Publicado por: Wally | Quinta-feira, Fevereiro 5, 2009

Sim Senhor

star1star1star1

Divorciado e amargo com sua situação atual, Carl Allen se adequou ao seu trabalho tedioso – cuja tarefa é dizer “não” a pedidos de empréstimo – e à vida de solitário, fugindo até dos amigos. Mas quando um velho amigo o aparece com uma chance, Carl decide ousar e encontra, num especial de auto-ajuda, que a resposta para seus problemas pode surgir quando começar a aceitar a vida, fazendo uma promessa de que dirá “sim” à qualquer oportunidade que surgir em tua vida.

Partindo de uma idéia divertida e um tanto singular, “Sim Senhor” tem o que muitas das  comédias do Jim Carrey (Horton e o Mundo dos Quem!) tiveram para oferecer: ao submeter o personagem em situações cômicas diante de uma premissa absurda, constrói uma trama que o levará à auto-descoberta e para uma habitual lição de moralidade ao fim. Em outras palavras, se a idéia é de certa forma refrescante, é também apenas uma porta para um caminho já conhecido e incansávelmente percorrido. Mas existe uma explicação bem fundamentada para a existência contínua desta porta e o fato de nos vermos sempre caminhando pela estrada que parte dela: a jornada é – acima de todos os tropeços – boa. “Sim Senhor” é sim muito formuláico, mas têm, em seus cem minutos, humor o suficiente para divertir, entreter e te mandar para fora completamente satisfeito.

Então, prepara-se para ter, ao fim, aquela “descoberta”, a lição básica e um personagem em epifania, como ocorreu também com os igualmente divertidos “Todo Poderoso”, “O Mentiroso” e “Eu, Eu Mesmo e Irene”. Até esse momento inevitável (mas bem contestável) chegar, podemos tirar o melhor que o filme têm a oferecer e, dirigido com espirituosidade por Peyton Reed (Separados pelo Casamento), “Sim Senhor” ganha diversos momentos que, ainda que quase nunca autênticos, conferem certo clima genuíno para o tom cômico e satisfaz a audiência com situações em sua maioria bastante criativas e divertidas. A proeza de tal efeito é, obviamente, lançada aos ares pelo especial talento e timing cômico essêncial de Jim Carrey que, bem eclético e tentando sempre se descobrir em outros gêneros, não esquece que é, antes de tudo, um comediante de alto escalão. Então, ainda que seja óbvia sua excelência dramática como a demonstrada com muita preciosidade no magnífico “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, faz bem ao saber que Carrey não esquece das raízes. Afinal, “Sim Senhor” não seria metade do que é sem Carrey por trás das acrobacias cômicas.

Carrey carrega a maior parte com caras e bocas que são sua especialidade. É um artifício que pode cansar, mas Carrey pode exagerar no momento mas nunca na extensão. Alias, ele constrói aqui um sujeito bastante simpático e, apesar das inconsistências óbvias e exageros catárticos que o roteito o submete, uma figura bem real. Portanto, é interessante quando seu personagem finalmente decide questionar os ideais que vinha seguindo, num momento que é uma crítica à qualquer meio manipulativo de “auto-ajuda” ao concretizar o meio como uma verdade não inteiramente absoluta. Afinal, o “sim!” pode o libertar, mas sem a razão a perca do controle é inevitável. O que muitos dos seguidores de obras como “O Segredo” esquecem é justamente isso: da razão. Então, apesar deste momento caracterizar o fim da maior parte das risadas e o início da previsibilidade mórbida, marca ao menos pontos pela sua significância.

Mas o que mantém “Sim Senhor” sempre ágil, leve e solto é sua energia. O roteiro não apresenta qualquer consistência, e é muito irreal e implausível na maior parte das vezes, mas o exagero está a favor da comédia e o diretor sabe inserir um dinamismo que, apesar de nem sempre funcionar, quebra em momentos o formato convencional adquirido pela obra. As situações, porém, são sempre muito divertidas, as piadas difícilmente decepcionam e Carrey nunca deixa de implantar um sorriso em nossos rostos, nem mesmo quanto a insossa Zooey Deschanel (Fim dos Tempos) está lá para tirar. Alias, se Chanel é chique, sofisticado e valioso, Deschanel é exatamente o oposto, como bem sugere seu nome. O resto do elenco coadjuvante não encontra destaques, a não ser por um inspirado Rhys Darby, mas cujo papel é bem limitado. Enfim, “Sim Senhor” pode ter suas muitas falhas, seu exagero gritante e sua previsibilidade, mas é incontestávelmente divertido. Faz rir. E uma comédia que atinge tal efeito está cada vez mais rara.

