o destacado elenco consegue fugir à nota mediana.

    6/10.

    Abraço.

  2. Acho que “A Outra” é aquele tipo de filme que tenta se passar por fita de arte quando na verdade é pouco melhor do que algumas das porcarias lançadas nesse ano – como “O Olho do Mal”, “Violência Gratuita” (que vai nessa mesma linha) etc. Nem o elenco salva na minha opinião, e até mesmo quanto à produção técnica não vi maiores méritos.

  3. Eu gosto muito de filmes de época, adoro os roteiros do Peter Morgan e sou fã dos atores envolvidos no projeto. Mas, as opiniões diversas sobre “A Outra” me fizeram adiar totalmente a vontade de assistir ao filme.

  4. Ainda não conferi este e pelo seu texto o filme não cumpre tudo o que promete. Filmes de época estão na moda e com isso com certeza vão aparecer outras tentativas fracassadas tb.

    Abraço

  5. Ana Torrent?! Ana Torrent está no filme? Agora que não perco mesmo, apesar das ressalvas (machismo?).
    Só que parece o tipo de filme com visual que pede para ser visto em HD.

    Cumps.

  6. Acabei deixando passar na época do lançamento e até agora não conferi. E as opiniões, sempre muito parecidas com as suas, não me animam muito.
    Mas um da eu assisto, nem que seja só pela Natalie Portman.

    []s!

  7. O filme é esplêndido, as atuações marcantes, e a história, apesar de sabermos o final, ainda convence. O entretenimento é o ponto chave com certeza, mas nem por isso não seja muito melhor que muita coisa ruim que saiu esse ano. Como há tempos eu não via, o filme vale a pena sim,assistir.

  8. Wally, gostei do filme por nao esperar muito ou quase nada dele. Dentre as falhas, o q me incomodou mais foi justamente o carater muitas vezes melodramatico da trama, a atuacao pessima do Eric Bana, e nos momentos finais, a Natalie Portman (a achei exagerada ao fim, talvez mais culpa do roteiro do q a propria atriz.) A Scarlett esta bem, nada de mais, acho q o aspecto minimalista da atuacao dela casou bem com a personagem e o texto..

    A questao do machismo tb nao me incomodou (pq a epoca era assim, e o rei, tb.) Alem disso, eh essencial pra discenirmos a diferenca entre as duas irmas e a transformacao da Ana Bolena.

  9. Fiquei surpreso com o filme, sério. Nunca imaginei que fosse gostar de uma fita deste estilo (mulheres em polvorosa para conquistar um homem todo-poderoso), mas, veja só; gostei. Acho que Natalie Portman me ajudou a desenvolver tais reações…

  10. […] por Ron Howard (Anjos e Demônios), o filme baseia-se numa peça escrita por Peter Morgan (A Outra), que também assina o roteiro cinematográfico. Os dois atores principais, Martin Sheen (Anjos da […]


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