Publicado por: Wally | Quinta-feira, Junho 4, 2009

O Vizinho

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Quando Chris e Lisa se mudam para uma luxuosa casa numa adorável vizinhança, não esperam que o vizinho, um policial negro, tornará suas vidas num verdadeiro inferno. Revoltado com a união inter-racial do casal e movido por uma tragédia de seu passado, Abel abusará de todo seu poder na polícia para fazer da vida dos dois tão trágica quanto a sua.

No mais novo filme do sempre eclético e nem sempre consistente Neil Labute (O Sacrifício, A Enfermeira Betty), seguimos a tortuosa chegada dos Mattsons, casal recém casado inter-racial, à vizinhança de Lakeview Terrace (nome original do filme de origem interessante, que citarei adiante). Tortuosa porque, contrariando o senso comum (que cada vez mais deixa de ser o comum), o vizinho do casal –  que é um veterano policial de família – traz tudo menos conforto e segurança. E, a partir desta premissa, LaBute constrói um filme que, graças a sua segura direção e visão interessante sobre temores e remorsos, mantém o espectador constantemente adepto da ambientação hostil e automaticamente enlaçado pela tensão e o percurso que, ainda que previsível demais em aspectos e incrivelmente forçado em outros, captura sua atenção vigorosamente pela forte mistura de emoções, pretextos e atuações intensamente envolvidas.

O filme assume seu tom polêmico desde o início, com a interessante cena dos olhares perversos e curiosos de Abel sob o casal no dia da chegada deles. E demarca o território de que por trás daqueles olhos residiam uma pessoa equivocada e com uma assombração escondida através da “janela da alma”. Samuel L. Jackson (Evidências de um Crime), em um papel surpreendentemente consistente, evoca a força que exibiu em “O Resgate de um Campeão” e deixa para trás a canastrice de “Jumper” para compor um intenso personagem de uma forma muito densa. Seu personagem encontra o equilíbrio perfeito entre o próprio tormento e a angústia sacal que decide empregar na vida de duas pessoas que foram para o lugar errado na hora errada. E o personagem de Jackson é o motriz do filme por ser o centro da fascinação. Suas escolhas e seus atos baseiam na sua consciência fragilizada por tragédias e reprimidas por medo e vergonha. Numa vida usualmente viciada no poder – seja nas ruas ou em casa – e o prazer inescrupuloso de se sentir no poder de vidas.

Ao lado de Jackson, uma ótima atuação do sempre versátil Patrick Wilson (Wacthmen – O Filme), que constrói seu personagem falho com uma vulnerabilidade admirável e uma consistência convincente. Sua par, Kerry Washington (A Garota Morta), não está mais do que adequada, mas convence o suficiente. O filme em si é sobre os três personagens e estes três atores, e a tensão fervilhante que se manifesta entre eles ao passo que os tormentos de Abel Turner o atingem no vulnerável, ameaçando a própria união do casal. Todo esse fervor incita o entretenimento e o filme é ótimo neste aspecto. Mas o incitamento se arrasta quando as doses de exagero e escolhas desnecessárias começam a pontuar diversos momentos da narrativa. E então o roteiro não consegue se esquivar de clichês e cenas usuais. LaBute, porém, nunca nos perde a atenção e o interesse está sempre à beira dos nervos. É seu triunfo. Criar um painel de personagens, emoções e temas sociais que nos intrigam. O preconceito racial não é tratado de forma tendenciosa e na maioria das vezes as cenas envolvendo tal elemento e o poder do uniforme azul são maduras. É isso que faz de “O Vizinho” mais do que simples e unidimensional entretenimento, mesmo que tende a cair constantemente em armadilhas do gênero, ora simplista.

O filme é, portanto, uma recomendação justa e acertada. Um suspense carregado de virtudes maiores que seus defeitos. E é lamentável que tenha sido lançado diretamente nas locadoras no Brasil, mesmo tendo atores reconhecidos em seu elenco e uma premissa bastante intrigante. Merece ser descoberto pelos temas que traz a tona, pelo elenco afiado e as discussões interessantes que podem originar diante de seus levantamentos morais e emocionais. É um entretenimento interessante. Um filme equilibrado sobre um temor casual na sociedade de hoje que merece ser dialogado. O nome original do filme, por exemplo, é uma menção ao espancamento de Rodney King em 1991 pela polícia de Los Angeles no bairro chamado Lakeview Terrace. O nome dele é mencionado no filme ao sua famosa fala “Será que não podemos todos nos entender?” ser citada pelo personagem de Chris. São escolhas interessantes como esta –  e do desflorestamento –  que o filme vinga seus defeitos tão bem. Durante a metragem, somos ora informados sobre um incêndio florestal perto da vizinhança e, conforme o relacionamento hostil entre o casal e o policial se torna mais e mais perigoso, o incêndio chega mais e mais perto da vizinhança, culminando em um ato final que, embora de certa forma covarde, nos deixa satisfeitos sob níveis específicos. O utilizo do incêndio para caracterizar o relacionamento dos personagens é inteligente, e LaBute merece seu reconhecimento. Seu filme poderia ser indubitavelmente melhor, mas possui virtudes o suficiente para funcionar sob muitos níveis.

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Lakeview Terrace (2008)
Direção:
Neil LaBute
Roteiro: David Loughery, Howard Korder
Elenco: Samuel L. Jackson, Patrick Wilson, Kerry Washington, Jay Hernandez, Regine Nehy, Jaishon Fisher, Keith Loneker, Robert Pine
(Suspense, 110 minutos)

Disponibilidade | Já nas locadoras.


Responses

  1. Não estreou em Portugal, seguiu directamente para o mercado de DVD. A edição tem apenas algumas semanas, mas já está na listinha.

    Abraço.

  2. Shish, veio direto para vídeo aqui? Êta nóis… Bem, quem sabe ele se torne o primeiro filme de LaBute que verei. As informações prévias atiçam o interesse.

  3. Já queria assistir a este filme antes por causa do Patrick Wilson, um ator que adoro. Seu texto e ótima recomendação do longa foram um bônus nessa vontade. :-)

    • Red Dust, o mesmo ocorreu aqui no Brasil. O filme vale a pena ser visto.

      Gustavo, a filmografia dele é interessante, com erros e acertos. “O Vizinho” é um acerto, veja sim.

      Kamila, também admiro bastante Patrick Wilson, e veja mesmo o filme, ele é bom.

  4. O Neil LaBute é um diretor interessante, mas extremamente irregular. Fiquei surpreendido com seus comentários, já que foi um dos poucos positivos a respeito do longa. Fiquei até com vontade de ver depois dessa crítica!

  5. Parece ser, pelo menos, um bom filme. Seus comentários em relação a ele, me animaram. ;)

    Beijos e tenha um ótimo fim de semana!

    • Vinícius, concordo sobre o LaBute e também me surpreendi com “O Vizinho”, espero que você o encontre (e que goste também).

      Mayara, é sim um bom filme, pode procurar. Ótimo fim de semana para você também!

  6. Achei fraco e forçado, apesar de algumas partes marcantes.

    • Anderson, tem momentos forçados mesmo, mas no geral achei virtuoso.


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