Nota: 7.0

Yes Man (2008)
Direção:
Peyton Reed
Roteiro: Nicholas Stoller, Jarrad Paul, Andrew Mogel, baseado em livro de Danny Wallace
Elenco: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Bradley Cooper, John Michael Higgins, Rhys Darby, Danny Masterson, Fionnula Flanagan, Terence Stamp
(Comédia, 104 minutos)


Responses

  1. As caras e bocas do Carrey as vezes enjoam, mas parece que funcionou nesse.
    De qualquer forma estou mais curioso pelo outro filme dele.

  2. Eu sou do tipo de pessoa que ainda credita no Jim Carrey (acho que a única coisa realmente reprovável que ele fez foi “Número 23”). Os outros filmes, incluindo os clássicos trash como “Ace Ventura”, me divertem de maneira inacreditável. Até em filmes dramáticos, como “Brilho Eterno”, “Mundo de Andy” e “Cine Majestic” ele acerta em cheio.
    Gostei da sua crítica (mesmo dizendo que o roteiro é inverossímil, a maioria dos filmes de comédia de Carrey são e eu não me importo). O como filme está em cartaz aqui, vou ver imediatamente. Espero que a insossa Zooey Deschanel (como você a adjetivou, e muito merecidamente) não estrague o filme.

  3. Wally, assim… eu ri umas três vezes no filme. Não achei lá o cúmulo da risada, rsrsrs. Acho o roteiro um tantinho pretensioso e Jim já não faz mais comédia como antes. Minha nota é bem mais baixa…

    Abs!

  4. “Sim Senhor” não é uma comédia muito original, fato, mas também dei risada em várias cenas e acho que o carisma do Jim Carrey segura o filme. Mas gostei da Deschanel aqui. Ela não está lá muito bem, mas também não compromete…

    Abraço!

  5. Wally, verei “Sim Senhor” nesta quarta-feira e estou com altas expectativas, por gostar de uma boa comédia. E é bom ver Jim Carrey voltando as raizes. Parece ser um ótimo filme para se acalmar de tantos filmes de Oscar! ;)

  6. Só mudando de assunto –
    Esqueceram do Ralph Fiennes ? – inacreditável esses caras da academia… Judeuses.

  7. Cara, sou fã do Carrey, mas prefiro mil vezes ele como ator dramático do que como comediante, ao menos se considerarmos essas suas comédias bobas e careteiras. Sinceramente, não tenho mais muita paciência para esses filmes dele. Todo Poderoso eu ainda vi, mas preferi passar longe desse Sim Senhor.
    Só espero que I Love You Phillip Morris seja diferente, pois estou com saudades de rir do Carrey, algo que não acontece desde Desventuras em Série.

  8. Fala, companheiro!!

    Vi esse Sim Senhor faz uns meses. Até que me surpreendeu. Não parte totalmente pro escracho e passa por diversão de qualidade. Mas tb não é mt memorável…

    Abraço! ;)

  9. Não vi, Wally! Eu adoro o Jim Carrey, mas vou deixar pra depois por causa dos filmes do Oscar.

    Abs!

  10. Eu concordo com muito do que você escreveu. Você resumiu “Sim, senhor” de forma perfeita no seu primeiro parágrafo. Apesar de formulaico e irreal, como você bem disse, o que eu mais gostei no filme, além do Jim Carrey, foi das situações, que se encaixam perfeitamente com aquilo que o longa quer mostra.

  11. Vi o filme, e admito que sou suspeito para comentar pelo fato de ser um grande fã do Jim Carrey. Achei a grande qualidade no fato de que, apesar de ainda usar as caretas e tropeções em demasia o filme ter um coração, e saber fazer cenas tocantes com isso. A parte em que ele salva o cara que ia se suicidar é engraçada, mas também tocante em certo ponto. Jim Carrey é o rei da comédia, e se ele souber unir também suas qualidades dramáticas, sempre teremos um filme bom para assistirmos.

  12. Ah, ia esquecendo, parabéns pelo blog! Também sou fã da sétima arte, e qualquer dia desses ainda crio um blog sobre cinema também! Tenho 17 e também desde pequeno faço dos filmes um dos meus passatempos preferidos.
    Parabéns!

  13. […] 2005) * Quatro Amigas e um Jeans Viajante 2 (Sanaa Hamri, 2008) ♦ Sim Senhor (Peyton Reed, 2008) ♦ Última Parada 174 (Bruno Barreto, […]

  14. […] para Meu Bebê) Anna Faris (A Casa das Coelinhas)* James Franco (Segurando as Pontas) Jim Carrey (Sim Senhor) Steve Carrell (Agente […]

  15. […] os atores, que não prejudicam em nada. Mas também, não possuem muito a oferecer. Bradley Cooper (Sim Senhor) é competente até certo ponto apenas, não convencendo na transição fora do gênero de […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: