Publicado por: Wally | Segunda-feira, Maio 18, 2009

Quem Quer Ser um Milionário?

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Jamal Malik é um adolescente improvável das favelas de Mumbai, na Índia, que se vê inesperadamente como um participante da versão indiana de “Quem Quer Ser um Milionário?”. Dado sua origem e circunstâncias, Jamal logo se torna suspeito de roubar e começa a ser interrogado pela polícia. Eventos de sua vida começam a desenrolar, justificando o caminho dele até ali.

O último grande vencedor do Oscar, “Quem Quer Ser um Milionário” é um filme dos mais improváveis. E, talvez por isso, ele seja tão surpreendente. O versátil Danny Boyle (Sunshine – Alerta Solar), aventureiro de diversos gêneros distintos, é um dos motivos pelos quais o filme é tão preciso em seu efeito arrasador na audiência. Em total domínio de sua técnica, Boyle pega uma história simples e piegas e a transforma num tour de force cinematográfico poderoso e completamente irresistível. E, ao retratar um conto de superação dos mais contagiantes, traz consigo um sentimento afetivo que anda em falta no cinema recente pessimista. Da violenta cena inicial até a contagiante final, o filme te entorpece de uma maneira maravilhosamente idílica, levando seus espíritos conforme testemunhamos a trilha de um personagem denso num mundo cruelmente real. E é um espetáculo o caminho que Boyle pavimenta. Ousado e nunca conformado, ele e sua equipe técnica impecável traduzem cada palavra do excelente roteiro de Simon Beaufoy (A Vida Num Só Dia) numa vertigem sensacional que não só entretem, mas deslumbra.

E vertigem é o que não falta aqui. Armado com uma brilhante fotografia e uma edição genial, o filme nunca perde o ritmo e te mantém constantemente acesso às implicações da história, sejam estas quais forem. O roteiro é construído com precisão diante das complexidades das passagens do tempo, idas e vindas e flashbacks essênciais. Beaufoy faz com que as constantes jogadas pelo tempo não cansem, cria diálogos críveis e faz com que o tom de “fábula” se transforme em algo realista até demais, trazendo com isso um clima de emoção irrepreensível. E a plausibilidade aqui era necessária para a completa função dos temas regidos. Mas Beaufoy acerta e Boyle nunca condensa a esperteza da estruturação do script. Pelo contrário, ele apenas a fortalece, ao mergulhar a audiência num mundo habilmente construído e recheado da mais perfeita dramaticidade. O fervor do drama une-se então à força do suspense, ao descompromisso do humor e à agilidade do ritmo para criar um filme do qual você teme fechar os olhos e perder um mínimo detalhe de toda sua fantástica estrutura.

Ao lado de sensacionais aspectos como direção, roteiro, fotografia e edição, o filme ainda almeja uma trilha sonora completamente carregada de estilo e oscilação. Alias, talvez o que faça o filme brilhar tanto não seja nem tanto as particularidades destes elementos, mas sim, a forma extraordinária com a qual todos se unem tão bem e em completa sincronia poética. E o filme de Boyle é completamente poético em seus fundamentos densamente dramáticos de esperança em meio à perdição. Retratando Mumbai da forma devastadora como deve ser em sua miséria e violência, mas capturando seu espírito de forma sincera, ele eleva seu filme do mero lugar comum ao entregar à história identidade e audacidade narrativa. Suas imagens, muitas vezes, falam por si só e vencem por completo toda e qualquer admiração. O filme funciona como uma droga. Um entorpecente forte que age sob sua pele como os melhores filmes conseguem. “Quem Quer Ser um Milionário” não tem comentário profundos sobre o psicológico humano ou em nenhum momento almeja pique intelectual. Carregado pela simplicidade de seus personagens e suas próprias singelas ambições, ele te leva oscilando numa épica narrativa que te enche da mais contundente emoção. E, ás vezes, isso é mais do que o suficiente.

