Publicado por: Wally | Terça-feira, Maio 19, 2009

Watchmen – O Filme

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Se passando numa realidade alternativa em 1985, auge da Guerra Fria e da tensão atômica, um assassinato de um dos antigos integrantes de um grupo de vigilantes denominado Watchmen desperta nos heróis aposentados (leia-se banidos) um desejo de se reunirem novamente, ao passo que investigam o assassinato e desvendam algo muito maior que eles.

É surpreendente testemunhar o que Zack Snyder (300) almejou com sua adaptação da consagrada HQ de Alan Moore que, densa em suas implicações sociais, políticas e psicológicas, foi encarada por muitos como inadaptável. Apesar de arestas e falhas ocasionais, é mais do que sensato declarar que essa maioria estava errada, e que Snyder não só fez uma excitante obra cinematográfica, mas traduziu o mundo criado por Moore com uma fidelidade absurda. A verdadeira surpresa aqui, porém, é ver como Snyder driblou Hollywood e conseguiu fazer um blockbuster que é tudo menos um blockbuster. "Watchmen – O Filme" pode ter custado $100 milhões, mas a julgar pelo que o filme demonstra, Snyder teve uma autoria sobre o projeto invejável. Obtendo censura máxima e contando com uma duração extensa julgada inapropriada para um arrasa-quarteirão, tudo na concepção deste filme soa atípico. E a abordagem de Snyder é uma completamente original e totalmente apaixonada no que se diz acertar a tradução e realmente mostrar o que a graphic novel pretendia. Os efeitos especiais caríssimos que testemunhas, portanto, não são de inúmeras cenas de ação, mas de uma estética detalhadamente arquitetada para reviver tanto o tom da obra original, quanto o clima. Não esperem, portanto, um blockbuster como foi vendido. "Watchmen – O Filme" é uma densa ficção-científica que estimula o intelecto e te transporta para um mundo fantasticamente concebido.

O orgasmo visual pretendido por Snyder aqui é o primeiro elemento a impressionar. E a impressão realmente é absoluta. A produção técnica arriscada criou cenários dignos e uma arte visual espetacular em seus detalhes e significâncias. A fotografia é uma maravilha em unir tons e quebrar outros, enquanto a parte técnica ainda vislumbra com figurinos impecáveis, efeitos fantásticos nunca exagerados e uma textura visual emblemática por carregar tamanha densidade em suas simbologias. O filme poderia então ser mudo que ainda assim conseguiria entreter, já que Snyder eleva sua imaginação e seu talento cinematográfico a toda prova com sequências desenhadas com vigor e beleza. Mas se fosse mudo, supriria o brilhantismo por trás do texto, que nos mostra o que teria sido do mundo durante a Guerra Fria se houvesse na terra uma força digna de um Deus. Mas "Watchmen – O Filme" nunca dialoga pelo literal. Por trás de sua narrativa bem estruturada, ele nos remete a temas diversos que surgem como discussões e provocações sempre interessantes sobre a condição humana. Sobre moralidade, crime e subversão. E, mais importante, como o mundo em si funciona diante de ameaça. E se, diante do deplorável, a raça humana merece ser salva.

A ressonância da cínica visão sobre o mundo e o ser humano transforma "Watchmen – O Filme" num filme que não só tem algo a dizer, mas serve como uma profunda reflexão sobre temores e a culminante fragilidade do ser humano. E este lado fascinante do filme apenas o entrega uma força maior, concretizada pelo talento de Snyder em construir um filme visualmente e estruturalmente excitante. É inegável, porém, que não se trata de uma obra perfeita. O ritmo do filme não foi acertado e apenas suas interessantes complexidades o deixam vivo diante de um cenário de ação quase nulo. E isso pode tornar as mais de duas horas e meia em algo difícil. As idas e vindas no tempo do roteiro também não fluem da melhor maneira em momentos, que por sua vez ganha ajuda de uma edição hábil. Mas na maior parte das vezes que surge um elemento fora de lugar, um excesso ou um defeito mais gritante, a decepção é amortecida quando logo em seguida somos surpreendidos por mais uma virtude. Então o filme pode ter seus defeitos, mas seu belo equilíbrio acaba por desnutri-los. Algo que ocorre, por exemplo, com a trilha sonora. Cheia das mais geniais canções, de Bob Dylan à Simon & Garfunkel, algumas soam deslocadas. Mas isso em prol, novamente, da fidelidade. Alguns capítulos da HQ vinham com títulos que remetiam às canções escolhidas por Snyder para compor o filme. E, em questões de clima, foram grandes acertos. Um defeito subjugado por uma virtude maior que ele.

