Publicado por: Wally | Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

A Troca

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Quando Christine Collins saiu para uma emergência no trabalho certo dia, não esperava voltar para uma casa vazia. Mãe solteira, Collins reza e lamenta pelo desaparecimento de seu filho Walter, que aparece milagrosamente algum tempo depois, resgatado pela polícia. Mas o garoto não é Walter, como vendido pela polícia para a mídia com fins manipulativos e, obviamente ciente deste fato, Collins é reforçada a tomar ações da mesma forma que ações são tomadas contra seu risco para o departamente, que por sua vez está fervilhando de sujeira.

O novo filme do veterano Clint Eastwood (Cartas de Iwo Jima) – já uma espécie de profissional ao narrar contos do gênero policial – inicia-se com uma tomada em preto e branco descendo para as ruas de uma Los Angeles dos anos 20, finalmente ganhando cores assim que desembarcamos nelas. Curiosamente, termina da mesma forma, numa tomada em cores que ascende das ruas de Los Angeles dos anos 30, finalizando-se com um preto e branco estilístico abrindo lugar para os créditos. A escolha poderia muito bem ter se limitado a um fetiche casual do cineasta em questões estéticas, mas a mais pura verdade é que “A Troca” nada mais é que uma verdadeira submersão na tal ‘Cidade dos Anjos’, que nas palavras de um importante personagem, deu lugar para a violência injustificada e a corrupção generalizada. Além de possuir um contínuo e esperto desenvolvimento estético, incluindo uma reconstrução de época fiel e meticulosa, “A Troca” se destaca especialmente pela história que anseia contar. O filme de Eastwood encontra recalques, um formato convencional demais e pequenas neuroses já batidas do cineasta, mas o seu conto de uma mulher que ousou desafiar a sociedade é forte o bastante não apenas para envolver e entreter, mas para fascinar, dadas as circunstancias incríveis pelas quais Christine Collins teve que passar na sua busca pelo filho.

Parte dramalhão, parte suspense e parte policial – com direito à drama de tribunal – “A Troca” tem muito espaço a percorrer, visto a quantidade de detalhes cercando a longa história da batalha de Christine. Não é de se estranhar, portanto, sua excessiva duração. Esse equilibrio de tons, gêneros e piques dramáticos pode encontrar suas falhas, mas graças à uma edição competente e uma direção focada de Eastwood, a linha tênue que separa a coerência do equívoco nunca é cruzada, e o máximo de irregularidade que podemos tirar é aquela que provém justamente da obsessão pela convenção criada por Eastwood, que não ousa. Ainda assim, é incrível ver o que um diretor de seu calibre almeja dentre de suas próprias convenções, e o resultado não é nada menos que gratificante. Eastwood nos joga para o dramalhão vivido por Angelina Jolie (O Procurado) ao início – em performance muito boa – depois nos leva a desafiar as absurdas crueldades movidas contra ela e inesperadamente inícia uma história paralela muito bem articulada abastecida claramente pelas raízes do diretor vindas do gênero policial. A tensão em certos momentos é especialmente bem construída, e não tem como oscilar do clima pesado que acaba tomando conta de algumas cenas emocionalmente fortes. E nesse sentido, Eastwood não tem medo de brincar com nossas emoções. Ao evitar que tornemos meros espectadores, ele deposita um grande grau de sensibilidade e emoção na obra o suficiente para fazermos viver a experiência como a própria Christine, entre angústias, pesares e desespero. O resultado é excelente.

Não tem como negar, porém, que grande peso é depositado em cima da pessoa de Angelina Jolie. É uma virtude da mesma forma que é uma falha. Virtuoso pois, convenientemente, Jolie está muito bem no papel. Mas Eastwood deposita incansávelmente na atriz, e isto pode oferecer uma resistência. Ainda assim, Jolie articula muito bem seus sentimentos, exagera quando precisa e comove quando necessário. Ao seu lado, John Malkovich (A Lenda de Beowulf) é quem decepciona. É incrível sua articulação vocal, mas sua atuação nunca engata. O elenco completo e admirável ainda tem forças com Amy Ryan (Medo da Verdade), ótima, um inesperado Jeffrey Donovan (Encontros ao Acaso) e, finalmente, a surpreendentemente vil e excelente performance de Jason Butler Harner (O Vidente), personificando um assassino com imensa desenvoltura e talento. É em personagens como este, tomadas com a magistral que o segue à um destino tão vil quanto a si mesmo e nuances verdadeiramente fortes distribuídas ao longo da obra que realçam o verdadeiro valor de “A Troca”, que quebra das suas convenções e de mera pretensão “acadêmica” para se tornar um filme com uma certa fascinação palpável.

