Publicado por: Wally | Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Eles

Lucas e Clementine são um casal que residem sozinhos numa casa de campo distante, recém chegados à cidade. Certa noite, o casal começa a suspeitar barulhos estranhos à sua volta, até finalmente perceberem que tem algo os aterrorizando e invadindo sua propriedade.

Ao início de “Eles”, filme francês que passou completamente despercebido até ser recentemente lançado diretamente em DVD no Brasil, assistimos enquanto duas pessoas são aterrorizadas e finalmente assassinadas dentro de um carro no meio de uma avenida abandonada. Esse início misterioso é um extremamente interessante e tenso justamente por apostar onde os filmes de terror americanos atuais todos parecem esquecer: na falta de informação. Enquanto Hollywood mastiga tudo para seu espectador, anulando qualquer sentimento de suspense, “Eles” mostra, logo na primeira cena, uma eficiência tensa admirável ao não mostrar a força malígna que está por trás do trágico acontecimento, nos deixando tão perplexos (e assustados) quanto seus personagens. É uma aposta sempre eficiente mas esquecida com a saturação triste que o gênero vem enfrentando ultimamente.

Por isso é de se espantar quando aprendemos que os diretores (e roteiristas) por trás de “Eles” – originalmente lançado em 2006 – são nada mais nada menos que os corruptores que refilmaram “The Eye – A Herança” neste mesmo ano, entregando aquele trágico trabalhado chamado “O Olho do Mal“, que tanto representa a falta de criatividade atual do cinema de terror norte americano. É difícil percebermos que ambos trabalhos, tão distantes, são da mesma autoria. Mas infelizmente é a verdade. Prefiro acreditar que os diretores foram corrompidos por Hollywood e que não simplesmente perderam seu talento em meros dois anos. Moreau e Palud realizam um belo trabalho de tensão em “Eles”, mesmo quando o roteiro. Uma seqüência de fuga, particularmente, é aterrorizante.

O roteiro por sua vez, apresenta bastante falhas. Além do superficial que nos é apresentado, sabemos pouco sobre o casal e a construção de personagem não é o suficiente para nos fazer importar inteiramente sobre eles. E isso é imprescindível em filmes deste gênero, para que possa ser estabelecida uma clara conexão entre vítima e espectador. Ainda assim, o roteiro se sai vitorioso ao deixar os “eles” do título bastante sombrios e misteriosos, levando conseqüentemente ao terror provocado no espectador. Melhor ainda para quem abordar “Eles” sem qualquer informação prévia (como eu) visto que os “eles” de verdade só são revelados na metade da metragem. Isso aumenta infinitamente o mistério e – portanto – o suspense. As especulações são divertidas e nos remetem até mesmo à uma aura meio “Arquivo X”, que por sua vez não se é concretizada.

O gosto com o qual “Eles” termina, porém, deve ser seu maior triunfo. Amargo, intenso e assombroso, o realismo angustiante que provoca em suas últimas imagens é o suficiente para nos deixar pensativos longo depois que a sessão termina. Baseado em fatos reais, o filme nos apresenta um comentário verdadeiramente mórbido sobre a juventude de hoje, algo concretizado pelo limite aos quais o pobre casal precisa enfrentar na sua tensa busca por sobrevivência, e algo dito por um personagem ao fim que, apesar de não ter sido filmado, provoca horror e angústia o suficiente para deixar “Eles” como a aura mais que admirável de um filme verdadeiro de terror. Seus dois atores principais, Olivia Bonamy e Michäel Cohen, podem nem sempre prevalecer (mas possuem bons momentos, como o de Bonamy dentro de um duto) e a constante obscuridade pode incomodar os mais exigentes, mas é fato que o cinema tenso aqui apresentado por Moreau e Palud é um raro, competente e extremamente recomendável, principalmente tendo em face a pobreza contínua do gênero no cenário atual. Então, por mais que “Eles” possa ter um frágil roteiro, possui aspectos cinematográficamente louváveis que nos deixam extremamente gratos – e ao mesmo tempo realmente aterrorizados. Missão cumprida. Tão bem cumprida, alias, que a legião de copiadores de “Eles” parece já ter começado com “Os Estranhos”, filme americano ainda não conferido por mim que possui premissa assustadoramente parecida. E é aí que está o medo maior.

Nota: 7,5

Ils (2006)
Direção:
David Moreau, Xavier Palud
Roteiro: David Moreau, Xavier Palud
Elenco: Olivia Bonamy, Michäel Cohen, Adriana Mocca, Maria Roman, Camelia Maxim, Alexandru Boghiu, Emanuel Stefanuc
(Terror, 77 minutos)


Responses

  1. Ay… no me gustó nada esta película. Perdón por el español, pero tenía que decirlo.

    Saludos!

  2. O fato é: muitas vezes um bom trabalho é sempre ofuscado com escolhas equivocadas futuras. os diretores dessa pequena perola do horror francês fizeram a escolha errada em fazer uma refilmagem de filme oriental e ainda de quebra caindo no conto do vigario no qual, os diretores de filmes de horror europeus sempre são os mais cotados em fazer remakes de filme oriental por serem mais gratuitos na maneira da violencia e da tensão proveniente dos seus filmes passados.

    Provavelmente quem ver esse filme, vai lembrar do engodo que eles fizeram e questionar uma coisa, cade a essencia dos diretores, se rendeu ao dinheiro e ao falso momento de fama em Hollywood?

    Abraços

  3. Tudo isso em 77 minutos??? Wally, fiquei louco para ver o filme!!! Me lembou Os Estranhos… mas mesmo assim vou ver se encontro por aqui!

    Abraços.

  4. Parece que este filme é bem melhor que “O Olho do Mal”, hein? Você sabe que não sou a maior fã do gênero, mas até que fiquei com vontade de ver este filme depois do seu texto.

  5. Seu texto me deixou interessado no filme.

    Abraço

  6. Depois que vi o péssimo filme de suspense da dupla (“Olho do Mal” é forte candidato para top 5 dos piores de 2008), prometi que passaria longe de novos filmes dos diretores, mas sua crítica até que mudou um pouco minha opinião…

  7. Tem o Violência Gratuita também, o tema é quase o mesmo.

  8. Eu ouvi falar bem deste filme em algum site da internet, mas ainda não tive a curiosidade de procurá-lo em lugar nenhum. Agora, com sua crítica, acho que vou arranjar um jeit de ver – ainda que a “duplinha” da direção me encha de ressalvas… Quem aí se esqueceu do desatre “Olho do Mal”? Ninguém.


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