Publicado por: Wally | Terça-feira, Junho 16, 2009

Recontagem

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Iniciando-se com as eleições presidenciais de 2000 nos Estados Unidos, o filme narra as cinco semanas seguintes ao evento corrompido que mudou a história da nação, seguindo as tentativas de ambos os lados da moeda – Gore e Bush – de assegurarem seus lugares na Casa Branca, usando um extenso número de políticos, jornalistas e advogados numa votação inédita e de suma importância para o futuro do país.

Uma produção feita especialmente para a televisão (mais especificamente, o canal HBO), “Recontagem” é tão bom que merecia um lançamento nos cinemas, até porque a urgência da história que anseia contar merecia este reconhecimento. Ainda assim, com seu recente lançamento nas locadoras do Brasil, é um filme que poderá ser descoberto – e precisa ser. Dirigido por Jay Roach (Entrando Numa Fria Maior Ainda) o filme tem atributos que não deixam de ter o pé no estilo de filmagem oriundo de filmes televisivos que não costumam me agradar. Mas Roach dirige com uma segurança tão astuta que o filme transcende. Mas é no roteiro eficiente e elaborado de Danny Strong (em sua estréia) que o filme extrai a maior parte de sua força. O restante dos méritos, claro, merecem ir ao elenco talentoso que conseguem retratar figuras reais sem soarem forçados ou canastros. Tudo aqui soa real, dos diálogos às expressões dos atores. “Recontagem” muitas vezes pode acabar soando como um documentário, regido pelo realismo e pela urgência.

O filme narra a (vibrante) história acerca das confusões cercando as eleições presidenciais bagunçadas que colocaram George W. Bush na Casa Branca, o homem que, como agora sabemos nove anos depois, pegou os Estados Unidos e o jogou de uma ponte. Uma pena que ele almejou pular do carro antes que este caísse e afundasse. Mas não estou aqui para falar sobre a mediocridade de Bush Jr. – isso é assunto para “W.” – mas sim sobre como os eventos cercando aquela eleição foram distorcidos de formas inimagináveis para inserir o caipira na Casa Branca de qualquer forma. Começando com as irregularidades iniciais da votação, que ficou restringida diante do possível resultado na Flórida e terminando com brigas em tribunais, o filme não finaliza da forma como torcemos e tanto vibramos ao longo da duração (obviamente), mas é incrível como Roach consegue fazer com que a mais previsível das histórias soe tensa, principalmente por ter contado com uma edição rítmica e um roteiro que retrata as diversas situações e personagens com bastante acidez e de formas bem interessantes, quase fascinantes. Seguimos os acontecimentos, por isso, sempre com interesse e uma avidez esplêndida. É eletrizante (e deprimente) vermos como os acontecimentos foram se empilhando em potências absurdas, e tudo liderando para um destino imensamente vil e incompreensível. E nos faz pensar o que teria ocorrido ao mundo se, de fato, a justiça tivesse sido feita e Bush nunca tivesse pisado na sala oval para cometer suas decisões egocêntricas.

Numa escolha acertada, o filme mantém tanto Bush quanto Gore como figuras tão reais que nunca são vistas em tela em qualquer personificação, não passando de sugestões ao longo da metragem. O cargo de protagonistas fica por conta dos homens (e mulher) que partiram para proteger seus respectívos lados. E nisso surge um elenco primoroso. Kevin Spacey (Quebrando a Banca) lidera como o defensor principal de Gore, levando a luta às trincheiras do mundo político e eleitoral. E Spacey faz um belo trabalho, como sempre. Tom Wilkinson (Uma História de Amor) está igualmente genial, lutando pelo lado oposto com um personagem tão bem interpretado que incomoda. E a dupla é seguida por um elenco secundário experiente e maduro, mas ninguém tão sensacional quanto Laura Dern (Império dos Sonhos), que está espetacularmente bem ao compor os trejeitos e a simples transparência de Katherine Harris, uma mulher que despontou como um dos fatores principais pelo roubo da vitória de Bush. Dern está sempre entre o exagero e o contido, numa performance digna de prêmios. Ela indubitavelmente enriquece o projeto.

Então “Recontagem” é um filme muito mais do que ele dá a entender em seu formato “televisivo”. Como já dito, não deixa totalmente os elementos deste mundo para trás e pode soar diversamente como um filme unilateral sobre o ocorrido, perdendo ritmo considerável em seu ato final. De qualquer forma, é um filme que merece reconhecimento simplesmente por conseguir compor um fato histórico tão complexo com uma narrativa com bela fluidez e cheia de virtuosos atributos. Roach lhe monta na história com um ritmo eletrizante ao analisar cada detalhe com precisão, e o elenco apenas deixa tudo tão mais reluzente e satisfatório, fazendo com que “Recontagem” prevaleça acima de limitações e transcenda para algo que vai muito além de um mero programa televisivo. O filme é, acima de tudo, um ótimo pedaço de cinema, surgindo como um dos filmes jornalísticos mais completos e empolgantes do século XXI.

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Recount (2008)
Direção:
Jay Roach
Roteiro: Danny Strong
Elenco: Kevin Spacey, Tom Wilkinson, Laura Dern, Bob Balaban, Ed Begley Jr., John Hurt, Denis Leary, Bruce McGill, Bruce Altman, Jayne Atkinson, Gary Basaraba
(Drama, 116 minutos)

Disponibilidade | Já nas locadoras.

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Responses

  1. Muito bom. Excelente exemplo do que eleição em qualquer lugar do mundo (e não só nos EUA). Ninguém quer perder, e as pessoas fazem de tudo para que isso não aconteça.

  2. Pelo tema trabalhado e pelo elenco de grandes atores e atrizes meio sumidos do cinema, um programa indispensável.

  3. É isso mesmo. Um filme envolvente, tristemente engraçado em alguns momentos, e que consegue deixar aquela pontinha de indignação em quem o assiste. E Laura Dern está mesmo excelente!

    • Roberto, exatamente! Chega a ser angustiante.

      Gustavo, e é mesmo.

      Wallace, e que indignação, né? Realmente tem um humor nada feliz. Dern é incrível.

  4. Quero ver esse, mais não consigo achar em DVD, saco !

  5. Para mim, “Recontagem” é um verdadeiro FILMAÇO!!!!!!!!!! Uma obra muito bem escrita, dirigida, atuada e instrutiva. Nos ensina bastante sobre o complicado processo de votação dos Estados Unidos.

    • Cleber, que pena! É mesmo difícil de encontrar…

      Kamila, realmente é um grande filme. Concordo com tudo que disse.

  6. Diria que hoje é menos complicado analisar os fatos daquele ano de uma forma mais crítica, mas o filme dribla a possibilidade de cair no óbvio e cria uma obra não apenas importante para o contexto político atual, mas que se revela como um dos melhores telefilmes de todos os tempos.

  7. caramba, nunca ouvi falar…

    mais um pra lista!

    hehehe

    falow!

    • Vinícius, perfeito comentário!

      Shaun, procure ver.

  8. Òtimo filme! E mostra que a América, além de ser a maior potência econômica do mundo, mostra que também é complicado também o sistema de eleição de lá, rs. ;)

    • Mayara, complicado e pedestre, rsrsrs. Realmente ótimo filme.


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