Não tem o que reclamar do elenco. Todos muito competentes. Talvez a única decepção esteja reservada à Malin Akerman (Vestida para Casar), que pouco convence apesar das curvas. Já seu par, Patrick Wilson (O Vizinho), exibe novamente seu conhecido talento. Dividido por Jackie Earle Haley (Os Aloprados), que pouco aparece pessoalmente mas que almeja o incrível por debaixo de uma máscara. O mesmo merece ser dito quanto à Billy Crudup (Uma História de Amor) que, revestido de CGI, entrega uma potente performance. Ainda há lugar de sobra para o admirável Matthew Goode (O Vigia) e, principalmente, Jeffrey Dean Morgan (Ao Vivo!) exercitarem talento. E Morgan está eletrizante. O versátil elenco pinta um painel rico muito como o qual o próprio filme representa em termos narrativos. É uma digna obra cinematográfica que pode ser falha, mas que se demonstra ousada, corajosa e complexa o suficiente para nos convidar para novas revisões. E, para quem não teve a oportunidade de vê-lo nos cinemas, resta apenas lamentar, já que a estética formidável merece ser aproveitada dentre as maiores circunstâncias possíveis.

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Watchmen (2009)
Direção:
Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse, baseado na HQ de Alan Moore
Elenco: Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie
(Ficção, 162 minutos)

Disponibilidade: 21 de Julho nas locadoras.


Responses

  1. É um filme subestimado, uma excelente adaptação dos difíceis quadrinhos de Alan Moore. Tem tudo para, em breve, se tornar cult.

  2. Um dos melhores filmes que vi nesses ultimos tempos, rs… Excelente mesmo…

  3. é ideal pra ser visto no cinema, mesmo!

    esteticamente é algo perfeito e o diretor soube transportar bem o watchmen da hq pro filme, sem perder muita coisa.

    mas como vc falou tem uns defeitos aqui e ali, mas nada que atrapalhe no geral!!!

    abraços

    • Wallace, também achei subestimado e espero que se torne mesmo um cult.

      O Cara da Locadora, é realmente muito, muito bom.

      Shaun, quem não viu nos cinemas perdeu um espetáculo. E as falhas não prejudicam o que o filme tem de valioso.

  4. Wally, acho q Watchmen e X-Men Origins:Wolverine sofrem do mesmo mal, são esquecíveis, sendo que o segundo é menos pretensioso. Abcs

  5. Wally, você gostou deste filme bem mais que eu. O trabalho visual do Zach Snyder é sensacional, mas acho que o diretor pecou no roteiro, que respeita demais a HQ. Acho que faltou alguém com pulso forte para enxugar a história, para privilegiar algumas histórias em detrimento de outras.

    • Jacques, preciso discordar. Não acho que “Watchmen” tenha nada de esquecível. Alias, após vê-lo não só procurei o material original como também fiquei ansioso para rever. Já “Wolverine” é um filme dos mais esquecíveis possíveis. Acho que é um erro comparar dois filmes tão distantes em qualidade.

      Kamila, concordo que os erros do filme são oriundos da tamanha fidelidade do roteiro à obra original, mas como disse, as virtudes se sobressairam e poucos defeitos deixaram uma impressão. Acho que, aqui, todas as histórias contadas precisavam para dar urgência maior ao arco dramático. Mas o visual é mesmo sensacioal.

