Publicado por: Wally | Domingo, Maio 17, 2009

Austrália

1australia

Numa Austrália antes do início da Segunda Guerra Mundial, uma aristocrata que herda uma grande parte de terra é obrigada a se unir com os povos locais e um homem em específico para garantir a salvação do local das mãos erradas. Claramente se apaixonando pelo seu “rancheiro”, ela logo começa a se importar por um aborígene e se vê pega no meio de uma tormenta durante os ataques em Darwin pelos japoneses.

O novo filme de Baz Luhrmann, imaginativo cineasta que revitalizou “Romeu + Julieta” e trouxe o musical de volta com “Moulin Rouge!” é, em escopo, um grande épico romântico. Daqueles que, se fossem feitos nos anos 50 e 60, com tamanho orçamento (de acordo com a época) e elenco tão importante, teria se tornado uma sensação. Mas Luhrmann não tem a mão de Victor Fleming e, escrevendo o roteiro ao lado de três outros roteiristas, encontra tropeços no caminho que certamente debilitou seu épico em sentidos diversos. É preciso ressaltar, porém, que as ambições de Luhrmann na concepção deste filme não eram a de se equiparar aos “grandes”. Na verdade, de início ao fim, “Austrália” funciona como uma digna homenagem à força e à magia do cinema, com todo seu escopo e senso de grandeza. A começar pela data na qual a trama se passa – 1939 – ano em que foram lançados ambos “…E o Vento Levou” e “O Mágico de Oz”, cuja memorável canção “Over the Rainbow” é utilizada diversamente na trilha, acendendo momentos de melancolia e magia. Além disso, a cena de ataque dos japoneses é, de fato, imagens retiradas do filme “Tora! Tora! Tora!” e todo o enredo inicial da obra cercando a aristocrata, o falecimento de seu marido e os acontecimentos posteriores remetem à trama de “Era Uma Vez no Oeste”. Mas momento mais claro de homenagem é aquele com uma sessão do próprio “O Mágico de Oz”, cuja fábula se torna um elemento importante para a fé de seus personagens.

Em seu núcleo, portanto, “Austrália” é este singelo e belo filme sobre amor e guerra que homenageia o que o cinema teve de melhor. É uma pena, porém, que a clara dedicação (e paixão) de Luhrmann na cadeira do diretor não conseguiu debilitar completamente os erros de um roteiro que, ainda que enraizado em claros conceitos de “fábula”, se exagera diversamente, trazendo seus personagens em momentos superficiais, denunciados por diálogos nada críveis. Não ajuda, também, sermos feitos de turistas em seu primeiro ato, quando Luhrmann decide abusar de tomadas das paisagens e belezas austríacas. E, ainda que seja claro que esta não tenha sido uma escolha pessoal do cineasta (o orçamento do filme estava muito alto e queriam promover o país) acabou por deixar o filme soando burocrático demais. É duvidoso, também, os limites visuais aos quais Luhrmann estava disposto a ir para garantir grandeza. Em certos momentos, a câmera dele captura sequências incríveis, incluindo um ou outro plano sequencia, e em outros justifica-se a fotografia (que possui cores fortes e um visual “desenhado”) para fazer jus ao tom de magia. Mas nem sempre este utilizo soa plausível e Luhrmann exagera na dose. Por mais belo que seu filme seja esteticamente, este se torna, diversamente, artificial demais, tamanha a “perfeição” desenhada das imagens capturadas, claramente acopladas em cenários falsos que deixam o filme numa linha tênue entre a beleza e o exagero.

O filme em si fica preso nesta linha. É insensato desmoralizar toda a paixão aqui depositada e nem por isso, o talento. Existem várias virtudes no filme, e é inegável que, apesar da excessiva duração, ele consegue entreter. Mas é difícil não perceber que Luhrmann excedeu por vezes uma outra linha e, por pouco, não deixou todo o seu filme tão artificial quanto certos aspectos ficaram. Porque o senso romântico e mágico te conquista, mas fica difícil se envolver completamente (e digo emocionalmente) quando o roteiro soa tão superficial quanto os próprios sentimentos que exprime. Mas, entre estas virtudes e falhas, o filme acaba por se equilibrar e se acomodar nesta linha. Esta perigosa linha que – se cruzada – pode anular por completo ou suas virtudes ou suas falhas. É dependente completamente de quem for a audiência e o quanto de cinismo ela guardará. Pois para abraçar de verdade uma obra “fantástica” como “Austrália” é preciso jogar o cinismo pela janela da mesma forma que se joga a lógica antes de testemunhar um exagerado filme de ação. “Austrália” é um filme exagerado em seus sentimentos e em seu espoco, e ele sabe disso. Resta a nós não renegar a paixão exacerbada de seu diretor e tentar se levar pelo que restou de bom por trás das excessos.