Contando ainda com um elenco hábil de nomes desconhecidos, os atores sempre verossímeis fazem um trabalho exemplar em trazer o espectador para mais de perto da trama e de seus próprios personagens, que ganham humanidade importante (destaque especial merece ir à Dev Patel, estupendo no papel principal). Por isso, não é tão surpreendente quando você se vê pego com um largo sorriso no rosto na última cena do filme, que se segue de um clímax dos mais emocionalmente tensos. E também não é surpreendente que tal sorriso continue estampando seu rosto bem depois do término da sessão. Isso tudo é justificado pelo poder irrefutável com o qual o filme age sobre você. Fábula ou não, a história te vence e demarca um sentimento de otimismo e esperança cada vez mais necessário. Além disso, marca de vez o início da esperançosa era Obama nos Estados Unidos, talvez justificando tamanho o sucesso improvável do filme nas terras gringas que, com apenas $15 milhões de orçamento, ultrapassou a marca dos $100 milhões apenas nos EUA e viria mais tarde a derrotar grandes produções para vencer nada menos que oito Oscars da Academia. Com isso, o filme substitui o pessimismo deixado por “Onde os Fracos Não Tem Vez” há um ano e celebra, com unhas e dentes, o poder da força humana e o valor da fé. Piegas? Pode ser. Mas ainda assim, maravilhosamente refrescante. Nada como ser varrido pelos seus pés e estimulado por uma obra de arte tão valiosa.

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Slumdog Millionaire (2008)
Direção:
Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Vikas Swarup
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Irfan Khan, Rubina Ali, Tanay Chheda, Ashutosh Lobo Gajiwala, Azharuddin Mohammed Ismail, Anil Kapoor, Madhur Mittal
(Drama, 120 minutos)

Disponibilidade: 17 de Junho nas locadoras.


Responses

  1. GOSTO MUITO DESSE FILME, MAS NAO O ACHO O MELHOR DO ANO E TAMBEM NAO O COLOCO ENTRE OS 5 MELHORES DO ANO.

    VAI ENTENDER

    ABRAÇOS

  2. Apesar de não concordar com as cinco estrelas, não há como negar que o filme também me deixou com um belo sorriso ao fim da sessão. É uma história inspiradora e ressoante. No fim das contas, é isso que importa.

    Cumps.

    • Brenno, eu o adoro e não sei se o considero o melhor do ano. Mas um dos melhores, sem sombra de dúvida.

      Gustavo, exatamente!

  3. Gosto muito desse filme, só que MUITA FALAÇÃO … me incomoda e 8 OSCAR AINDA MAIS !

  4. Concordo bastante com o que disse em seu texto. O filme conquista por ser simples, e consegui muito bem contar uma história de sofrimento, superação e amor. ;)

  5. É sempre muito bom ver alguém falando bem de “Slumdog Millionaire” , filme que ganhou uma série de ‘haters’ obviamente por causa de seu grande sucesso na última temporada de premiações (se tivesse passado despercebido, seria considerado um “cult” imediato por alguns destes “críticos”, não tenho dúvida).

  6. Wally, eu acho que o filme está muito longe de tudo isso o que você diz em seu texto. Não é um filme tão canalha como andaram falando por aí, mas para mim está longe de ser a oitava maravilha do mundo. Para mim Danny Boyle continua a mesma coisa como cineasta, alternando bons e maus momentos. Gosto muito do último ato do longa, mas os acontecimentos que o antecede já foram apagados da minha memória. Okay e só!

    • Cleber, idependente da atenção que o filme ganhou e a quantidade de Oscars que levou, ele continua sendo um filmaço. Ao menos para mim.

      Mayara, disse tudo!

      Vinícius, concordo plenamente. É modinha criticar filmes que ganham tanta atenção porque faz você parecer “cool” diante da maioria. É fato. Que bom que você gostou tanto quanto eu.

      Alex, os acontecimentos que antecedem o clímax ainda estão presos em minha memória, porque o talento ali exibido é do mais grosso calibre. E toda a história, de início ao fim, me foi marcante. Por isso, exaltei tanto o filme. Além de memorável, foi extremamente especial.

  7. Uhmmm, não acho tudo isso não, Wally. Você expressou com muita paixão a sua admiração pelo filme e isso é muito bom – é de uma sinceridade quase contagiante. Mas não senti tudo isso que sentiu e achei o filme apenas bem legal. Gosto principalmente da fotografia, da edição e amo Jai Ho. O roteiro não é excelente não vai? hehe Alguns diálogos beiram o ridículo. Mas esses pequenos detalhes acabam só fazendo diferença para quem não gostou tanto.
    Eu até preferia ter sido contagiado pelo filme, mas não deu.

    []s!

    • Jeff, uma pena que o mesmo não occoreu com você. E eu realmente não vi problema algum com os diálogos. Alias, achei todo o trabalho feito aqui incrível.

  8. Adoro o filme, especialmente a estupenda direção de Danny Boyle.

    • Matheus, idem! =D

  9. Gosto bastante do filme, apesar de não achá-lo uma obra-prima. Acho que falta ousadia nas cenas mais violentas, nesses momentos Boyle parece querer amenizar as coisas, lembrar que aquilo ali é só um conto de fadas, o que acho que prejudica a força de sua história.
    Mas também adoro Dev Patel, acho-o excepcional!

    • Wallace, não vi esta falha na forma como retrata a violência. Só não é tão cru quanto um “Cidade de Deus”. Mas achei a abordagem eficiente. E Patel foi uma surpresa!

  10. O filme é bom. Entretanto, supervalorizado, principalmente nos EUA. Claramente, a situação caótica de fundo econômico que tem affetado aquele país, deixou o moral doa americanos bem baixo. Esse filme levanta o ânimo. Em curtas palavras, foi o filme certo, para o momento adequado. Tanto que ganhou o Oscar/2009. Injusto, pois “Benjamin Button ..” era superior.

  11. Concordo com vc e o comentário do Vinicius. É um belo filme e mereceu a vitória no Oscar. Não 8 estatuetas, mas mereceu as principais.

    Abs!

    • Jacques, concordo que tem a ver ele ter sido feito na hora certa, mas isso apenas o ajudou no Oscar. Na verdade, além de tudo isso, acho uma obra incrível. Mas eu também prefiro (ligeiramente) “Benjamin Button”.

      Otavio, belo mesmo! Mas, mesmo tendo dúvidas quanto às 8 estatuetas, não posso dizer que ele não as tenha merecido.

  12. O pecado principal de QUEM QUER SER UM MULIONÁRIO é um roteiro que repete uma fórmula que usa das seguintes ferramentas para impactar o espectador: violência, romance, lei de que o mais fraco vence, entre inúmeras outras. Um filme que passa a imprensão de ser genérico o tempo inteiro. Vemos várias semelhanças com CIDADE DE DEUS. Seria isso uma coincidência?! Acho que não. Há até uma cena que é idêntica à produção brasileira.

    A produção ficou a cargo de Christian Colson (ABISMO DO MEDO) e também teve seus méritos. As principais deles foram: fotografia, elipses e locações muito bem escolhidas, fazendo com que as cenas se encaixasem harmoniozamente ao roteiro. A fotografia de Anthony Dod Mantle (O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA) também merece destaque, pois foi muito bem executada, com benéficos enquadramentos e o uso de grande angular em vários momentos. As atuações são todas medianas e não interferem no resultado final da película.

    SORO: fotografia; elipses; montagem; locações.

    VENENO: criatividade do roteiro.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

    • Anderson, por mais que eu tente, não consigo ver este defeito do roteiro. Alias, o admiro ainda mais por ser saber desenvolver espertamente uma premissa que poderia facilmente ter caído no piegas e no cliché. Mas o filme é tudo menos isso.

  13. 8 Oscar foi pouco pra esse filme. Filmaço do Danny Boyle. Ah, e Cidade de Deus é quem copia o Boyle de Trainspotting e não Boyle plageia o filme do Meirelles.

    Abs, Wally!

    • Pedro, também acho errado quem o acusa de copiar do cinema de Meirelles. Nada a ver. É um filmaço de um diretor super versátil.

  14. MUito boa a direção, o elenco, excelente filme. Para todos os públicos.

  15. […] Melhor Filme Batman – O Cavaleiro das Trevas* Crepúsculo High School Musical 3 – Ano de Formatura Homem de Ferro Quem Quer Ser um Milionário? […]


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