Publicado por: Wally | Quarta-feira, Junho 17, 2009

O Amante

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Depois de descobrir vestígios que apontam para a suposta infidelidade de sua mulher, Peter se sentirá compelido a investigar e descobrir o que de fato está havendo e quem seria o outro homem com o qual sua mulher se divide, ao ter que lidar com os desentendimentos entre sua filha e um clima desagradável.

Depois do excitante “Notas Sobre um Escândalo”, o diretor Richard Eyre volta a trabalhar como roteirista ao lado de Charles Wood – parceiros no roteiro do belo “Iris” – para adaptar a história de “O Amante”, que é baseado em um conto pequeno de Bernhard Schlink (recentemente adaptado com “O Leitor“). Na trama de “O Amante”, seguimos a obsessão de um homem pelas suspeitas de traição de sua mulher, investigando sua infidelidade. Simples. Mas não tanto. Talvez, no conto de Schlink, a trama complexa e cheia de idas e vindas no tempo faça sentido e funcione como meticuloso estudo da mente humana, da solidão, do amor e da infidelidade. E, de fato, o filme de Eyre toca nessas teclas sutilmente diversas vezes. O problema é que, ao adaptar o curto para o longo, fez-se um filme carregado incansavelmente na repetição e sobrecarregado de uma aura interminavelmente cansada de tristeza e obsessão ofegante, movida pelo seu personagem principal desesperado. A virtude é que a duração do filme não passe dos 90 minutos, não incomodando mais que o necessário. Mas a questão é que o material em mãos não deveria ter passado dos 45.

Explico. Ao início do filme, os créditos dão lugar para Lisa, uma Laura Linney (A Família Savage) sorridente e, pelo clima, apaixonada. Corta para Lisa e seu marido Peter, interpretado por Liam Neeson (As Crônicas de Nárnia – Príncipe Cáspian). Nas conversas, percebemos que infidelidade paira na cabeça de Lisa. Um dia, ela vai para Milão. Corta para o futuro com Peter cuidando das roupas da mulher e discutindo com a filha, Abigail. Logo em seguida, começa a suspeitar da infidelidade de sua mulher com certas provas e começa a se tornar obcecado em achar o amante. Nesse desenrolar de fatos, já passamos por três épocas diferentes e nestas três épocas aconteceram fatos importantes ainda não nos revelados pelo roteiro. Ou assim os roteiristas pensam. A verdade é que tudo é muito óbvio, mas o filme tem em sua consciência de que está escondendo algo da audiência, que é revelado perto do fim de uma forma irregularmente engraçada e tola. Esse “segredo” do roteiro é facilmente percebido pelos mais atentos e durante a sessão quem descobriu não vai entender os jogos do diretor com as idas e vindas da narrativa. Como que se tentasse nos envolver em um clima paranóico de segredos, sensualidade e mistério. A questão é que tal clima é nulo. E tudo soa mais como uma enganação.

Apesar de todo esse equívoco narrativo,”O Amante” esconde certas virtudes. Além de dialogar sobre um tema de forma íntima e sincera, é carregado de personagens interessantes e você o segue até o fim intrigado, ainda que não completamente convencido. Tem bons diálogos e um elenco consistente. Eu destaco Romola Garai (Jornada pela Liberdade), simplesmente fantástica como a filha Abigail (e ela continua provando o quanto é a grande revelação da nova geração). Laura Linney também brilha, mas aparece muito pouco. Ela é mais mencionada do que realmente mostrada. Liam Neeson lidera o filme e, apesar de ter uma ou duas cenas boas, no geral revela um desequilíbrio incômodo ao oscilar entre o exagero e a canastrice. É uma pena, pois o estudo de seu personagem poderia ter rendido algo muito mais interessante. Quem me surpreendeu foi Antonio Banderas (Mais do que Você Imagina), um ator pelo qual nunca realmente me simpatizei mas que encara aqui seu personagem de uma forma madura, sensível e o constrói de forma que ele soe mais interessante do que o roteiro falho poderia ter insinuado.

