Publicado por: Wally | Segunda-feira, Maio 4, 2009

Dúvida

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Em 1964, numa escola católica rígida e padronizada, uma freira chamada Aloysius Beauvier desconfia de um padre depois de ser oferecida provas intrigantes de uma outra freira, acerca de um relacionamento entre ele e um jovem negro, o acusando de abuso sexual. Ao negar a acusação, o padre Brendan Flynn e as duas freiras mergulham num intenso debate acerca do controverso suposto ocorrido.

Baseado em uma peça vencedora do prêmio Pulitzer em 2005, “Dúvida” possui todos os atributos virtuosos que poderiam reger numa clássica peça. Ambiente habilmente construído, diálogos afiados, personagens intrigantes e atuações poderosas. E, em teoria, o filme não se distancia muito de uma “peça filmada”, com poucas ou nenhuma ousadia na filmagem de John Patrick Shanley (o autor da peça – e do roteiro – cujo primeiro filme na cadeira de diretor, “Joe Contra o Vulcão”, foi lançado em 1990). Esteticamente “Dúvida” não deixa a desejar, com hábeis figurinos, direção de arte competente e uma fotografia excelente. Mas, aparte de uma montagem essencial, pouco pode ser dito quanto à direção, que conduz corretamente mas não faz total jus ao material fervendo que tem em mãos. Salvo algumas ótimas cenas subjetivas, o espetáculo de “Dúvida” é encarregado ao roteiro e ao elenco. E tais elementos o elevam à uma potência quase assustadora.

Assustadora porque – sem enrolações – o roteiro do filme é extraordinário, em todos os sentidos possíveis. E, em união angelical com os atores impressionantes em cena, o trabalho se equaciona num produto dos mais fascinantes e interessantes. Abrindo com uma imagem puramente metafórica e maravilhosa por sua afiada simplicidade, “Dúvida” é, de início ao fim, intrigante. Mas se ele começa com tal simplicidade, o mesmo não se pode ser dito por seu desfecho, que termina com uma nota perturbadora e inquietante. Uma nota tão ousada que apenas eleva o texto à um patamar mais invejável, ao tratar do tema – e dos personagens – com uma brilhante complexidade quase nunca testemunhada em filmes. As nuances aqui construídas, e trabalhadas com meticulosidade extrema, enriquecem a experiência exponencialmente ao mergulhar a audiência num mundo cruelmente cínico, real e cru. Impressões irrefutáveis depois de diálogos após diálogos de pura genialidade. Tanto em construção, quanto em efeito. E testemunhar tais diálogos serem entregues por profissionais tão dignos torna tudo tão mais emocionante.

E é difícil um filme de mais ou menos 100 minutos completamente carregado em diálogos conseguir ser emocionante. Mas “Dúvida” consegue por nunca abandonar a relevância, nunca se levar por caminhos fáceis e estar constantemente desafiando não apenas seus personagens, mas a audiência, que se torna uma espécie de júri diante dos debates, acusações, acolhimento de provas e arrombamento de emoções. Apesar de sua qualidade nada duvidosa, “Dúvida” se compõe de exatamente aquilo que seu título sugere. E ele te manda para fora da sessão completamente atordoado. Shanley meche com sua cabeça de tal forma que você quer constantemente voltar para ter certeza de detalhes e impressões. E o melhor é que o roteirista nunca toma uma estrada fácil, está sempre provocando e, numa escolha acertada, deixa para a audiência tirar suas conclusões finais, como se apenas apresentasse um caso e deixasse para nós o julgamento . Tal elemento corajoso é valioso no atual patamar, principalmente quando se vem acompanhado de riqueza subjetiva e emocional tão forte. Shanley dirige com firmeza, mesmo que nunca faça nada além do que deveria, e isso entrega à seu texto uma seriedade e relevância ainda mais poderosa. E as emoções que coloca em jogo ao desenrolar da narrativa transformam a experiência em uma gloriosamente e artisticamente provocadora.

Dentro de tanta virtuosidade, é inevitável ser carregado pelo poder das atuações e, além de uma Meryl Streep (O Suspeito) novamente incrível, encarando seu papel com especial densidade e presença intensa, cheia de detalhes e tons, ainda podemos nos deliciar pelo igualmente incrível Philip Seymour Hoffman (A Família Savage), cujo padre intriga por tamanha complexidade e vulnerabilidade emocional. As coadjuvantes Amy Adams (Jogos do Poder) – magnificamente forte – e Viola Davis (Noites de Tormenta) – que faz de 10 minutos momentos de tirar o fôlego – enriquecem tudo um pouco mais. O talento aqui transborda, e o que inibe “Dúvida” de ser uma obra “maior” seja mesmo a abordagem convencional de seu diretor, que se conforma com quadros metafóricos, posicionamentos óbvios e um testemunho visual curto e grosso de um debate que poderia ter sido emocionalmente explosivo. Mas “Dúvida” se contenta. Ao menos até seu minuto final, quando surpreende a todos com uma intensidade emocional – e psicológica – reflexiva e talvez ousada até demais. “Dúvida” é, acima de tudo, cinema obrigatório. Denso, reflexivo e anormalmente bem escrito. Todo o efeito irá pairar como uma nuvem sob sua cabeça por um bom tempo. E não há certeza tão forte quanto a dúvida que o texto te deixa. [8.5]

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Doubt (2008)
Direção:
John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley (baseado em sua peça)
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Joseph Foster, Paulie Litt, Alice Drummond, Audrie J. Neenan
(Drama, 104 minutos)


Responses

  1. eh… um excelente filme mesmo.

    se não fosse pelo Seymour Hoffman e pela Streep talvez o resultado não tivesse sido o mesmo.

    eu achei o filme parecido com os livros do machado de assis e isso eh um belo elogio!

    abraços

  2. Gosto muito do filme, mas o resultado positivo é obtido graças a um ou outro detalhe em particular do que pelo conjunto em si. Nesse sentido, o destaque é todo do elenco, e a vaia vai para a direção acadêmica.

