Publicado por: Wally | Terça-feira, Dezembro 16, 2008

O Nevoeiro

Após uma tempestade inesperada assolar uma pequena cidade, David Drayton e seu filho, ao lado de vários habitantes, se digerem à pressa ao supermecado para abastecerem em precaução ao clima imprevisível. Dentro do supermecado porém, começam a perceber que um nevoeiro pesado tomou conta da cidade e que, assustadoramente, existe algo dentro delo que ameça a vida de todos.

A mais nova adaptação do complexo Stephen King (1408), desta vez pelo sujeito que sempre o compreendeu, o visionário Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre), termina com pouco mais de duas horas de projeção e, ainda assim, não termina com você. Assombrosa, a nota final dolorida do filme é impactante, cortante e reflexiva como raras. Começo, a partir da constatação do brilhantismo do desfecho do filme, valorizar ainda mais profundamente a obra de Darabont. Pessimista, o filme é uma alegoria intensa das nossas maiores inseguranças. Ao retratar a transformação de diversas pessoas, de diferentes etnias, culturas e idades, sendo oprimidas pelo medo, e como elas reagirão à esse sentimento humano cada vez mais presente na sociedade de hoje, o filme funciona como uma reflexão vibrante e intensa, nunca deixando de nos instigar, entreter e, em alguns casos, nos desnortear. Exemplo de seu desfecho que é, além de fortemente corajoso, profundamente coerente e pesado, podendo, em muitos casos, repelir o espectador com mais cautela.

Até chegar, porém, á esse pique polêmico, somos sugados misteriosamente pela aura engenhosamente bem desenhada por Darabont, que cria um verdadeiro clima de filme do gênero. Inícia seu filme de uma forma silenciosa e, aos poucos, vai nos puxando para mais de perto dos personagens, até sermos completamente inseridos na mesma situação à que eles estão submetidos. Para compreender o filme, e desfrutá-lo como ele mereça ser valorizado, é preciso deixar que ele te carregue. Entre no filme, viva a situação, analise os personagens. Não é tarefa difícil. Darabont deixa seus personagens tão bem delineados, com diálogos ótimos e, diversamente, diabólicamente ácidos, que o jogo psicológico mortificante que toma conta do cenário se torna logo irresistível. Seu panorâma de personalidades, sujeitos e típos é genial, enviando fortes socos no estômogo e uma simbólica representação da hipocrisia da igreja, intensa tanto em suas implicações psicológicas quanto em sua crítica à manipulação. À frente deste símbolo, uma atuação perfeita da sempre grande Marcia Gay Harden (Na Natureza Selvagem), que interpreta sua fanática religiosa com tamanha genuínade que assusta. Alias, o grande mérito do filme de Darabont é não ser gratuito. Existem sequências tensas envolvendo as misteriosas criaturas do nevoeiro, mas o terror começa mesmo quando nós seres humanos começamos a nos atacar, seja por vulnerabilidade, fraqueza, ou pura mediocridade. Por isso a urgência da pergunta de certo personagem para o outro durante a projeção: “Você não têm muita fé na humanidade, né?”.

E “O Nevoeiro” vai construindo essa atmosfera pesada de uma sociedade de pessoas deixadas á deriva do caos. É, a todo momento, perfeito ao nos mostrar reações autênticas aos acontecimentos e sentimentos humanos sempre certeiros, nunca fictícios ou colocados para simples artífico dramático. É tudo muito intenso. E, após muitas cenas de imenso entretenimento (é fácil vibrar e se deixar levar pela busca de certos personagens pela sobrevivência), vamos percebendo o quanto o trabalho é de grande brilhantismo. É muito mais do que uma simples obra de monstros. É sobre os outros monstros, aqueles disfarços, que seguram a Bíblia em uma mão enquanto escondem uma arma na outra, aqueles com quem lidamos todos os dias e tememos tanto ao sair nas ruas. O maravilhoso filme de Darabont é esse angustiante relato, que nos envia para fora desnorteados, pensativos, assombrados. O que leva o ser humano a cometer certos atos? O quão somos fracos diante do inimaginável? E, acima de tudo, quais são os monstros que criamos?