“O Amante” é, em síntese, um exercício em frustração. Frustração porque, ao desenrolar da sessão, é inevitável perceber o quanto ele deixa a desejar em suas implicações, suas insinuações e em suas particularidades. Ele tinha muito mais a entregar e talvez por isso ficamos mais intrigados em ler o conto de Schlink, que deve ser mais equilibrado. Eyre, que nunca foi o forte de seus filmes (os roteiros eram o destaque, em especial o de Patrick Marber), desperdiça elementos e mantém seu filme na estranheza constante. No irregular e no repetitivo. Certas cenas e atitudes são repetidas de forma irrelevante. No todo, um trabalho inconstante e frágil. Por isso, é compreensível que, apesar de seu elenco reconhecido e enredo intrigante, tenha tido um destino lamentável direto para as locadoras. É surpreendente que nos Estados Unidos ele tenha sido totalmente ignorado. Alias, é assustador. Mas é a prova da falta de virtuosidade do filme, que denota um clima opressor, desagradável e poucas virtudes para fazer tudo valer a pena.

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The Other Man (2008)
Direção:
Richard Eyre
Roteiro: Richard Eyre, Charles Wood, baseado em conto de Bernhard Schlink
Elenco: Liam Neeson, Antonio Banderas, Laura Linney, Romola Garai, Amanda Drew, Laurence Richardson
(Drama, 90 minutos)

Disponibilidade | Já nas locadoras.


Responses

  1. Nunca vi, mas se fosse julgar pelos atores eu eu assistiria!

  2. Estava com muita curiosidade em relação a esse filme por um motivo óbvio: a atuação da minha querida Laura Linney. O Eyre não é um grande diretor, por isso nem me devo dar ao trabalho de conferir esse…

  3. Hum, o filme tem a Romola Garai. Mesmo com seu texto, conferiria a obra só por causa dela, uma atriz que adoro.

    • Bruno, realmente os atores seduzem. Mas o filme não é de todo ruim, tem seus méritos. Só é bem fraco.

      Vinícius, e ela aparece tão pouco. Eu gosto de Eyre, mas sempre achei que o forte de seus filmes fossem o roteiro e o elenco. O filme é bem fraquinho.

      Kamila, também adoro ela, e como disse no texto, ela está muito bem. Mas duvido muito que você conseguirá gostar do filme, que é uma bagunça.

  4. Amo o Neeson e a Linney, provavelmente vou dar uma conferida em DVD. Ah, e é bom saber que a Garai se saiu bem.

  5. Uma pena que o filme não se saiu bem, como “O Leitor”, mas veria pelo elenco, principalmente Laura Linney e Romola Garai, uma atriz que ultimamente andou me surpreendendo. ;)

    Beijos e tenha um ótimo fim de semana!

  6. VOU CONFERIR, APESAR DE EU TER COMIGO UMA SENSAÇÃO DE NÃO VOU GOSTAR, FATO LAMENTÁVEL POIS VEJO QUE ESTE FILME TEM UM ELENCO ADMIRÁVEL.

    ABRAÇOS

    • Bruno, o elenco enaltece o filme, sem dúvida.

      Mayara, Garai e Linney são o triunfo, pena que Linney apareça tão pouco. Veja sem expectátivas.

      Brenno, o filme coloca padrões muito altos e acaba não correspondendo a eles justamente por ter um elenco tão admirável.

  7. Gostei muito do “Notas Sobre um Escândalo”, com certeza verei esse, me simpatizo muito com o Banderas e o Liam Neeson, o elenco feminino tbm está ótimo, amo de paixão a Laura Linney!
    Vou por como prioridade esse filme!
    Abs! Diego!

  8. Outro que desconhecia… Obrigado pela dica.

  9. Huuum! Pensei que esse era somente pro ano que veem, vou procurar por aqui!

    • Dewonny, eu também o tratei como prioridade por também admirar muito os trabalhos anteriores de Eyre e o ótimo elenco. Mas o filme não desceu, e me decepcionou. Ainda que guarde teus méritos. Veja e me diga.

      Filipe, só veja este com cautela.

      Cleber, lançou nas locadoras em Abril, se não me engano…

  10. Pena que esse filme não funcione, porque tem boas idéias. Tem Laura Linney, boa atriz (que de fato aparece menos do que a gente desejaria), tem Romola Garai (a Briony jovem de “Desejo e reparação”), que se mostra muito segura de si, e tem Banderas e Neeson. Banderas nunca foi muito longe em interpretação e foi uma temeridade deixar Neeson no centro de tudo – ele oscila muito, cai na canastronice, realmente. De um modo geral, é opressivo e redundante. E acaba provocando mesmo é sono.


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