Publicado por: Wally | Quarta-feira, Junho 10, 2009

Milk – A Voz da Igualdade

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Narra a história de Harvey Milk, homossexual que, após se assumir e mudar para San Francisco nos anos 70, se juntou à caros amigos oprimidos para se tornar um ativista contra a homofobia e o preconceito. Com grande apoio na comunidade e enaltecido por sua forte e simpática personalidade, Harvey decide se eleger à um cargo político, levando sua luta (e dos homossexuais em si) para outros patamares.

Quando “Milk – A Voz da Igualdade” tem início, testemunhados – em imagens de arquivo – homossexuais sendo escoltados para dentro de camburões pela polícia. Apesar de não estarem fazendo nada de errado, estes homens foram julgados pelo ato de amar de forma “errada”. Como se existisse algo de errado com amar. As imagens bastante impactantes são seguidas pelos comentários de Harvey Milk que, destemido, gravou um longo depoimento sobre sua vida e convicções, numa gravação que teria que ser utilizada apenas – de acordo com ele – no caso de seu assassinato. A figura de Harvey Milk, homossexual ativista que mudou a vida de muitos ao redor do país e inspirou tantos outros, é retratada aqui com muita paixão por Gus Van Sant (Paranoid Park), que também é homossexual e adapta seu filme de um roteiro exemplar de Dustin Lance Black que é, também, homossexual. A paixão e a constante relevância com a qual Van Sant e Black constroem o filme o traz uma autenticidade vibrante, além de uma virtuosidade emocional que atinge o sublime.

Van Sant, que já trabalhou o homossexualismo diversas vezes em sua filmografia de formas bem mais sutis e disfarçadas, aqui encontra um projeto com o qual ele pode desenvolver o tema com uma abrangência e importância bem maior. Retratando um personagem sólido em meio à uma narrativa forte em suas implicações políticas e morais, o cineasta captura todo o alvoroço levantado por Milk e seus recrutas diante dos conservadores americanos e suas vergonhosas leis, que por sua vez surgiam constantemente atacando a suposta inferioridade dos homossexuais que, de fato, só queriam ser aceitos e, ao redor de todo o país – e do mundo – temiam sair do armário com medo de retaliação oriunda de uma sociedade quase que primitiva em suas crenças medíocres. O roteiro de Black retrata Milk com uma importante densidade, e o constrói tendo em vista todos os fatores sociais, políticos e emocionais que o transformaram no homem que foi. Mas a força do personagem e, talvez, o motriz do projeto em si, seja a atuação brilhante de Sean Penn (A Grande Ilusão), que retrata Milk com um vigor natural e emblemático. Os trejeitos, os tiques, a fala e o realce emocional são características que soam sempre sinceras, nunca definhando diante de qualquer caricatura. Penn traz Harvey Milk de volta à vida.

Penn é, porém, apenas o líder de um elenco afiadíssimo e completo. Os destaques ficam por conta de Emile Hirsch (Speed Racer) – numa surpreendente caracterização – um contido mas poderoso Josh Brolin (A Garota Morta), e um James Franco (No Vale das Sombras) totalmente natural no desempenho intimista. Apenas alguns dos nomes que fazem da experiência de assistir à “Milk – A Voz da Igualdade” tão mais ressonante. Alias, o filme te envolve de uma forma muito curiosa, ao estender eloquentemente a trajetória de Harvey Milk em meio à uma narrativa cheia de detalhes, personagens bem escritos, diálogos primorosos e, finalmente, um último ato que traz um grande impacto. Até mesmo para aqueles que já sabem da história de Milk, os minutos finais da obra impactam não só pela trágico ocorrido, mas também pela curiosa fascinação diante do ato de Dan White. Alias, é essêncial quando o roteiro oscila seu foco constantemente para a complexa figura de White e o que ele vem remoendo dentro de si mesmo até chegar ao seu ato final. Um ato que é seguido não só por um monólogo genial de Harvey, mas elevado à uma beleza impressionante ao sermos postos diante de uma marcha pelas ruas de San Francisco à luz de velas, numa tomada simplesmente sensacional em seu realismo e em suas implicações, que emocionam profundamente por ser uma homenagem belíssima ao espírito humano.