  6. mesmo com vários elogios, confesso q não tenho muita vontade de ver.

  7. É um bom filme. O interessante é notar que não se trata de SUPER-heróis e sim de heróis. A densidade do filme é que o faz diferente e que agrada a maioria.

    • Brenno, uma pena, pois acho um filme imperdível.

      Robson, o filme tem mesmo uma clara densidade, e é interessante mesmo este lado que tu apontou. No geral, me agradou muito.

      • pena q muita gente nem percebe que não são SUPER heróis, já que o diretor pirou na batatinha e fez todo mundo invencível em lutas “a la matrix” com cada soco dando estouros ensurdecedores. Qualquer um que ler o original e tenha entendido o espirito e objetivo da revista original sabe q era pra ser EXATAMENTE o contrario, todom mundo mais humano, mais fraco. DEsmistificar os “supers” e não criar aquelas cenas exageradas. Diretor foi extremamente apelativo aumentando a violência imensamente (exemplo na prisao e principlamente na modificacao total da morte do assassino da criança) e apesar de ser totalmente sem “timing” durante 90% do filme (se vc nao leu a obra original, vai precisar assistir umas 10 vezes pra entender e mesmo asism nao obtera a emoção do quadrinho) limitando-se a filmar o quadrinho sem o tempo de espera das emoções, decidiu na cena de sexo fazer uma incansável cena de uns 30 minutos! :P tocando aleluia ainda, pra ficar cômico. Ninguém merece. A trilha sonora, como CD é uma maravilha, compraria na boa, agora no filme foi tão desagradável que cheguei a ficar com antipatia até pelas músicas q eu curtia! Acho q foi uma péssima direção, um péssimo filme se considerando o fato de ter denegrido a imagem do original, e se fosse um trabalho inédito, teria o único fator positivo de levar o universo de super-heróis por um lado sério. Mas isso Batman Begions e Dark Knight fez de forma competente, sem transformar-se numa obra desagradável.
        Considero Watchmen uma das melhores obras que li (e possuo) quanto a esse filme, me arrependo amargamente de ter gasto no cinema assistindo. (e olha q o visual é fantástico mas não vale)

  8. Opa, quero ver este filme. Não assisti nenhum filme de 2009 ainda.

  9. “E, para quem não teve a oportunidade de vê-lo nos cinemas, resta apenas lamentar, já que a estética formidável merece ser aproveitada dentre as maiores circunstâncias possíveis.” Meu caso, hahaha. Todo mundo fala super bem do visual do filme, até mesmo aqueles que não gostaram no resto. O jeito vai ser esperar pelo DVD…

  10. Achei quase um horror… Bom, pelo menos, não funcionou comigo. Mas gostei do Rorschach.

    Abs!

    • Luis, poxa, nenhum? “Watchmen” é um bom começo.

      Vinícius, realmente preciso ser sincero. A experiência nos cinemas teria sido melhor, mas o filme tem virtudes além do visual. Vai funcionar em DVD.

      Otavio, horror? :( Eu gostei tanto. E Rorschach é ótimo!

  11. È um filme que teve críticas bem divididas, acho que por isso o deixei escapar no telão. Mas darei um nova chance a ele quando estiver disponível em DVD. ;)

    • Mayara, não vou dizer que ele não teria funcionado melhor no telão – porque iria – mas mesmo em DVD, um grande filme é um grande filme.

  12. Rorschach e O Comediante garantem o filme!

    • Pedro, são o motriz! Os melhores dos personagens (e atores).

  13. […] lado de Jackson, uma ótima atuação do sempre versátil Patrick Wilson (Wacthmen – O Filme), que constrói seu personagem falho com uma vulnerabilidade admirável e uma consistência […]

  14. […] pelo diretor de "Watchmen – O Filme" e de "300", Zack Snyder, o "conto" do Cargueiro Negro (sim, singular, […]


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