Publicado por: Wally | Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Foi Apenas um Sonho

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Quando Frank e April se mudaram para uma bela casa no subúrbio de Connecticut, durante os anos 50, não esperavam que teriam que enfrentar – futuramente – tantas angústias, ao lidarem com uma derrocada de problemas pessoais e angústias em seu relacionamento. O casal então se esforça para criar seus dois filhos e manter intacto o casamento.

No seu retrato sobre a vida suburbana dos anos 90, o eclético e observador Sam Mendes (Soldado Anônimo) mostrou que, por trás das mais belas flores, existem espinhas e mofo. Agora, Mendes oscila seu olhar crítico para os anos 50 e retrata não só a hipocrisia e a decadência do sonho americano, mas a amargura ao mostrar a queda de duas pessoas que acreditavam tão fortemente neste sonho, se tornando prisioneiros dessa ilusão. Aqui, Mendes abandona o bom humor que marcou seu filme de estréia, o extraordinário “Beleza Americana“, cercado de sarcasmo, humor negro e, claro, um drama intenso e belíssimo. Em “Foi Apenas um Sonho”, o que ele abandona no humor ele resgata no cinismo, ao nos jogar sem dó no turbilhão de decepções, angústias e pesares da família Wheeler. O filme inicia-se com o aflorescer da paixão e o começo do sonho, apenas para depois nos jogar repentinamente para o futuro, em meio à um clima de tensão entre o casal que resulta numa discussão das mais nervosas e intensas, nos mostrando exatamente o que está por vir. Aqui, é bem válido ressaltar a qualidade da edição, muito eloquente. Aos poucos, vamos nos envolvendo no mundo deste casal e, mais importante, vamos formando uma espécie de elo, ao presenciarmos como eles caíram de amores não só um pelo outro, mas pelo que o tão famoso sonho americano tinha para lhes oferecer.

À parte das discussões fervorosas, o filme é um tanto silencioso, simples em seu formato e, em sua virtude, repleto de belíssimas nuances. Mendes trabalha estilo e visual com muita elegância. A fotografia rica de Roger Deakins (O Leitor) explora os tons mórbidos da rotina do casal e a constante mesmice desta, enquanto Thomas Newman (Wall•E) corajosamente compõe uma trilha não de ritmos catárticos, mas de uma significância cruel para com os sentimentos dos personagens, que oscilam entre a frustração, a ilusão e, mais constantemente, a desilusão. Ao lado de tais atributos, ainda temos uma direção de arte sofisticada e um figurino exemplar tanto nos próprios modelos como também na própria significância que adquirem. Tecnicamente, portanto, é um trabalho dos mais competentes. E o clima construído por Mendes e companhia é essêncial ao transmitir todo um sentimento e uma particularidade. Uma atmosfera das mais sufocantes pela esmagadora constatação da realidade transmitida. Certos enquadramentos revelam uma beleza digna e uma articulação cinematográfica afiada.

No elenco, porém, é onde encontramos o motriz do projeto. Leonardo DiCaprio (Rede de Mentiras) e Kate Winslet (O Leitor) mais uma vez constroem uma química estupenda, ao compor um casal de muita intensidade. Enquanto DiCaprio surpreende por sua dedicação, e em vezes é arrepiante testemunhar sua entrega ao papel, se transformando em um ser completamente vulnerável e de emoções cortantes, Winslet denota novamente seu poder irrefutável como uma atriz soberba. Seus olhares são extraordinários e toda sua construção impressiona pela fascinação almejada, adicionando nuances a mais na já rica personagem. Em cenas, é difícil não começar a aplaudi-la de pé. Apesar de comandarem o filme, o casal não é o único deleite do elenco. Além de uma contida mas eficiente Kathy Bates (P.S. Eu Te Amo), nos deliciamos com o desempenho fortíssimo de Michael Shannon (Bem-vindo ao Jogo), cujos poucos minutos em tela (em duas grandes cenas), trazem a tona todo um clima novo ao filme, uma percepção mais cortante e uma força de condução incontestável. O seu “louco” personagem é uma ácida inclusão ao roteiro, cujos diálogos soberbos quebram qualquer incitação hipócrita e esmagam sentimentos vulneráveis. É arrasador.

