Publicado por: Wally | Sábado, Abril 25, 2009

O Lutador

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Randy ‘The Ram’ Robinson sempre viveu nos ringues. Lutador profissional arruinado, Randy se vê cada vez mais na obrigação de aposentar, mas encontra dificuldades ao ter que enfrentar uma vida pessoal tão desafiadora quanto sua profissão, lidando com seus sentimentos por uma stripper e seu relacionamento frágil com sua filha.

No seu 4º filme, o engenhoso (e eclético) Darren Aronofsky (Fonte da Vida) deixa para trás as complexidades de distúrbios psicológicos, vício em drogas e buscas existencialistas para falar sobre um tema mais simples (e verídico). Ainda que, dadas as suas proporções, a vida aqui retratada de Randy ‘The Ram’ Robinson guarda suas próprias complexidades e nuances particulares. A questão é que “O Lutador” é diferente de tudo que Aronofsky fez, e é fascinante ver o resultado de sua versatilidade aqui, quando se prova não só visionário, mas profundo, apaixonado e singular. Muito do que o filme é, e muito do que consegue, deve-se há habilidade brilhante de Aronofsky em unir o cru e o emocional em um pacote de sentimentos borbulhantes e verdades cortantes. É um trabalho tão honesto, puro e chocante nos sentimentos defasados que retrata que ele te nocauteia muito como o próprio protagonista constantemente é ao longo da sessão.

Roteirizado de forma madura e respeitosa por Robert D. Siegel (em seu roteiro de estréia), ele narra a história de Randy sem julgamentos ou colocações, mostrando à audiência de uma forma muito bruta e crua quem é o homem e, de forma sutil e profunda, o que se esconde por trás de seus ferimentos. Alias, é curioso a conexão estabelecida entre os ringues nos quais Randy precisa lutar. Ao passo que toma chutes, socos, cortes e porretes no ringue profissional e sai ileso, ele se vê constantemente arrasado pela luta no ringue de sua própria vida pessoal, levando ponta-pés de mais de um adversário durante sua trajetória. Sua luta em permanecer vivo não só diante de outros mas para si mesmo é tocante e sua fragilidade emocional diante de seu passado vulnerável o traz uma humanidade esplêndida. A figura dele surge então como um personagem construído de forma meticulosa e honesta, e automaticamente nos tornamos ligados à esse brutamonte. Principalmente quando Mickey Rourke (Alex Rider Contra o Tempo) demonstra uma capacidade intensa em dialogar com a audiência por meio dos olhos fundos de Randy, que escondem tanta angústia e dor que quase trazem lágrimas ao seu.

Rourke surge então como o talento mais fascinante do filme. Em parte, pela veracidade que adiciona à história de um personagem, cujas semelhanças com a sua própria vida podem até assustar. Em síntese, “O Lutador” é sobre a volta por cima de um homem que havia atingido o fundo do poço e conseguiu retomar seu posto com um digno esforço de bravura. E em síntese, é mais ou menos isso que ocorreu com Mickey Rourke que, de ícone nos anos 80, desceu numa fervilhante estrada de drogas e auto-destruição, o afastando de família, amigos e do próprio cinema. Aronofsky viu nele, ainda um homem acabado, o próprio Randy Robinson, e insistiu tanto que Rourke aceitou o trabalho, que por si só já simboliza sua própria virada por cima como um ator digno e talentoso. Rourke realiza uma performance de corpo e alma em “O Lutador”, indo à limites corporais e emocionais para mostrar ao mundo que existe, sim, e que está voltando com toda a glória que merece. Então “O Lutador” pode ser uma biografia do lutador profissional Randy ‘The Ram’ Robinson, mas é também um filme em parte, sob certo olhar, sobre Mickey Rourke.

A virtuosidade de “O Lutador” é então muito grande. Filmado por Aronofsky e pela fotógrafa Maryse Alberti com muita crueza e realismo, é concretizado como um estilo semi-documental essencial e importante para o sentimento de honestidade que o filme quer enviar. A trilha de Clint Mansell (que é sempre muito memorável) se contém bastante, mas esconde brilhos repentinos em diversos momentos. Mas o brilho musical do filme fica mesmo com Bruce Springsteen, que colabora para o filme com a belíssima canção-título. Ainda é impensável não lembrar sobre os desempenhos coadjuvantes majestosos de ambas Marisa Tomei (Guerra S.A. – Faturando Alto) e Evan Rachel Wood (Sem Medo de Morrer), que demonstram grande emoção e profundidade para caracterizações muito reais. São, em suma, uma união de fatores importantes e virtuosos que fazem de “O Lutador” o que é: cinema puro, apaixonado e realmente muito forte. Você o termina arrasado, contente, sorridente e mudado, de certa forma, pela experiência cortante de Randy. É um filme que comove, em muitos sentido, e se finaliza de forma tão pura e singela que é impossível não comemorá-lo.

Nota: 9.0

The Wrestler (2008)
Direção:
Darren Aronofsky
Roteiro: Robert D. Seigel
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry, Wass Stevens, Judah Friedlander, Ernest Miller
(Drama, 111 minutos)


Responses

  1. Um arraso, esse filme! Há tempos não via uma produção americana com essa força, essa intensidade e esse escopo – e olha que a história é a mesma que a gente já ouviu antes incontáveis vezes. Rourke beira o sublime e Tomei teria o meu voto para o Oscar de Atriz Coadjuvante. Abraço!

  2. Fantástico… A obra prima do ano, até agora, que não foi reconhecido infelizmente. Rourke é destaque, sem dúvida!

  3. Um filme excelente, não há dúvidas – com destaque para o ótimo Rourke (mas nem venham me falar que ele merecia o Oscar, porque eu torcia mesmo pro Sean). A direção do Arofnoski mostra-se mais uma vez esplêndida, e as lindíssimas e talentosas Evan Rachel Wood e Marisa Tomei completam o painel.
    Nota: 8,5 (****)
    Abraço!

  4. RAM, RAM, RAM, RAM, RAM!
    Bati palmas quando vi em casa e quando vi no cinema. 5 estrelas sem medo de ser feliz!

  5. ‘O Lutador’ é a ótima jornada de um homem que não pode ser nada além do que é, porém …

  6. Wally, eu gostei. Mas depois, reanalizando, achie melhor ainda… é um filme bem interessante e que não precisa de milhões e milhões para ser bem feito, ele prova isso, junto com Slumdog.

  7. Gostei menos que a maioria, mas ainda assim acho que é um filme cheio de méritos!

  8. Ao lado de “Dúvida”, esse é um filme que, a cada novo texto que leio, fico com MUITA raiva por ainda não ter estreado por aqui…

  9. Wally, esse perdi no cinema, mas estou louca para ver Mickey Rourke neste filme e parece também ter um ótimo roteiro. ;)

  10. Filmaço colossal. Não me arrependo em nada de ter visto duas vezes no cinema. Aronofsky coordena tudo com perfeição!

  11. […] Melhor Canção de Filme "Decode" de Paramore (Crepúsculo) "Jai Ho" de A.R. Rahman (Quem Quer Ser um Milionário?)* "The Climb" de Miley Cyrus (Hannah Montanna – O Filme) "The Wrestler" de Bruce Springsteen (O Lutador) […]

  12. […] Whiplash, vilão de Homem de Ferro 2. O oponente de Tony Stark será encarnado por Mickey Rourke (O Lutador). O filme estréia dia 7 de Maio de 2010. Clique na imagem ao lado para […]


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