Publicado por: Wally | Sexta-feira, Maio 15, 2009

O Casamento de Rachel

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A instável Kym, que vive entrando e saindo da casa de reabilitação, ganha um fim de semana para passar com sua família, durante o casamento de sua irmã, Rachel. O casamento, porém, logo se transforma numa cerimônia de emoções à flor da pele, quando a chegada de Kym traz a tona sentimentos enterrados.

A pura simplicidade que rege “O Casamento de Rachel” poderia muito bem se tornar um elemento de “convenção” e “tradicionalismo” e, tendo como base a filmografia eclética de seu diretor, Jonathan Demme (Sob o Domínio do Mal), não faria muito sentido. Demme, que já dirigiu os excepcionais (e antagônicos) “O Silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia”, nunca se deixou levar pelo lugar comum. E é por isso que o que fez em “O Casamento de Rachel” não deva ser mal interpretado. Partindo de um roteiro delicado e diversamente brilhante de Jenny Lumet (filha do diretor Sidney Lumet – em seu primeiro trabalho), Demme opta por fazer um filme sem artifícios cinematográficos afiados ou ousadia narrativa. Sabendo que o os personagens dos quais tem em mão são densos, intricados e intensos, ele filma de uma forma intimista, simples e quase documental, capturando o casamento como se fosse uma filmagem caseira de uma ocorrência de nossa própria família. Uma sábia escolha, tendo em vista que o resultado final é um drama belo, tocante e com o qual – graças a Demme – pode ocorrer uma clara identificação por parte da audiência.

O filme começa com a saída de Kym da reabilitação e a câmera (e o espectador) vai a seguindo enquanto passa pelo fim de semana do casamento da irmã, nos envolvendo nas intimidades que começam a surgir entre os membros da família. Vem a tona, por isso, alguns elementos já batidos neste típo de filme em que certo personagem volta para casa enfrentar seus esqueletos no armário. A diferença aqui é que nada soa falso. Genuinamente dirigido e escrito com uma sensibilidade chave, a fluidez do filme é algo incrível e quando menos se percebe você estão tão imerso no filme quanto nos próprios personagens. Culpa de diálogos críveis, emoções cruas e, obviamente, um elenco essencial. E aqui, todos possuem alguma ressonância e trazem algo particular a seus respectivos personagens.

O maior deleite seja, talvez, Anne Hathaway (Amor e Inocência) que, desde “O Diabo Veste Prada” vem demonstrando ser boa atriz. Aqui, porém, ela nos surpreende ao mostrar que é uma extraordinária atriz. E sem exageros. A performance de Hathaway é simplesmente formidável. Na forma como conduz suas emoções descarrilhadas, vence a simpatia da audiência mesmo diante de um caráter falho, e quase nos traz à lagrimas em cenas em que surge completamente submersa nos sentimento à flor da pele de Kym. A representação simbólica de sua personagem; deslocada, trágica e traumatizada, acaba tocando afundo e Demme não hesita em extrair de Hathaway o máximo possível. E o mesmo se aplica ao resto. Temos um tour de force excepcional de Bill Irwin (Across the Universe), uma magnífica Rosemarie DeWitt (A Luta Pela Esperança) e uma Debra Winger (Um Funeral Muito Louco) em participação muito especial. Talentos que constroem aqui personagens realistas e maduros, ancorados ao nossos mais íntimos dia a dias. Por isso, suas particularidades ecoam e transformam “O Casamento de Rachel” em não só um panorama de culturas (pois é o casamento mais ricamente cultuado e detalhado que já testemunhei – e realmente sentimos como se fossemos testemunhas), mas num panorama de relações humanas mais íntimas. E isso torna tudo muito belo.

Não teve imagem mais singela e bela neste ano do que aquela em que traz quatro dos personagens confortavelmente entrelaçados. E a simples pureza da cena já seria incrível, mas o sentimento incrível de ternura que transmite é algo reservado aos patamares dos grandes filmes sobre seres humanos. Pois “O Casamento de Rachel” não hesita em momento algum ao escancarar seus personagens, defeitos e tudo, em debates calorosos. Feridas abertas e ardentes que transformam a sessão num drama particular dos mais densos. A força do filme é única. Seus personagens são geniais e tudo é construído com muita desenvoltura. É uma prova da virtuosidade da pura simplicidade e um atestado à sensibilidade de Jonathan Demme, que nos fez chorar com “Filadélfia”. Mas mais que isso, “O Casamento de Rachel” sempre sobreviverá como o filme que escancarou a preciosidade de Anne Hathaway. Só espero que ele seja lembrado – também – por sua imensa beleza. [8.5]

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Rachel Getting Married (2008)
Direção:
Jonathan Demme
Roteiro: Jenny Lumet
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Debra Winger, Mather Zickel, Anisa George, Anna Deavere Smith, Tunde Adebimpe
(Drama, 113 minutos)


Responses

  1. Como é habitual, ando quase sempre atrasado em relação às novidades, mas este é um filme que espero não deixar escapar em breve. Bela crónica, Wally.

    Abraço.

  2. Um retorno à forma de Demme (e Winger!), num apurado estudo de personagens? A conferir, sem dúvida. Pena que não chegou na cidadezinha.

    Cumps.

  3. O que me conquistou em “O Casamento de Rachel” é simplicidade do roteiro em contar um tema tão delicado. E o elenco está ótimo, com destaque para a surpreendente atuação de Anne Hathaway. ;)

    • Red Dust, obrigado, e tente vê-lo sim.

      Gustavo, veja sim! Deve chegar em breve em DVD.

      Mayara, disse tudo! ;)

  4. Anne está tão fabulosa que … Mesmo sendo um drama sobre questões familiares pendentes, a parte técnica e as atuações contribuem para diferenciá-lo no largo grupo de filmes sobre famílias disfuncionais.

  5. A cada novo texto que eu leio sobre “O Casamento de Rachel”, aumenta a minha vontade de conferir o filme! Parabéns pela bela crítica, Wally!! :-)

    • Cleber, é exatamente isso mesmo!

      Kamila, e é mesmo um recomendado filme, obrigado!

  6. Bom filme, acho que a Anne poderia ter ganho o Oscar (depois da Jolie, claro) no lugar da Kate Winslet, que levou o prêmio pela carreira.

  7. Vi o filme em duas ocasiões – da primeira, achei médio, e da segunda, encontrei atributos que me tinham passado despercebidos. Demme tem um conceito muito claro daquilo que está fazendo e o elenco é formidável!

    • Pedro, acho quem merecia ter levado é a Kate Winslet mesmo, mas ela levou pelo filme errado, tinha que ter sido por “Foi Apenas um Sonho”.

      Louis, que bom que acabou gostando dele! Eu adorei e o elenco é mesmo formidável.

  8. […] Jake Gyllenhaal (O Suspeito) e Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) irão contracenar novamente em Love and Other Drugs (ou ‘Amor e Outros Drogas’), filme […]

  9. […] Gyllenhaal (O Suspeito) e Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) irão contracenar novamente em Love and Other Drugs (ou ‘Amor e Outros Drogas’), filme […]


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