Como já foi dito, o visual é um triunfo – apesar da tal ocasional artificialidade. O filme é bem fotografado, possui imagens quase icônicas e figurinos exemplares. A edição pode pecar diante da exagerada duração, mas acerta com dignidade ao editar cenas de mais ação e aventura. Tecnicamente, o filme é aquilo que ele homenageia: quase idílico. Ele ainda ganha forma com o charme de seu elenco. Obviamente, Nicole Kidman (Margot e o Casamento) já esteve em dias melhores, mas ela entrega tudo de si e é divertido ver a dedicação dela pelo papel, mesmo que não exista química alguma entre ela e Hugh Jackman (X-Men Origens – Wolverine). E isso é fatal quanto à plausibilidade do romance entre ambos. Jackman encara diversamente a canastrice, mas tem bons momentos de carisma e sentimento. Vale ainda elogiar o pequeno Brandon Walters (em sua estréia), cujo desempenho honesto é quase tocante se não fosse pela irritação causada pelo exagero de seu personagem. David Wenham (300), por sua vez, cria um vilão memorável. No todo, “Austrália” é falho filme que não merece ser jogado ao barro como foi por crítica e público. Funciona dignamente como homenagem e entretem como um verdadeiro épico romântico faria. De certo, ele será esquecido. Mas por ora, deixe ele ser apreciado.

australia_ver6

star1star1star1

Australia (2008)
Diretor:
Baz Luhrmann
Roteiro: Stuart Beattie, Baz Luhrmann, Ronald Harwood, Richard Flanagan
Elenco: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Brandon Walters, David Wenham, Angus Pilakui, David Ngoombujarra, Ben Mendelsohn, David Gulpill, Sandy Gore
(Drama, 165 minutos)

Disponibilidade: Já nas locadoras.


Responses

  1. Ainda não vi, mas está no topo da lista de DVD’s para alugar no clube. Deve ser em breve… :)

    Abraço.

  2. Com efeitos visuais alternados, ora magníficos ora rebaixantes, AUSTRÁLIA conta uma história romântica em terras australianas. Uma superprodução que prima pela técnica, mas que peca no roteiro com conteúdo raso e limitado, contando apenas com a plasticidade das cenas propostas.

    Mas o que mais a atenção em AUSTRÁLIA é a riqueza de detalhes. A produção, formada por Catherine Knapman, G. Mac Brown (INFIDELIDADE), além de Luhrmann; caprichou. Desde um figurino mais complexo, como de Nicole Kidman, com seus óculos; a objetos simples de uma cena menos elaborada.

    Outro ponto que vale ser ressaltado é a cultura australiana exposta no filme. As línguas, os costumes e os diferentes povos da terra nativa de Nicole Kidman, são explorados pelo diretor de forma positiva e elevam a qualidade da película.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

  3. É entupido de erros e falhas, mas eu não achei tão ruim como disseram! Amo “By The Boab Tree” =P

    • Red Dust, vale a pena conferir.

      Anderson, você ressaltou pontos importantes. É um bom filme mesmo.

      Matheus, exatamente! ;)

  4. TAMBÉM NÃO ACHEI ESSA COISA RUIM QUE DIZEM SER, GOSTEI DAS PASSAGENS DE “O MÁGICO DE ÓZ” E NÃO ACHO QUE O BOTOX TENHA PREJUDICADO NICOLE KIDMAN, E AINDA ACHO SUA PERFORMANCE UMA DAS MELHORES DO ANO, APESAR DE NEM ELA MESMA TER GOSTADO.

    ABRAÇOS

  5. Infelizmente “Austrália” é aquele tipo de filme que a gente torce para dar certo, mas acaba tendo falhas imperdoáveis. “Culpa” do Baz Luhrmann, já que outros aspectos da produção parecem ao menos convencer.

    • Brenno, também não achei ruim como disseram, e também não acho que o botox prejudica a Nicole. Gostei dela no filme.

      Vinicius, é bem isso mesmo. Eu esperava bem mais do filme, claro. Mas acho que há muito a ser apreciado. Já eu não acho que a culpa seja de Baz, mas sim, dos roteiristas e do orçamento alto demais, que obrigou os produtores a colocarem o dedo na produção.

  6. Este filme tem dois grandes pecados: o exagero de Baz Luhrmann, que funcionou em outros filmes dele, fica totalmente deslocado aqui, dando a impressão de megalomania; e o roteiro, que é horrível!

  7. Deveria ter sido ignorado!

    • Kamila, o roteiro realmente é desastroso e o exagero de Baz incomoda. Mas a paixão dele na direção ajuda bastante.

      Cleber, não acho. Mas logo será esquecido…

  8. Realmente, um filme que parece valer somente pela parte técnica, que parece também não esconder as falhas dele. Vejo quando não estiver opções na locadora, rsrs. ;)

    • Mayara, não deixe de ver. É bom.

  9. […] funciona. Alias, o forte do filme surge com as atuações dignas apresentadas por Hugh Jackman (Austrália) e Liev Schreiber (O Amor nos Tempos do Cólera), que conseguem bolar boa química ao mesmo tempo […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: