Publicado por: Wally | Domingo, Junho 7, 2009

O Dia em que a Terra Parou

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Quando uma misteriosa esfera gigante pousa no Central Park, em Manhattan, o mundo todo para diante da presença do desconhecido. O governo americano reúne, então, um grande número de cientistas renomados de diversas áreas para desvendarem a ocorrência. Mas quando uma forma alienígena surge da esfera e é ameaçada, o alienígena é logo hospitalizado, começando a tomar a forma de um ser humano. Preso, ele terá que contar com a ajuda da cientista Helen Benson para entregar sua mensagem ao mundo.

Em 1951, diante dos conflitos ideológicos e da ameaça atômica proveniente da Guerra Fria, surgiu “O Dia em que a Terra Parou“, ficção-científica urgente de Robert Wise que não só contribuiu para o cinema da década, mas versou de uma forma bem ácida acerca da estupidez humana em relação à violência, nos alertando dos danos que causaríamos a nós mesmos. Pois então que, 57 anos depois, Hollywood decide refilmar esta mesma história que fora tão urgente (e ainda é). O resultado é, surpreendentemente, bom. O novo filme, que conta com um frívolo roteiro de David Scarpa (A Última Fortaleza), tem na direção de Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) um válido acerto. A questão a ser analisada aqui – como em toda refilmagem –  é se, de fato, a refilmagem tem um motivo para existir e se ela acrescenta em algo ao original. A moda das refilmagens é destruir o material original (com exceções, claro) e, muitas vezes, a refilmagem de Derrickson soa realmente muito fraca diante do original. Ainda assim, as escolhas sábias do diretor e alguns acertos interessantes do roteiro (que explicam alguns aspectos que foram deixados baratos no original) fazem com que o filme escape da pena tortuosa de refilmagem de um clássico definitivo.

Primeiro, é necessário definir que não se trata de um “copie e cole”. O novo filme pega a idéia central da obra original, sua mensagem e seus personagens e os moldam para um novo século, também inserindo a experiência “alienígena” com efeitos especiais bem mais espetaculares. A trama em si difere-se bastante, inclusive os personagens, com mudanças drásticas. Grande parte das escolhas não convencem, e o filme fica muito tempo enrolando em questões políticas e científicas, além de ter um drama entre os personagens centrais muito forçado. Talvez culpa dos diálogos muito artificiais, ou mesmo da banalidade a qual o filme se afunda em momentos. Alias, o foco do filme é interessante. Seu ajuste para o novo século veio também com as questões mais relevantes. O filme ainda traz a alerta do anterior acerca da estupidez humana, mas agora a trabalha diante de outra ameaça: a ambiental. Desta vez, Klaatu, o alienígena, vem para nos salvar de nós mesmos, ameaçando exterminar a raça humana, não necessariamente o planeta. Em outras palavras, ele quer salvar o planeta dos humanos. E, com isso, o filme denota um tom extremamente engajado que o faz oscilar entre o didático e o interessante.

Derrickson eleva o roteiro falho. Seu visual é muito interessante. Como ao retratar o mundo com uma fotografia realçada em tons azuis e verdes, assumindo o foco da história diante do aquecimento global. Isso também é perceptível em outros detalhes. Sejam estes grandes – a esfera que substituiu a nave do original é em forma de um globo e realçada por um verde vibrante – ou pequenos como a menção de Klaatu sobre o “tipping point”, ou “ponto de virada”, conhecido atualmente por cientistas que dialogam sobre o estado irreversível do planeta Terra diante dos nossos danos a ela. São elementos como este e uma direção segura de Derrickson que o filme atinge um grau recomendável como cinema e como refilmagem. Mesmo que caia diversamente no banal com seus pronunciamentos, tenha no drama da aproximação de Klaatu com os humanos um ato fraquinho e conte com Keanu Reeves (Os Reis da Rua), que não ajuda. Ele até combina com o personagem impassível (como em “Matrix”), mas ele é muito fraco e definha especialmente se comparado ao ótimo Michael Rennie que viveu o original. Já Jennifer Connelly (Traídos pelo Destino) está bem no papel, como também Kathy Bates (Foi Apenas um Sonho). Mas Jaden Smith (À Procura da Felicidade) irrita e John Cleese (Shrek Terceiro) não convence.

