Publicado por: Wally | Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

O Amor Não Têm Regras

Nos anos 20, Jimmy ‘Dodge’ Connelly surge como o treinador de um time de futebol americano que, ao lado do esporte em sí, perece com a falta de patrocinadores. Tentando reviver o jogo, escala para o time um veterano de guerra conhecido como herói por todos, Carter Rutherford, que inicía com a jornalista Lexie Littleton uma teia de interesses propulsionada por um segredo sujo.

Depois do sucesso grandioso quanto à crítica de “Boa Noite e Boa Sorte”, a carreira promissora do galã George Clooney (Conduta de Risco) como cineasta parecia estar moldada, após o também excelente e talvez até superior “Confissões de uma Mente Perigosa”. Mas, após dois dramas sérios, o mais novo projeto do ator como diretor (não saindo, portanto, de frente às câmeras), é uma comédia leve, descompromissada, bobona e com ares inesperados daquelas comédias exageradas dos anos 50. Talvez longo demais para o que pretende, seu mais novo filme não possui aquela fluidez virtuosa de seus trabalhos anteriores, e nem sequer a originalidade. Ainda assim, garante sorrisos e satisfações. Talvez seja o mínimo que poderíamos ter pedido de um homem que cada vez se torna mais onipressente no mundo de Hollywood, agarrando com unhas e dentes os valores esquecidos de se fazer cinema. Provou isso antes com duas pérolas e apesar das falhas (principalmente de roteiro) de seu novo longa, fica mais que claro a todo o momento que é um exercício competente em cinema, ao menos do ponto de vista técnico e humorístico, contendo sagacidade e pitadas de genialidade.

Na trama, seguimos o surgimento do futebol americano e sua transformação no modo de vida americano, pelos olhos do jogador e técnico Dodge (Clooney), suas intrigas emocionais com Lexie (Zellweger) e seu embate com Carter (Krasinski). Os atores adicionam charme o suficiente para tornar todos afáveis e queridos, ao mesmo tempo em que seus carismas juntam-se ao talento inconfundível do trio para formar personagens claramente bons e identificáveis. São o que salvam muitos momentos artificiais pelos diálogos em vezes descartáveis e a também falta de ritmo e foco. Cenas isoladas, porém, vibram diversamente com energia e um humor ótimo, não do tipo baseado em piadas forçadas ou apelativas, mas aquele humor de situação gratificante. Claro, muitas vezes o humor cai no vazio, e o máximo que se ouve são grilos cantando, mas é seguro dizer que o filme cumpre seu dever em divertir, mesmo deixando espaços vagos entre o caminho.

Visualmente, o filme é extremamente sofisticado. Possuindo uma fotografia que captura a atmosfera dos anos 20 com valiosa perfeição e autenticidade, agrupada a uma direção de arte primorosamente detalhista. O filme quer mesmo servir de máquina do tempo e te enviar para o modo de se ver e fazer cinema do passado. Desde o início, que abre com a logo mais antiga da Universal (um globinho dourado pequeno girando) até seus créditos finais inspirados e estilizados, o filme todo inspira pura glória e transmite total nostalgia. Por mais que seja um trabalho pecador em suas derrapadas narrativas e construtivas, ainda é uma jornada gratificante pelo túnel do tempo, utilizando com isso atores tão charmosos como os de antigamente e cenários tão polidos quanto o que deixamos para trás. Clooney quer é nos ensinar que não é preciso deixar isso para trás, e a onda do cinema contemporâneo não precisa residir apenas na constante inovação. Às vezes, como fez no belo preto e branco de “Boa Noite e Boa Sorte”, vale a pena olhar para trás e admirar as conquistas e os caminhos por quais percorremos.

Recomendado, é muito provável que o público da mais nova geração torça o nariz grotescamente para os intuitos de Clooney e companhia, mas para todos aqueles que se divertem vendo cinema genuíno, que confiram à obra falha, mas ultrajante, deslocada, mas exemplar, irregular, mas contundente. O filme tem seus méritos e por isso, merece seus créditos. Portanto, entrem no clima, curtem a música, admirem os visuais e entrem no jogo dos atores, que parecem se divertir muito em cena, incluindo um Clooney totalmente despojado e mais solto do que nunca, em contrapartida à personagem típica de Renée Zellweger (Bee Movie – A História de Uma Abelha). John Krasinski (Licença para Casar), porém, se mostra um talento cada vez mais merecedor de atenção. Por essas e outras, um bom filme que merece uma olhada.

Nota: 6,5

Leatherheads (2008)
Direção:
George Clooney
Roteiro: Duncan Brantley, Rick Reilly
Elenco: George Clooney, Renée Zellweger, John Krasinski, Jonathan Pryce, Stephen Root, Wayne Duvall
(Comédia, 114 minutos)


Responses

  1. Wally, seu texto me deixou com muita vontade de ver este filme! Lembro q a unica coisa q me atraiu de inicio foi os figurinos, mas agora sabendo q a pelicula do Clooney segue um estilo retro, fiquei bem interessada! Concordo com o q vc diz ao inicio do texto, tem algo no Clooney e no seu modo de filmar q eh tao classudo, nao sei.. Cinema tb precisa inovar, mas nao tem nada de errado em se fazer um filme “vintage”. O Francois Ozon seguiu uma linha semelhante em “Angel”, e o resultado foi maravilhoso.

  2. Pois é, gostei do texto. O filme parece ser super simpático, mas uma coisa é certa: eu DETESTO a Zellweger!!!!

    Abração, Wally!

  3. Na verdade foi um choque ver como esse “Leatherheads” foi um grande fracasso de bilheteria e até mesmo de crítica, especialmente numa fase tão boa do George Clooney. Mesmo com você alertando sobre as possíveis falhas, fiquei mais animado para ver esse filme agora! Abraço.

  4. “O Amor Não Tem Regras” é um filme muito charmoso e, como você bem disse, belo visualmente. A parte técnica e a música foram os elementos que mais gostei no longa. E o mesmo acaba ficando como uma boa homenagem àquelas comédias de antigamente…

  5. O diretor deve ter se divertido bastante com esse filme, que é legal. É bom, até para ele não ficar preso a gênero só.

    Abraço!

  6. Apesar das intenções nostálgicas de Clooney, o fato de lidar com futebol americano e de ser uma comédia romântica com Renée Zelwegger desencoraja, mesmo que os valores de produção sejam de alta qualidade.
    Prefiro não ver…

    Cumps.

  7. É um filme filmado com elegância, apesar da muita lama dos campos. Não terá um argumento completamente iluminado, mas as prestações dos protagonistas são suficientes para captar o interesse pela fita.

    7/10.

    Abraço.

  8. Confesso que nunca tive muita vontade de assistir e continuo não tendo, aliás nunca fui muito fã assim do Clooney…

  9. Não há dúvidas que se trata de um delicioso passatempo, e muito feliz e interessante enquanto tal. Não é um filme a ser levado a sério, é essa a verdade, mas George Clooney entrega uma boa atuação (raro) e boa direção (normal). Zellweger já esteve melhor.
    Abraço, Wally!

  10. Wally, achei um filme sem compromissos, charmoso e engraçado. Tem seus problemas no roteiro, mas mesmo assim é um bom passatempo!

    Beijos! ;)


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