Virtudes, portanto, não faltam ao filme. Ele é, porém, demasiadamente triste. Em certas cenas contundentes (as únicas), nos empolgamos com as esperanças e os planos dos Wheeler, ao fazerem planos de uma virada em suas vidas que comforta mas não deixa de disfarçar que existe incerteza por trás. Mas nós sorrimos com o casal e tais momentos de leveza e sorrisos são utéis ao quebrar o clima pesado. Mas no fundo mesmo imaginamos como tudo terminará – mas nem por isso deixamos de sermos surpreendiso pelos minutos finais do filme, que fogem completamente ao convencional e não poupa ninguém, nos deixando profundamente marcados com suas implicações retumbantes. Nós sofremos, ao lado dos personagens, ao nos vermos angustiados pela transformação dos eventos e o caminho tristemente pavimentado para a família. O filme de Mendes é, por isso, um olhar cortante. Ele olha bem de perto para sentimentos e particularidades, e o resultados é dos mais devastadores. Ainda com um discurso arrebatador sobre verdades e mentiras, o peso e as consequências, o filme te manda para fora atordoado e sem esperanças. Neste mundo, nenhum personagem é redimido e ninguém sai ileso ao sufoco da geração. A tristeza torna-se uma infestação. E, talvez por isso, o filme fique a tanto tempo ecoando em sua mente. A cena final é quase uma constatação desse nosso equívoco como seres humanos de nos adequarmos a viver na mentira, sejam quais forem as circunstâncias, ou as consequências.

Nota: 8.5

Revolutionary Road (2008)
Direção:
Sam Mendes
Roteiro: Justin Haythe, baseado em romance de Richard Yates
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Kathy Bates, Richard Easton, David Harbour, Kathryn Hahn, Zoe Kazan
(Drama, 119 minutos)


Responses

  1. Opa, estou passando rapidinho só para lembrar que o prazo de envio das apostas para a segunda fase do 1º Bolão do Talking About Movies está chegando ao fim. As apostas para serão fechadas as 24h do dia 21 (proximo sábado). Não deixe de participar.
    Contamos com suas apostas!
    Abraço.

  2. Filmaço, mais uma obra-prima de Sam Mendes, nada comparado a “Beleza Americana”, mais ainda assim seguindo o mesmo ritmo … visualmente belo, e um elenco EXCEPCIONAL .

    Abraço!

  3. Wally, sua crítica foi a única que li até agora bem positiva do filme, quem sabe vejo. Apesar de adorar “Beleza Americana” o meu favorito de Sam Mendes é “Estrada para Perdição”. ;)

  4. Wally, eu sempre tive a impressão de que este seria um filme tristíssimo. Ainda não tive a oportunidade de conferir “Foi Apenas um Sonho”, mas imagino que seja aquele tipo de obra que oferece aos envolvidos no projeto uma chance de mostrar todo o seu valor. E, a julgar pelo seu texto, eles aproveitaram muito bem a oportunidade que tiveram.

    Bom final de semana!

  5. Concordo com o demasiadamente triste. :) Abraços Wally

  6. Você já sabe minhas impressões a respeito do longa, ou seja, que é apenas um trabalho comum do Sam Mendes, talvez seu trabalho mais apagado até o momento e que ganha maior destaque apenas pelo elenco – em especial a Kate Winslet num grande momento. A última cena em particular também me emocionou, mas é muito pouco para apagar a sensação de que faltou algo em “Foi Apenas um Sonho”.

  7. Infelizmente foi um filme que me decepcionou. Acho que o erro foi o filme ter sido realizado de maneira muito convencional. O formato necessita de mais força nas emoções, e isso não vemos aqui. O filme se apóia todo no elenco. Destaco Winslet, em um momento marcante.

  8. Wally, apesar da ótima cena final, acho que o filme poderia ter terminado na cena em que o DiCaprio sai correndo pela rua… Mas é um bom filme! E Kate Winslet merecia mais o Oscar por esse do que por O LEITOR.

    Abs!

  9. Wally, adorei o texto, vc soube expressar a ideia do filme muito bem, sem entregar a historia. Kate esta realmente espetacular, como nao vi “The Reader”, acharia melhor se ela tivesse sido indicada por este filme no lugar. E nossa, a historia eh realmente muito triste.. Mas realista, considerando a epoca e a situacao vivida. Adorei o cinismo q permeia o filme, achei genial.

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  11. […] ainda acerta muito na composição da personagem jovem vivida de forma digna por Ryan Simpkins (Foi Apenas um Sonho). Ao abandonar o clichê e compor a personagem de forma mais forte, ela à constrói como uma densa […]

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  13. […] Já Jennifer Connelly (Traídos pelo Destino) está bem no papel, como também Kathy Bates (Foi Apenas um Sonho). Mas Jaden Smith (À Procura da Felicidade) irrita e John Cleese (Shrek Terceiro) não […]

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