Publicado por: Wally | Sexta-feira, Maio 22, 2009

Dublê de Anjo

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Numa Los Angeles em meio aos anos 20, um dublê sofre um acidente que o leva à um hospital gravemente ferido. Com uma fratura na perna e psicologicamente instável, o homem encontra uma garotinha com o braço quebrado. Ele começa, então, a contar uma delirante história fantástica sobre heróis míticos em um mundo sinistro. Ao passo que a história se desenrola e as emoções dos personagens transcendem, a linha entre realidade e imaginação começa a se partir.

Muitas vezes, o cinema é utilizado como um espelho que, refletindo o real e o cru, faz reflexões assombrosas sobre a sociedade e sobre emoções humanas. Para equilibrar, é mais do que válido que exista o cinema do escapismo. Aquela obra da sétima arte que funciona como um refúgio do nosso mundo real. Aquele que imprime a mais fantástica imaginação sobre sua audiência, concretizando sobre ele um delírio visual e emocional deslumbrante. E é nesse último exemplo – que vem sendo muito esquecido pelo cinema atual – que “Dublê de Anjo” (ridicularmente lançado direto em DVD no Brasil) se encaixa. O diretor, Tarsem Singh, é do típo de cineasta que parece ver a sétima arte como uma fonte de escapismo visual sóbrio. E é uma bela interpretação do cinema. Afinal, era disso que se tratava “A Cela”, filme de estréia de Tarsem que era visualmente inusitado e narrativamente ousado. Tarsem não abandona sua virtuosidade com “Dublê de Anjo”, ao adaptar uma história nada conhecida (o filme é em si uma refilmagem de um filme búlgaro dos anos 70 chamado “Yo Ho Ho”) para ares repletos de ousadia e de uma beleza estética que impressiona.

Em síntese, “Dublê de Anjo” é um filme sobre o valor da imaginação e os confins às quais ela nos leva, mostrando como ela pode refletir nosso estado mental e agir como subconsciente ao filtrar paixões e temores. Em outras palavras, Tarsem realizou um filme que funciona como um estudo metalinguístico do cinema da mesma forma que um ode à força da criatividade, funcionando em ambos como uma obra completa. É preciso ressaltar que, uma vez ou outra, Tarsem pode exagerar nos delírios visuais e às vezes as imagens marcantes parecem existir só pelo bem de existir. Mas a verdade é que o filme em si funciona como um sonho, o delírio imaginativo da história contada por um personagem e imaginado por uma garotinha. E Tarsem não só nos insere num mundo espetacularmente desenhado, mas fortalece este mundo ao entregar-lhe significado e emoção. Portanto, quando chegamos ao clímax, percebemos que não só estávamos num sonho, estávamos seguindo uma linha narrativa com personagens dos quais nós acabávamos por nos importar, tão humanos e complexos em suas falhas e emoções. E, por isso, o clímax soa tão emocionante. Afinal, o filme versa de uma forma muito poética acerca das simbologias cercando os conflitos morais de seus personagens tão bem desenhados.

Ainda mais importante é que “Dublê de Anjo” nunca perde o ritmo, exibindo força também em sua montagem essencial. O filme tem início com uma absolutamente linda cena de créditos em preto e branco, com belíssima trilha e imagens que falam por si só. Na fantasia imaginada por seus personagens, o filme se fortalece da estética sempre formidável e criativa. Filmado em nada menos que 18 países, o filme é de uma diversidade incomum e uma significância cultural fascinante. Empregando à ele todos os tipos de elementos diversos, Tarsem cria um filme não só belo, mas muito interessante no que tem a dizer narrativamente e tecnicamente, podendo dialogar com a audiência em meio à estonteantes figurinos, cenários magnificamente surreais e uma fotografia simbólica. Alias, é ainda interessante ressaltar que não há nenhum utilizo de efeitos especiais. O que vemos em cena é tudo construído de forma natural. E esse vislumbre é uma ópera para os sentidos. A junção entre os belos tons, o clima de fantasia e as músicas sempre expressivas entregam elegância e um classicismo que coloca “Dublê de Anjo” no topo.

