Publicado por: Wally | Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Quando, do nada, um homem fica instantâneamente cego no meio de uma avenida, essa sua tal “cegueira branca” vai se espalhando para um certo número de pessoas com as quais possui contato. Atingindo um número variado de pessoas, o governo se vê surpreendido com a epidemia e, numa iniciativa brusca, coloca todos os infectados num hospital psiquiátrico abandonado, os mantendo reclusos. Junto com um médico infectado, acompanha-se sua esposa que, por um motivo não aparente, não ficou cega.

Quando o genial Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel) anunciou há alguns anos a sua adaptação para o cinema do livro homônimo de José Saramago, o público, cético, acreditava ser uma obra inadaptável. E, quando se assistie ao filme de Meirelles, notam-se claramente elementos literários que só poderiam ser mesmo difundidos por um cineasta do calibre de Meirelles que, ousando, faz do livro de Saramago (do qual não tive a oportunidade de ler) cinema fantástico. Méritos merecem ir, claro, ao próprio roteiro elegantemente concebido. Nessa tradução toda, encontramos sim alguns elementos fora do lugar, uma ou outra irregularidade e uma cena em si que realmente não me agradou (a do incêndio). De resto, porém, Meirelles se mostra hábil e incontestavelmente visionário, marcando a audiência com um texto forte e um modo de filmar extraordinário.

Visto isso, talvez o maior triunfo da obra seja a ousadia de seus aspectos técnicos e, por isso, sua fotografia magistral que, banhada por um branco cor de leite (refletindo a cegueira branca que assola seus personagens), nos instiga fortemente a testemunhar os obstáculos de seus personagens com um diferente olhar. Os enquadramentos todos possuem algum significado maior e as imagens são os meios com os quais Meirelles nos choca terrivelmente ao vermos o ser humano cair na desgraça (e é interessante ver como a fotografia torna-se fora de foco quando vê-se o ser humano no seu estado mais deplorável). Além disso, numa união especial, a trilha sonora, que usa de diversos sons e instrumentos para despertar os mais variados sentimentos, forma um elo vibrante com as imagens focalizadas com grande poder pela câmera experiente do diretor e companhia. São virtudes estas que transformam “Ensaio Sobre a Cegueira” numa experiência sensorial essêncial tanto para nossa conexão com os eventos em si, quanto para nosso envolvimento mais denso com os personagens retratados. Personagens estes dos quais, méritos de Saramago, não possuem nomes para primordialmente universaliza-los, numa síntese dos típos da sociedade de hoje que passam por arrogância, preconceito, egoísmo e em vezes a mais pura canalhice, numa intensa observação dos meios aos quais o ser humano está apto a ir na sua busca por sobrevivência e poder.

Muitas vezes, as particularidades desses personagens não são desenvolvidas mais a fundo justamente por essa questão de retratar “o homem universal”. Isso inibe, em vezes, algum sentimento maior que possamos ter com os personagens. Mas é bom esclarecer que as intenções do filme são outras. “Ensaio Sobre a Cegueira” é, até seus últimos minutos surpreendentemente otimistas, uma descida ao inferno que incomoda, incita sentimentos angustiantes e provoca na audiência uma reflexão tenebrosa sobre nossa capacidade como ser humano, nossos instintos carnais e selvagens e nossa sede intensa por sobrevivência. É um choque elétrico que, por meio de um espelho mórbido, traz nossa imagem assustadora como assiantura. Em seu formato brilhante de alegoria da sociedade e dos típos e males que nela se habitam, o filme se assemelha muito à “O Nevoeiro” com a única exceção de seu fim que, ao contrário da adaptação de Stephen King de fim pessimista, nos traz uma certa esperança contundente ao fim que quer nos dialogar sobre a força do amor, a necessidade de amizade e nossa igualdade como seres até nos tempos mais sombrios. Tudo isso sem um pingo de pieguice, prevalecendo o sentimento genuíno e a crueza estarrecedora.

Os atores são, em suma, grandes virtudes do filme. O elenco todo satisfaz e captura a essência de seus personagens como muita desenvoltura e talento. Nesse meio, detaca-se Mark Ruffalo (Traídos pelo Destino), Alice Braga (Eu Sou a Lenda), Gael García Bernal (O Passado) e até Danny Glover (Rebobine, Por Favor), recuperando seus pontos perdidos comigo numa atuação melancólica. Mas o grande poder tour de force do filme é Julianne Moore (Não Estou Lá), soberba e profundamente intensa na sua realização arrepiante. Contida, carrega em olhares e expressões todo o peso do mundo que reside sob sua excepcional personagem. Com toda esta mescla de valores, torna-se por isso incontestável o próprio valor único da obra de Meirelles como mais puro cinema. Ainda que a sessão possa apresentar um ou outro equívoco breve a jornada para dentro de nós mesmos revelar-se inquietante, tudo vibra apenas para exaltar o talento de seu diretor, a genialidade de Saramago e a competência tremendo de todos envolvidos tanto na parte técnica primorosa quanto no elenco excepcional. Obrigatório.

