Publicado por: Wally | Domingo, Maio 24, 2009

Sob Controle

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Depois de um misterioso incidente numa estrada de cidade pequena, que levou ao brutal assassinato de cinco pessoas, os agentes do FBI Elizabeth Anderson e Sam Hallaway iniciam uma investigação lidando com testemunhas oculares cujos depoimentos do ocorrido não conseguem ajudar os agentes a descobrir quem são os culpados pelo crime, evitando que ataquem novamente.

O quadro atual de filmes criminais que focam tramas polícias, normalmente visando versar acerca da corrupção na mesma, tem se tornado um tanto superlotado. De excelentes retratos como “Tropa de Elite” à outros bem mais razoáveis como “Força Policial”, revelou um subgênero saturado com filmes que se recusam a sair do lugar comum. Não é o caso, porém, de “Sob Controle”, que é, de início ao fim, um tanto ácido e subversivo em suas implicações morais, críticas e psicológicas. O filme, que começa com um enredo aparentemente simples, vai se desenrolando de forma inquietante até que o clima que permanece ao seu fim se condiz idilicamente ao tom incisivo que o filme mantém e explora de uma forma ainda mais ousada com seu clímax completamente surpreendente. Não só surpreendente em termos de thriller, mas surpreendente em termos narrativos, já que a inteligente cineasta e roteirista Jennifer Chambers Lynch (filha de David Lynch) envia sua revelação no desfecho com uma malícia deliciosamente irônica.

Lynch, que retorna ao cinema 15 anos depois de assustar muitos com “Encaixotando Helena” – que foi muito criticado – entrega à seu filme um ar de suspeita e tensão obrigatório para qualquer fita do gênero. Principalmente uma como esta, que tem como base um enredo de desconfianças, investigação e mistério. O que a propulsiona, porém, é o quão fortemente amarrada é a situação. Ao deixar o espectador no escuro, Lynch e seu co-roteirista Kent Harper (em sua estréia) desenvolvem a estrutura da narrativa em meio à suspeitas, pistas e depoimentos. Construindo não só para o ritmo do filme, mas trabalhando para manter uma aplicada atmosfera. O filme te engata mesmo, porém, ao mostrar de uma forma nada clara e completamente instigante os fatos que precederam a tragédia, já nos revelando seus personagens e construindo seus respectívos caráteres. Essa forma de construir a história e nos manter ligados aos personagens é acertada e, mesmo que às vezes soe irregular com uma mão ocasionalmente pesada de Lynch, vinga ao não só conseguir aplicar clima, mas também uma estrutura esperta e tensa, ainda realçando a autenticidade de seus personagens bastante vibrantes e coloridos.

Até seu clímax, “Sob Controle” é um olhar ácido sobre não só a corrupção policial –que por sua vez não está apenas ligada à fundos monetários – mas sobre a estupidez e ignorância humana, fazendo um retrato ocasionalmente perturbador (e até irritante) sobre nossos limites como seres humanos. Algo que é levado ao grau máximo na revelação ao seu fim que, perversamente densa em seu retrato psicológico, nos coloca diante do improvável e, talvez justo por isso, se revele tão irônico diante da própria inevitabilidade dos fatos na realidade atual. O que vem a ser revelado poderia ter sido forçado e, em síntese, vem com uma força inesperadamente tão forte que pode soar mesmo. Mas, ciente destas prováveis incitações diante da força de seu fim, Lynch não apenas joga sua revelação e termina o filme. Diante disso, ela elabora ainda mais nas complexidades de seus personagens, deixando tudo muito genial, crível e maduro. E, claro, ajuda muito quando os protagonistas se revelam escolhas tão acertadas, conseguindo construir uma química essencial entre si. Julia Ormond (O Curioso Caso de Benjamin Button) e Bill Pullman (Todo Mundo em Pânico 4) ambos se revelam admiráveis, e a forma como abordam suas figuras adicionam em muito ao abusado clima negro do filme.