  3. Esperava muito, muito mais, da reunião de um elenco destes com um texto tão conceituado. Para mim, o filme é das duas coadjuvantes, Amy e Viola – e Meryl errou no tom, em uma das raras vezes em que se equivoca.

    Abraço!

  4. Gostei bastante de “Dúvida”, por mostrar que todos nós temos qualquer tipo de dúvida, seja ele religioso ou não. E o destaque do filme funcionar foi o bem escrito roteiro e as atuações do elenco. ;)

  5. Ainda não vi, Wally. Não veio para os cinemas daqui… Estou bastante curioso para ver, principalmente, as atuações recordistas de indicações no Oscar! Streep, nunca decepciona… Abraço!

    P.S.:Tem desafio para cinéfilos lá no blog ;-)

    • Shaun. Hoffman e Streep entregam uma nova força ao filme, é verdade. Mas para mim o roteiro é o melhor elemento do filme.

      Vinícius, concordo quando à direção. Mas o elenco não é o único motriz, o roteiro é sensacional.

      Louis, não tenho o que reclamar de ninguém do elenco, e muito menos Streep, que ta maravilhosa (e nada fora de tom, a meu ver). Mas Adams e Davis realmente detonam com suas performances.

      Mayara, o filme toca muito nessa questão religiosa mesmo, entre outros elementos. E o destaque é mesmo roteiro e elenco.

      Rafael, assim que puder veja logo. É um filmaço!

  6. Lidando com a sutileza dos julgamentos humanos, esta história deixa com os espectadores a questão da culpa ou da absolvição. 8,0

  7. Acho que você definiu bem o filme quando o chamou de “intrigante”. Achei excelente e não teria vergonha de dar 5 estrelas, mesmo com toda a pobreza da direção. Nem vou falar do elenco, que dispensa comentários.

    Abração!

  8. Wally, como tu sabes, eu ADORO “Dúvida”. Além de o meu puxa-saquismo básico por Streep, reconheço que o filme é cheio de méritos. O roteiro, pra mim, é o melhor do ano até agora – extremamente instigante e bem escrito. Os atores, claro, não estão menos que excepcionais!

    • Cleber, é bem isso mesmo!

      Alexsandro, o filme é realmente muito intrigante. E quase dei as 5 estrelas. A direção que comprometeu mesmo…

      Matheus, sei como adora tanto “Dúvida”, quanto Streep, e justificadamente. Realmente é bem capaz de ser o melhor roteiro do ano.

  9. É, Wally… O filme não funcionou comigo. Os atores são monstruosos, mas achei muito teatral pra pouco cinema.

    Abs!

    • Otavio, para mim isso apenas o inibiu de se tornar uma obra-prima pois, tirando esta grande falha, o resto é extraordinário.

  10. Eu já acho que o Shanley não precisava fazer muitas coisas. O poder do filme tá realmente no texto, o que é apresentado com muita clareza e potência por ele e pelos atores – provavelmente o melhor elenco do ano, né? E acredito que o diretor já foi feliz em conseguir trazer a tona toda o clima de intriga, de dúvida e tudo o mais. Um dos meus filmes preferidos do ano até agora.

    []s!

    • Jeff, e é exatamente por isso que respeito a direção de Shanley. Mas não tem como negar que poderia ter sido menos “teatral” sua visão.

  11. Um bom filme, mas vale muito pelas fortes interpretações de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman. Ao argumento falta-lhe o ar da objectividade.

    Abraço.

    • Red Dust, falta lhe objectividade propositalmente. Afinal, o filme é entitulado “Dúvida” também porque manda o espectador para fora da sala duvidoso. O argumento é apresentado dubiosamente, tendo em vista os dois lados da moeda. E o resto é deixado para o espectador. Adorei o roteiro e o elenco.

  12. Não acho que a direção de “Dúvida” comprometa em momento algum o resultado do filme em si. John Patrick Shanely, inclusive, tem uma direção bem firme e comete poucos erros. Teatral? Talvez. Mas filmes maravilhosos (e diretores maravilhosos) como Sam Mendes e “Beleza Americana”, Mike Nichols e “A Primeira Noite de Um Homem” e “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” fizeram destes, teatros por excelência. E todos são extraordinários. Elenco e roteiro de “Dúvida” são espetaculares.
    Nota: 9,0 (*****)
    Abraço!

    • Weiner, não acho que Shanley comprometa. O filme nunca deixa de ser brilhante pela teatralidade. Mas é fato que falta-lhe ousadia com a câmera em mãos. Mesmo assim, todo o resto é muito brilhante. O roteiro (e o elenco) são simplesmente extraordinários.

  13. […] do Oscar, esta semana trouxe O Curioso Caso de Benjamin Button, vencedor de três estatuetas, e Dúvida, que foi indicado à cinco. Além das duas recomendações certas, tivemos ainda o ótimo O Menino […]


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