Nota: 8,5

Blindness (2008)
Direção:
Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado em livro de José Saramago
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Don McKellar, Danny Glover, Gael García Bernal, Jason Bermingham, Maury Chaykin, Mitchell Nye
(Drama, 120 minutos)


Responses

  1. Se você já não gostou da cena do incêndio sem ler o livro ia tê-la odiado se tivesse lido.

  2. Finalmente um filme que eu assisti \o/
    Bela resenha, Wally, e eu assino embaixo de tudo o que você disse sobre o filme! “Ensaio Sobre a Cegueira” é muito interessante e um dos melhores filmes de 2008!

  3. Alguns amam, outros odeiam. Vou ter que assitir para ter minha opinião.

  4. Concordo plenamente com a sua opinião, gostei de ver. Acho que eu dei uma nota maior ainda, rs… Mas é isso aí… Abra~ps

  5. Wally, acho que as falhas de “Ensaio Sobre a Cegueira” pesam demais sob o resultado final da obra, especialmente se analizarmos com mais profundidade a obra após o término da sessão. Como destacado, o longa de Meirelles é um primor em termos técnicos (fotografia, o cenário sórdido, a música, como dividimos a percepção daqueles – todos – vítimas da cegueira, etc.), mas a conexão dos três atos do filme é algo quase desastroso. Ajudaria muito se Meirelles não se deixasse levar em demasia pela recepção das sessões-teste. E, se me permite discordar, “Ensaio Sobre Cegueira” se assemelha muito mais à “Dogville” (bem às distâncias, evidentemente) do que a “O Nevoeiro”, cujo epílogo não é totalmente pessimista.

    Abraços!

  6. Wally, não que minha nota seja baixa (7,5), mas eu não consigo gostar, pessoalmente, deste filme. Acho que deixaram passar muitas passagens importantíssimas do livro e reduzirm outras mais importantes ainda. Em termos técnicos é muito interessante, mas convenhamos que a fotografia esbranquiçada é óbvia… A direção de arte em tons apocalípticos e Julianne Moore são as melhores coisas do filme.

    Abraços!

  7. JÁ DISSE ISSO A BASTANTE GENTE E NÃO ME CANSO DE REPETIR: “NA DÚVIDA SE EXISTE VIDA EXTRA-TERRESTRE, NA VERDADE EXISTE OUTRO MUNDO DENTRO DO PLANETA TERRA”

  8. Eu concordo que os atores e a parte técnica acabam sendo a maior virtude deste belo filme. A adaptação mostra aquilo que de melhor existe no livro de Saramago e é uma pena mesmo que esteja sendo solenemente ignorada na temporada de premiações. O filme merecia algo melhor!

  9. Wally, tenho uma opinião bem parecida com a sua em relação a “Ensaio Sobre a Cegueira”. Ainda que não seja um filme perfeito (como você mesmo disse, tem seus equívocos), certamente é um trabalho de alta qualidade do Meirelles e merecia uma melhor recepção entre a crítica.

  10. Wally, achei o filme bom e só. Mas o destaque para mim foi a fotografia, que entrou na minha lista de melhores de 2008! Começei a leitura do livro, para eu puder rever e fazer a “comparação”. Um 7,0 está de bom tamanho!

  11. Eu gostei bastante deste filme, e concordo quando você diz que a parte técnica e as atuações, somadas, trazem o que há de melhor neste filme de Meirelles. Ainda que eu ache o roteiro muito bem adaptado, realmente há alguns parênteses e lacunas que poderiam ser melhor preenchidas. Fico feliz por ver Meirelles diante de um trabalho tão bom – ele está honrando seu nome, fazendo sempre cosas ótimas também em Hollywood.
    Nota; 9,0

  12. Inquietante. Assustador. Se ultrapassarmos para além da discussão meramente do filme, constatamos ser uma reflexão , um retrato da miserabilidade moral do ser humano. A generosidade e a capacidade de amar podem características que alguns têm mas que a maioria não de forma alguma, isso se revela na prática, quando tudo falta. Por que será? O que faz a diferença para alguns serem capazes de fazer o bem e doar-se enquanto outros vão submeter o próximo a baixezas inomináveis?

    Penso em tudo o que tantas vezes necesitamos sofrer e perder, para aprender a valorizar até um banho de chuva ou um brinde com água. Esse filme me faz sair da posição de “mais um filme”. Foi um convite a reflexão e a fazer escolhas acerca de que lado estar…

  13. O filme consegue despertar emoções no público, algo que não foi muito comum nos filme de 2008. Retratando a benevolência e a crueldade humana simultaneamente. O filme ora nos faz contrair os dedos de ira, ora nos faz suspirar de alívio, nos remetendo sempre a uma reflexão. Não diria que é uma preciosidade, pois possui algumas falhas dura de engolir, porém tem grande quilate. A fotografia é adorável e a sonoridade dos elementos fora de foco se adaptou muito bem as cenas. É um filme que recomendo a todos.


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