Composto por um habilidoso elenco, incluí a já citada soberba Harden, mas ainda atuações formidáveis de Toby Jones (Jornada pela Liberdade) e outros coadjuvantes de presença. Quanto à Thomas Jane (O Justiceiro), nunca o admirei, mas tem momentos neste filme em que ele demonstra um certo talento admirável. O desfecho, por si só, teria sido ainda melhor se Jane estivesse mais confortável no papel, mas Darabont, o diretor sábio que é, realiza movimentos de câmera impressionantes, uma ambientação pesada e aumenta sua música comovente ao último volume. Manipulados? Provavelmente. Mas bem manipulados, como o bom cinema deixa de fazer tanto e tão incansávelmente nestes mesmo filmes do gênero já desgastados. “O Nevoeiro” é muito mais que isso. É uma obra de arte excepcional tanto em seu conteúdo psicológico quanto em sua impressão elétrica na audiência. Alguns sairão tão aflitos do choque que possívelmente não compreenderão. Afinal, o filme é corajoso demais para ser digerível por todos. Não espere um blockbuster, mas se deliciem com cinema de alta qualidade e, acima de tudo, um suspense maravilhosamente surpreendente e empolgante.

Nota: 9,0

The Mist (2007)
Direção:
Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Toby Jones, Andre Braugher, William Sadler, Nathan Gamble, Alexa Davalos, Chris Owen, Jeffrey DeMunn, Sam Witwer, Frances Sternhagen
(Suspense, 126 minutos)


Responses

  1. Filme sensacional.
    E concordo que o desfecho seria ainda melhor se o Jane fosse decente, mas mesmo assim foi muito assustador e cumpriu seu papel.

  2. Esse filme é assim: ou você ama ou você odeia. Eu pertenço ao segundo grupo. Mas gosto é gosto e respeito a sua opinião.

  3. Perfeita a sua crítica. Amei o filme completamente, um dos melhores filmes da carreira de Darabont, mais uma vez baseando-se em um conto de Stephen King (apesar de ter mudado o final). Sua crítica está limpa e exata. Convido a ler a que eu fiz sobre o mesmo filme em setembro.

    Abraços.

  4. Um filme sempre com uma tensão à flor da pele. Mais que Thomas Jane destaco Marcia Gay Harden que consegue irritar o mais calmo dos espectadores e assim constituir um outro inferno dentro da loja.

    8/10.

    Abraço.

  5. Para mim é um dos cinco melhores filmes já lançados este ano no Brasil, não apenas pelo roteiro fantástico e extremamente bem adaptado, como pela atuação soberba de Marcia Gay Harden (que será lembrada no Prêmio A Grande Arte) e Thomas Jane (que não só demonstra certo talento admirável como também ganhou meu respeito como ator definitivamente).
    Darabont já me encanta há tempos (vide Um Sonho de Liberdade e À spera de Um Milagre, dois filmes poderosíssimos e ultra-emocionantes).
    S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!!!!
    NOTA: 9,5
    Abraço!

  6. UAU! Quantas concidências cara! Eu moro em Vila Velha e você?
    Pois é né, faltam MUITOS bons cinéfilos por aqui, mas o pior é que não há um grande incentivo pro pessoal ir ao cinema, a distribuição de filmes é péssima. Os Kinoplex e Cinemark da vida só passam blockbusters. Filmes de outros países, então nem pensar haushsushauahauahua.
    Um filme independente é IMPOSSÍVEL de ver aqui no ES. Estive em São Paulo há algumas semanas e fiquei extasiada com as salas de cinema, as opções de teatro, concertos,. Na boa, eu enfrentaria qualquer trânsito, poluição só pra poder ir na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Cine Bombril.Seria muito foda todos os blogueiros cinéfilos nessa mostra né?
    Como sou muito fã de Sean Penn quase morri quando soube que o filme Into the Wild só ia estrear em SP, RJ e em pequenos circuitos em Brasília. oh vida.. Eu tenho a mesma impressão de que Milk não vai chegar aqui no ES, haushsusahuahauahauahauahauahua. Espero que eu esteja errada. O que mais me entristece é que para ver um filme com atores desconhecidos, diretor desconhecido, distribuidora fraca, de outros países, eu tenha que ir à maior metropóle brasileira. Não seria mais justo se todas as cidades brasileiras pudessem usufruir do leque cultural que São Paulo apresenta?
    Valeu pelo apoio cara!
    Abraços.