O conto então sobre a extraordinária revolta de uma mulher contra uma sociedade afundada na corrupção da polícia é algo não só para se assistir, mas para se vibrar. O filme de Eastwood encontra um pique dramático estável, ao nos carregar sofisticadamente por uma narrativa bem desenhada, intenções nobres e virtudes realmente incontestáveis. Sejam estas a bela fotografia, o arrumado figurino, a direção de arte expressiva ou a belíssima trilha sonora, são aspectos que ecoam e fluem com dignidade. A questão é que o cinema aqui realizado por Eastwood é falhado, mas é acima de tudo uma modesta e bem intencionada homenagem ao gênero movimentado daqueles anos passados dos quais retrata. A alma do filme permanece intacta, independente da falta de ousadia do diretor. Consegue, portanto, não só entreter, mas realmente submerger a audiência no mundo construído, não só de cenários e casos, mas de pessoas, emoções e nuances inimagináveis. Existe por isso, muito mais em “A Troca” do que os olhos vêem. Das cenas milimetricamente bem realizadas à momentos dramáticos de peso indiscutível, o filme se mantém obrigatório pelas questões que levanta acerca de moralidade, crime e peversão. Não é nenhum “Sobre Meninos e Lobos”, mas é uma obra que merece seu próprio reconhecimento.

Nota: 8.0

Changeling (2008)
Direção:
Clint Eastwood
Roteiro: J. Michael Straczynski
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Jeffrey Donovan, Colm Feore, Amy Ryan, Michael Kelly, Jason Butler Harner, Walter Collins, Devon Conti, Eddie Alderson
(Policial, 141 minutos)


Responses

  1. Pois é. Tenho que assistir a este filme urgentemente.
    =)

  2. Sabia que você iria gostar e jaá tinha comentado isso =) Precisa repetir minha opinião? Bem, vamos lá: achei um filme extremamente manipulativo, fraco em suas emoções, péssimo em suas performances (tirando a Jolie), se pudesse voltaria atrás e não veria. Abraço!

  3. Clint Eastwood é uma lenda viva e só produz obras-primas. Fato.

  4. Saí do cinema achando esse filme excelente. Dias depois, ja o chamava de uma quase obra-prima. Hoje ja penso se nao seria realmente uma obra-prima. Filme lindo, brilhante na composição, incrivel na transição de generos, melodramatico, assustador. O grande filme deste inicio de ano.

    E belo texto sobre ele, parabens!

  5. Esse ano, Clint não me agradou. Achei “A Troca” esplendoroso tecnicamente – principalmente no que se refere a direção de arte, figurino e fotografia – e também gostei da atuação da Angelina Jolie. Mas o longa é muito comprido e detalha em excesso cada acontecimento da jornada de Christine Collins. Em determinado momento, o filme parecia que não ia acabar nunca. O tratamento convencional dado ao longa fez com que eu não apreciasse o trabalho do Clint. Até estranhei ele realizar um filme tão convenvional; principalmente porque, como diz Isabela Boscov, ele não gosta de fru-fru hahaha

  6. Mesmo tendo a direção do Clint, não esperava muito de “A Troca”, mas foi uma bela surpresa quando me vi preso a trama e gostando das voltas inteligentes da história, assim como a atuação mais versátil de Jolie até hoje.

    Abraços, Wally!

  7. Acabei de ler, no blog do Luciano, uma crítica bem diferente e que exalta alguns dos mesmos aspectos que você cita aqui, como o elenco, por exemplo. A diferença é que você gostou mais do roteiro que o Luciano. É justamente esta disparidade de opiniões que me deixa ainda mais curiosa para conferir este filme!

  8. O que mais me encheu os olhos foi a atuação envolvente da Jolie e toda a parte técnica, fotografia, figurino… Apesar de não ter me emocionado tanto quanto eu esperava, gostei muito. 8 é a nota certa.

  9. Wally, interessante sua nota! Acho que foi a única que se aproximou da minha (8,5). O filme, a meu ver, é lindo de morrer!!! A técnica é fantástica (a fotografia parece pintada a mão) e Agelina Jolie está extraordinára!!!!

    Abraços.

  10. Wally, Clint Eastwood é um dos meus diretores favoritos e ainda não vi este filme, farei uma forcinha para ver logo.

    Beijos! ;)

  11. É um bom filme, Wally, mas é o mais fraco de Clint nesta década. Mas “fraco” parece um termo injusto, afinal Clint é o cara! Espere só pra ver GRAN TORINO!

    Abs!

  12. Parabéns por não se deixar influenciar pela crítica especializada que detonou este baita filme, Wally!

    Abraço!

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