No geral, “Sob Controle” é um grande acerto. Enquanto seu enredo não é nada original e nem mesmo sua estrutura, tudo é delineado com esperteza e as sacadas ao meio do caminho oscilam constantemente entre o deliciosamente ácido e um senso de divertimento macabro. É um filme sério revestido por uma camada banhada por humor negro e um senso estridente de ironia. Ele joga com a audiência da mesma forma que joga com os personagens, muitas vezes nos colocando no lugar das próprias vítimas. Isso coloca à prova que o subgênero está sujeito à bem-vindas e maduras mudanças. Lynch ainda acerta muito na composição da personagem jovem vivida de forma digna por Ryan Simpkins (Foi Apenas um Sonho). Ao abandonar o clichê e compor a personagem de forma mais forte, ela à constrói como uma densa simbologia da inocência, contrariando a todas as outras figuras realçadas na obra, vítimas ou culpados, fator que talvez sirva de alegoria para a posição inteligente tomada pela personagem perto do final. E é quando “Sob Controle” abandona a estrutura óbvia e cai na ousadia destas entrelinhas que ele mais se sai vitorioso. O filme é violento, sujo e totalmente perverso. Sua identidade é imutável, e a sessão é em si um virtuoso entretenimento que poderá agradar até mesmo aqueles que não estão preparados para as incisões ácidas do roteiro. Quem se disponibilizar à lê-las, porém, saíra ainda mais satisfeito da sessão.

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Surveillance (2008)
Direção:
Jennifer Chambers Lynch
Roteiro: Kent Harper, Jennifer Chambers Lynch
Elenco: Julia Ormond, Bill Pullman, Pell James, Ryan Simpkins, French Stewart, Kent Harper, Michael Ironside, Charlie Newmark, Cheri Oteri, Gill Gayle
(Policial, 97 minutos)

Disponibilidade: Já nas locadoras.

Confira o trailer depois do pulo:


Responses

  1. Wally, eu não consigo encarar “Sob Controle” como um filme de humor negro e muito menos acho a sua narrativa e estrutura nada original. Desde quando vi “Encaixotando Helena” enxerguei em Jennifer Chambers Lynch uma diretora de talento, embora o seu debut fosse vergonhoso. E a surpresa ocorre em “Sob Controle”, um suspense com muitos momentos de tirar o fôlego.

  2. Também já passei por esse, mas não peguei!

  3. olá wally, sobre o comentário que vc fez com relação a Primer, é realmente um grande filme, não deixe de vê-lo assim que tiver oportunidade.

  4. Depois dos comentários do Alex, eu fiquei bem curioso acerca deste “Sob Controle”. Confesso que não conheço nada do trabalho de Jeniffer Lynch, mas sem dúvida alguma ela merece uma chance – dado o fato de ser filha do maluco beleza mais fantástico do cinema. Agora, com os seus apontamentos, fiquei ainda mais curioso. É claro que não espero a oitava maravilha do mundo (e, afinal, filme que tem a Julia Ormond no elenco já me deixa bem innteressado).
    Abraços!

  5. É, parece que o talento vem de família mesmo, hehehe. Não tenho muita curiosidade em relação ao longa, mas depois de seus comentários, acho que vale a pena uma conferida…

  6. Só li boas críticas em relação à “Sem Controle”. Não conhecia o filme, mas, agora, se tiver a oportunidade, com certeza irei assistí-lo.

    • Alex, não vi “Encaixotando Helena”, mas concordo com o que diz sobre os momentos de tirar o fôlego. Só acho que, além desses momentos, tem outros de ironia rasgada que coloca o filme nos ares do humor negro. E acho sua estrutura um pouco convencional, sim.

      Cleber, você não perde por pegar.

      Wendell, farei isso.

      Weiner, apesar de não ter visto a estréia de Lynch Jr., confesso que por “Sob Controle” da pra ver muito do talento herdado do pai. É um filme muito bom e que merece a procura.

      Vinícius, o talento é mesmo de família. Mesmo que não tenha visto o anterior de J. Lynch, gostei bastante deste. Merece sim a conferida.

      Kamila, assiste sim, é um filme que vale a pena.

  7. Julia Ormond e Bill Pullman? Legal ver que duas promessas-de-astros-que-não-se-cumpriram seguem firme no batente, e, oscasionalmente, em filmes bons. Não conhecia este até ler a crítica, aliás.

    Cumps.

  8. curti pra kct o teu review cara e fiquei bem a fim de ver o filme. lembro de ter lido sobre ele em algum blog esses tempos.

    com certeza irei atrás.

    Abraço

    • Gustavo, disse algo certo mesmo. E procure vê-lo, vale muito a pena.

      Shaun, obrigado! Vai atrás sim.

  9. Um filme interessante, com uma construção perspicaz. Não é de todo polido, mas tem argumentos cinematográficos bem delineados. A filhota está a aprender com o pai Lynch.

    Abraço.

  10. Nossa! Não é o primeiro comentário positivo que leio em relação a este filme, deve valer a pena a procura. ;)

    • Red Dust, é exatamente isto mesmo!

      Mayara, pois vale a pena mesmo.


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