  7. Preciso conferir. Sou fã deste tipo de tema e Darabont tem uma curta, mas ótima carreira até o momento.

    Abraço

  8. Wally, é impressionante a aceitação deste filme pelos cinéfilos. Eu, assim como vc, achei formidável. Não sei se vc leu minha crítica (ainda estava no Cinefilando), mas lá comento que o filme é uma discussão, de fato, sobre sociedade e instalação do caos. Este caos deriva do próprio ser humano. Perceba que, dentro do mercado, as atitudes deles, por vários momentos, são mais perigosas que os “bichos” do lado de fora. Sem contar naquela extraordinária cena final… fiquei parada, sem falar por uns minutos…

    Abração!

  9. O filme é bom pra caramba, pena que tem o Thomas Jane estrangando tudo.

    Ok, preciso falar uma coisa: prefiro Os Estranhos!

  10. Acredito que, ao lado de “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Nevoeiro” é um daqueles filmes que estudam a nossa natureza quando nos encontramos diante de situações difíceis. O trabalho do Frank Darabont neste filme é maravilhoso e aquela cena final me deixou incomodada por muito tempo.

  11. Wally, para mim, O NEVOEIRO é um dos melhores filmes do ano!

    Abs!

  12. “Exemplo de seu desfecho que é, além de fortemente corajoso, profundamente coerente e pesado, podendo, em muitos casos, repelir o espectador com mais cautela” Concordo plenamente! Aliás esse final foi responsável por algumas das manifestações de ódio mais inesperadas nos cinemas brasileiros, obviamente pelo público não ter inteligência suficiente para entender uma decisão artística como essa – ou se teve, não soube se conter.

  13. Como anda a recepção do filme na locadora em que vc trabalha? Por aqui, nao anda impressionando muito, o que me surpreendeu. Achei que seria um sucesso.

    Acho o filme muito bom e descaradamente maniqueista, e tb acho o Thomas Jane pessimo a ponto de ter feito eu dar gargalhadas na sequencia final (que era pra ser mais impactante).

    Abraços!

  14. Filmaço, ótimo. Nota: 9.0

    Frank Darabont prova que é um dos grandes diretores da atualidade.

  15. Maravilhoso! Fica entre os meus dez favoritos do ano. Além do final perturbador, destaco também a incrível performance da Marcia Gar Harden.

  16. Este filme tem uma das melhores cenas do ano, um momento inesperado, fiquei embasbacada… Pessimista, alguns diriam.

  17. […] da sociedade e dos típos e males que nela se habitam, o filme se assemelha muito à ”O Nevoeiro” com a única exceção de seu fim que, ao contrário da adaptação de Stephen King de fim […]

  18. […] na íntegra, a resenha de Wally sobre O […]

  19. […] série após muitas suspeitas e provas inconfundíveis. Temos ainda a estupenda Marcia Gay Harden (O Nevoeiro), interpretando Melora, “a mãe”, uma mulher que vai à procura de sua filha e encontra […]

  20. Pior filme que ja vi e outro nao acho este trabalho uma obra prima, detestei. Assim porq nao falar de amor, porque gostar do ruim, do mal, de sangue, de terror. Desculpem mas isto não é obra prima; E outra obra é Tomates Verdes Fritos, qeu traz alguma mensagem positiva da vida


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