Milk – A Voz da Igualdade” tem um formato simples, até convencional diria eu. Mas de forma alguma ele é rebaixado por isso. A força do roteiro, a dimensão da direção e a sensibilidade com a qual é atuado o coloca num patamar que vai além de meras convenções. É um projeto que une o cinema mais comercial de Van Sant com o seu experimental, numa junção curiosa entre o grandioso e o simplesmente introspectivo. E o filme fascina, impressiona e move. Carrega consigo imagens de arquivo que adicionam muito ao clima do filme em questões de urgência e peso, e aspectos técnicos merecedores de aplausos como a eficiente direção de arte, a bela fotografia e uma trilha sonora belíssima de Danny Elfman (Hellboy II – O Exército Dourado). Mas, além de tudo isso, “Milk – A Voz da Igualdade” ganha especial força por retratar um homem importante e, a partir disso, versar sobre um tema que ainda é um tabu na sociedade atual. E por tratar o tabu com tamanha sensibilidade e de forma tão natural, o filme conquista a admiração, e ainda comove ao trazer a tona estudos singelos e perturbadores sobre a condição humana.

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Milk (2008)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, James Franco, Diego Luna, Alison Pill, Victor Garber, Denis O’Hare, Joseph Cross, Stephen Spinella, Lucas Grabeel
(Drama, 128 minutos)

Disponibilidade | 26 de Junho nas locadoras.


Responses

  1. Um filme de conteudo importante e conscientizador. É bom que fitas assim alcancem o grande público. Não passou na minha cidade, mas vou ver assim que puder. Penn parece estar incrível.

  2. É o meu próximo filme a ver. Esta ao lado do leitor de DVD!

    Participa na sondagem “Melhor James Bond com Peter Sellers, George Lazenby, Timothy Dalton e Daniel Craig” até ao dia 15 de Julho 2009, em http://additionalcamera.blogspot.com.

  3. Ih, já te disse a minha opinião, né? Acho formulaico, não acrescenta muita coisa ao assunto e é um trabalho óbvio do Gus Van Sant. De brilhante mesmo só Sean Penn, perfeito. Destaco também a ótima trilha do Danny Elfman.

  4. Filmaço! Para mim, o segundo melhor filme lançado no Brasil em 2009. Até agora, claro.

    Abs!

  5. Gostei bastante de “Milk”. Acho que ele conta uma história que merece ser conhecida e tem aquela performance maravilhosa do Sean Penn, merecedora do Oscar de Melhor Ator. Porém, o que me incomodou profundamente no longa foi seu caráter panfletário. Sou meio chata e acho que cinema e política não devem se misturar.

  6. Bãe, ainda preciso saber como o meu preferido ao Oscar passado de melhor ator perdeu pro Sean…

  7. EIS O FILME QUE EU MAIS TENHO VONTADE DE CONFERIR NA ATUALIDADE.

  8. Dos indicados ao Oscar de filme, este é o que falta conferir. Já que virá em DVD este mês, tenho a oportunidade. Ai depois conto o que achei. ;)

  9. Atualmente, é meu preferido dentre os cinco indicados ao Oscar na categoria principal. Incrível como conseguiu me emocionar mesmo sem apelar para sentimentalismos baratos.

  10. Vou procurar nas locadoras e ver se é isso tudo mesmo.

    • Gustavo, veja sim, é excelente. Penn ta soberbo.

      Filipe, que bom! Depois me diz o que achou.

      Matheus, só concordo quanto à Penn e Elfman, rsrsrs.

      Otavio, para mim é o terceiro.

      Kamila, não o achei panfletário. A causa que o filme defende não é política, é humana.

      Marcus, eu prefiro Penn de todos os indicados.

      Brenno, então veja logo!

      Mayara, confira mesmo, é meu terceiro preferido dos indicados a melhor filme.

      Vinícius, apesar de não ser meu preferido daquela seleção, também achei incrível este aspecto mencionado por você.

      Ibertson, faça e me diga.

  11. Para mim é o melhor dos 5 indicados a melhor filme no último Oscar. Apesar de ter um formato bem tradicional, muito mais acadêmico do que os últimos filmes do Van Sant, MILK é quase perfeito, é uma obra poderosa e marcante. Meu único porém fica por conta da irritante presença do Diego Luna.

    • Wallace, concordo com tudo exceto por ser o melhor dos 5 indicados à melhor filme no Oscar, é meu terceiro preferido apenas. E Diego Luna irrita mesmo, mas acho que a intenção era essa.

  12. Em sua, MILK – A VOZ DA IGUALDADE é um bom filme, que acrescenta culturalmente, mas que acaba cansando pela monotonia da história e pela duração excessiva.

    SORO: trilha sonora; Sean Pean; montagem; fotografia; Emile Hirsch.

    VENENO: duração.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

    • Anderson, não sei se é porque fiquei vidrado na história e vibrando pelo personagem, mas não me senti cansado ou enganado pela longa duração.


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