Às vezes, você deseja que certos detalhes do roteiro fossem mais bem trabalhados, mas os defeitos encontrados nesse quesito evaporam absolutamente diante dos acertos não só estéticos, mas da própria noção madura de Tarsem, que prima pelo desenvolvimento chave de personagens e sentimentos. Seu longa é cheio de magia e vida, por propor uma história identificável e ao mesmo tempo fantasticamente irreal. E este é um feito extraordinário em seu efeito absoluto sobre a audiência. A verdade é que “Dublê de Anjo” é uma espécie rara. Um filme que encontra o motriz do poder da sétima arte e trabalha sobre ele em prol da satisfação ótica, auditiva e mental. É uma provocação de sentidos e um contundente acerto em estilo. Notável ainda os talentos da dupla principal Lee Pace (A Vida Num Só Dia) e Catinca Untaru (em sua estréia) que conseguem nos cativar instantaneamente. Pace desenvolve um trabalho dramática denso e seu personagem é importante ao servir de simbologia para o que o filme decide versar. Infelizmente, nós brasileiros fomos privados da oportunidade idílica de conferir um filme como este nas salas de cinema. E isso por si só já é ultrajante. Mas é um filme que não deva ser ignorado, mesmo no formato em DVD. Seu efeito é transcendente. É só deixar a magia te encher. E, se você é um verdadeiro apaixonado pela sétima arte, não deve ser difícil.

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The Fall (2006)
Direção:
Tarsem Singh
Roteiro: Dan Gilroy, Nico Soultanakis, Tarsem Singh, baseado em roteiro de “Yo Ho Ho”, escrito por Valeri Petrov
Elenco: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Kim Uylenbroek, Sean Gilder, Ronald France, Grant Swanby, Andrew Roussouw, Emil Hostina, Aiden Lithgow
(Fantasia, 117 minutos)

Disponibilidade: Já nas locadoras.


Responses

  1. Que pena não terem lançado esse filme nas salas. Deve ser um espetáculo em Blu-ray, no entanto. Fico surpreso com a empolgação em torno de Singh, já que A CELA dificilmente empolga, mas, diante de todas as recomendações, se ele amadureceu neste DUBLÊ, então não há por que ficar receoso. Vou ver!

    Cumps.

  2. A história parece interessante e o diretor Tarsem Singh já mostrou ser craque nas imagens, tanto nos clipes que dirigiu, quanto no filme “A Cela”, porém neste filme mostrou tb que ainda precisaria melhorar muito em relação ao desenvolvimento de um longa.

    Abraço

  3. Alguns consideraram esse filme como um dos melhores do ano passado. Mas confesso q tenho medo daquelas imagens de pesadelo do Tarsem. Por isso q não vi A CELA até hj hehe

    Abs!

  4. Excelente filme, muito bem montado e incompreendido!

  5. Estou com esse filme já há um certo tempo, mas por algum motivo ainda não tive uma maior motivação para conferi-lo (quem sabe agora…). Parece ter um visual maravilhoso, ao menos é o que chama mais minha atenção pelas imagens.

    • Gustavo, realmente deve funcionar muito bem em BluRay. Mas nada como a salinha escura… E eu gostei de “A Cela”, mas este aqui é melhor.

      Hugo, é bem verdade que “A Cela” tem esses problemas. Mas, apesar de um ou outro deslize, não vi nada de prejudicial em “Dublê de Anjo”, que é quase um filme 5 estrelas.

      Anderson, ele imprime imagens fortíssimas. Mas “Dublê de Anjo” se passa na imaginação de uma garotinha, não na cabeça de um assassino. Por isso, sugiro que veja, pois é bem leve. ;)

      Cleber, sim, sim e sim. =)

      Vinícius, então veja logo, pois é um primor.

  6. Eu juro que não sei o que esperar deste filme, até porque li opiniões conflitantes sobre ele. O que posso dizer é que acho o Tarsem Singh um diretor que é muito mais preocupado com o lado visual de suas obras do que com a história em si. Mesmo assim, eu quero conferir “Dublê de Anjo”…

  7. Li opiniões bem favoráveis em relação a este filme, principalmente vindo de você. Mas até agora, não chegou na minha locadora… Mas irei começar a caçá-lo, rsrs. ;)

    • Kamila, “Dublê de Anjo” é um equilibrio. Tanto a história, quanto o visual, impressiona.

      Mayara, caçe mesmo, vale a pena.

  8. A fotografia, assim como todo o visual do filme parece estonteante! Lembro de certa expectativa com o filme na epoca do lancamento (q nao ocorreu nos cinemas aqui:-S), mas depois esqueci por completo.. Sua resenha reacendeu o meu interesse!

    • Romeika, que bom! Espero que tenha a chance de vê-lo logo.


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