Publicado por: Wally | Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Uma História de Amor

Henry Roth é um escritor de livros infantis apático, inseguro e averso à toda a sociedade. Seu companheiro literário ilustrativo, Rudy Holt, acaba de morrer, lhe deixando com um grande espaço a ser preenchido. Não confiando em ninguém, Henry se vê obrigado a trabalhar com a ilustradora Lucy Reilly, cuja aversão ao próprio Henry vai se desaparecendo ao passo que ambos começam a se conectar de maneiras nada convencionais.

Ao contrário do que inicialmente dá a entender o nome nacional óbvio e simplista, essa produção romântica americana é, na verdade, bem aversa e particular, indo contra em sua estrutura e em seus detalhes os grande tiques hollywoodianos demasiadamente empregados ao gênero cansado. Entretanto, é fácil perceber que é pura roupagem nova, apenas inserindo uma maior introspecção de personagens e uma maior ousadia visual. Os elementos que tanto nos acostumamos a ver estão todos lá, apenas disfarçados. Desde os clichés habituais de casal que inicialmente não se compreende até um entender o outro, chegando ao fim previsível, com direito à fuga de um ex-namorado exigente. O longa é sim averso apenas em seu tom, seu estilo e até mesmo nas atitudes de seus personagens. No fundo, porém, é aquela coisa batida. Vale notar, por isso, o quanto a direção criativa do estreante Justin Theroux tenha sido primordial ao desenvolvimento do filme em si que, mais vívido e fugindo do lugar comum ao menos nos excessos, se tornou mais gratificante.

A câmera de Theroux é ótima. Em detalhes, pode até cair na vistosidade desnecessária, mas em suma, o estreante cineasta tem um jeito com a câmera interessante. Algo que percebemos desde a cena inicial dentro de um cinema pornô até a saída dos personagens dele, com muita força de condução e envolvimento com a audiência. Theroux tanto nos repele do filme, com uma habitual irregularidade por parte de suas cenas criativas que em vezes saem do rumo, quanto nos atrai, sendo o foco o charme que tanto permeia a sessão, mais intensamente nos momentos finais. O filme em sí é dotado de uma estranheza que achei virtuosa. Mesmo em que em vezes o resultado de tais bizarrices tenham sido irregulares, na maioria das vezes nos encantamos com todo o clima proposto e a espirituosidade suntuosa dos personagens, sempre interessantes, únicos e, traindo a natureza inicial do roteiro em unir elementos batidos, originais. Deve ser o grande diferencial do filme. Mesmo que as intenções de seus personagens sejam previsíveis diversamente, a natureza por eles apresentada durante a projeção foge do que poderiamos esperar e nos atinge com toques de naturalidade e improvisação refrescantes. Aspectos como a bela fotografia e ótima trilha sonora igüalmente acabam por nos conquistar.

Nesse meio, encontramos no protagonista o aspecto mais atípico de todo o filme. Billy Crudup (O Bom Pastor) personifica, com grande desenvoltura e talento, um personagem averso extremamente chato de início que te faz questionar seriamente até que ponto estávamos assistindo uma comédia romântica. Alias, é interessante o filme brincar com seus próprios defeitos, estereótipos e clichés, vendo em Henry (Crudup) um ser averso à todos os fatores mais típicos e usuais da sociedade, de andar de carro à dizer eu te amo. O filme faz uma visão bem humorada sobre o que é exatamente um estereótipo e, apesar de Henry incomodar imensamente ao início com seu tremendo mal humor e arrogância, serve como uma boia no meio do oceano quando pensávamos estar afundando em previsibilidade. E a ilustre Lucy surge, com uma atuação tocante e sincera de Mandy Moore (Southland Tales – O Fim do Mundo), que a cada filme que passa mostra maiores melhorias em demonstrar emoções mais genuínas. Lucy e Henry são antagônicos e com Crudup e Moore é o mesmo. A falta de química entre ambos é fatal e, mesmo no último ato, quando todo o clima martela na nossa cabeça romance e paixão, é um pouco difícil sentir com os dois atores em especial que, mesmo competentes dentro de seus respectivos papéis, não conseguem ir muito além em construir um clima mais autêntico entre sí.

Mesmo assim, Theroux teve sensibilidade o suficiente para construir um último ato contundente, ainda que não de todo contagiante. A cena final é previsível e de uma simplicidade tremenda mas, desde à forma como é filmada até a intimidade dos diálogos, nos sentimos mais próximos dos personagens e, por isso, nossa afeição pelo filme em si e seu impulso romântico até então transparente começa a nascer. “Uma História de Amor” é um exercício dignificado em cinema, de um cineasta promissor cujos aparatos visuais trazem algo a mais ao filme ao mesmo tempo que algo a menos. Com maior eqüilibrio Theroux atinge os aplausos. Já o roteiro de David Bromberg (também na estréia) possui muitos diálogos ótimos e alguns personagens interessantes mas, como já citado, se disfarça quando é, na verdade, cheio de déjà vus e temas batidos. O elenco, por sua vez, enaltece o quanto pode, lembrando também a participação valiosa do sempre competente Tom Wilkinson (O Sonho de Cassandra). E, por menos que Crudup e Moore não combinem, vale notar que ambos (principalmente ele) são bons atores e realizaram sínteses admiráveis de seus personagens dignos. Recomendado, é um romance diferente mas igüal, inspirado mas frígido, criativo mas batido. Tentem ignorar os contras e se deixem levar pelo lirismo da belíssima trilha, em casamento genuíno ao visual e aos personagens.

Nota: 7,5

Dedication (2007)
Direção:
Justin Theroux
Roteiro: David Bromberg
Elenco: Billy Crudup, Mandy Moore, Tom Wilkinson, Dianne Wiest, Bob Balaband, Martin Freeman, Bobby Cannavale
(Romance, 95 minutos)

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Responses

  1. comprei esse filme, mas não conseguiu me empolgar, fiquei um pouco decepcionado com Tom Wilkinson que é um dos meus atores preferidos

  2. Apesar do bom elenco, não estou muito curioso para ver esse filme. Os comentários positivos do blogueiros ajudam um pouco, mas acho que passarei essa temporada sem conferir esse “Dedication”.

  3. Eu adorei o filme. Sempre odiei histórias açucaras, por isso não me empolguei com o título. Mas o personagem de Crudup, com seus defeitos tão gritantes e tão fora da realidade de “típico ‘principe’ americano”, não é nem de longe o que uma garota sonha pra si, me encantou! Muito bom o filme! É pra quem gosta de coisas diferentes e realidade. ;D

  4. Gostei do filme , é diferente do que costumamos ver nos romances . Mas o legal do filme está no fato de que ele apesar de longe dos padrões ‘romanticos’ é de uma romanticidade incrivel . O galã (Crudup), não é nem de longe um galã , e a mocinha (Moore)não é ujma tipica mocinha dos filmes americanos .

  5. […] que almeja o incrível por debaixo de uma máscara. O mesmo merece ser dito quanto à Billy Crudup (Uma História de Amor) que, revestido de CGI, entrega uma potente performance. Ainda há lugar de sobra para o admirável […]

  6. […] do mundo político e eleitoral. E Spacey faz um belo trabalho, como sempre. Tom Wilkinson (Uma História de Amor) está igualmente genial, lutando pelo lado oposto com um personagem tão bem interpretado que […]


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