O Dia em que a Terra Parou” tem, então, diversas falhas. Mas ele não merece ser sepultado por elas. Na verdade, ele deveria ser é elogiado por ter conseguido criar uma obra que, além de conseguir se manter atual, não esmiúça os valores do filme do qual refilma. Só por isso, o filme merece uma conferida. As idéias estéticas são ótimas, os efeitos possuem textura e alguns detalhes são bem-vindos. Como o fim, que me agradou bastante. É uma pena então que o roteiro não vingue os esforços claros da direção criativa de Derrickson, se demonstrando virtuoso ao adicionar à história original, mas falho ao não conseguir fazer com que a urgência do conto saia da constante banalidade. Então enquanto Derrickson leva seu filme a sério, o roteiro não. E isso faz com que a obra soe pretensiosa, ao levantar vôo e não conseguir ficar a muito tempo no ar, despencando diante da fragilidade. É uma obra admirável de entretenimento, mas nada mais. Ao fim da sessão, tudo – com exceção da estética – estará esquecido. Em contraponto ao original, que ainda permanece hoje, mais de 50 anos depois, totalmente vivo e urgente. Mas para a nova geração preguiçosa, que não tenha curiosidade em descobrir o original, este é uma boa recomendação.

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The Day the Earth Stood Still (2008)
Direção:
Scott Derrickson
Roteiro: David Scarpa, baseado em roteiro de Edmund H. North
Elenco: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Kathy Bates, Jaden Smith, John Cleese, Jon Hamm, Kyle Chandler, Robert Knepper, James Hong, John Rothman
(Ficção, 104 minutos)

Disponibilidade | Já nas locadoras


Responses

  1. O original da década de 50 está a milhares de anos-luz desta versão. Abcs

  2. Nossa! achei esse filme terrível!!!
    Nunca vi o original, dizem que é muito bom; pretendo assistir em breve :]

    Cara, depois se tiver um tempo dá uma passada lá no meu blog também (www.moviefordummies.wordpress.com)!

    Abs.

  3. Com tantos clássicos e obras-primas de arte para ver, um remake fracassado como esse definitivamente não é opção para quem tem tempo escasso!

    • Jacques, apesar de não achar o original uma obra-prima, concordo que ele é bastante superior à refilmagem, que por sua vez tem méritos.

      Bruno, achei bem longe de terrível, mesmo que tenha suas falhas. Mas o original é sim superior. Já passei lá no blog e linkei. ;)

      Gustavo, não o considero um “remake” fracassado. Alias, acho que ele tem personalidade própria. Mas se o tempo esta escasso, ele é mesmo dispensável. Veja o original.

  4. Não consegui assistir no cinema, mas vou conferir em DVD apesar das críticas pesadas.

  5. Não gosto… Acho sem vida e muito sem graça. Mas tem efeitos excelentes, se serve de consolo =P

    • Anderson, em DVD ele funciona melhor. Sem o compromisso.

      Matheus, acho que tem seus méritos, inclusive excelentes efeitos, como disse.

  6. Valeu, Wally!

    Te linkei lá tbm!!!

  7. Eu não conferi o ramake e só pretendo ver quando assistir o filme original. Abraço!

  8. Apesar de um resultado visual interessante em seu conceito, acho que essa refilmagem não consegue nem se salvar por esse aspecto. O roteiro é muito falho e as atuações não compensam, sem falar que o filme não chega a lugar algum…

  9. Esse filme não me atraiu nem um pouco, vou passar longe …

  10. Rapaz, juro que ainda não tive coragem de ver isso. Adoro o original, então…

    Ah, e vc viu MIDNIGHT MEAT TRAIN! Nem sabia que tinha saído em DVD… valeu!

    Abs!

  11. Wally, sem desmerecer a sua crítica, é a segunda grande bomba do século XXI em termos de cinema (a primeira fica com o The Spirit. Não sei porque o Keanu Reeves continua insistindo nesses projetos sci-fi! Está na hora dele repaginar a carreira. Ah! outra coisa. Filho de artista não necessariamente é artista. Ouviu, Will Smith?

  12. Nem me esforcei pra ver no cinema. Mas ainda pretendo assistir quando der..

    • Rafael, é a melhor coisa que faz.

      Vinícius, concordo que a impressão deixada é de vazio, mas até ali, o filmes teme elementos interessantes ao lado do visual que vão além do falho roteiro e elenco inconsistente.

      Hugo, veja ao menos o original.

      Otavio, também admiro muito o original e este é bem inferior, mas tem lá seus méritos. E sim, “Midnight Meat Train” já chegou em DVD!

      Roberto, acho que tivemos filmes bem bem piores que este no século XXI. Alias, uns trocentos piores. O filme tem falhas gritantes, mas tem também virtudes. E Reeves não faz tanto filme de ficção assim. Agora, concordo que Jaden Smith usou o charme na sua estréia mas aqui afunda legal.

      Marcel, veja porque não é ruim como dizem, tem méritos.

  13. Cara este filme é um lixo, dicordo totalmente da autora deste texto!!


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