Publicado por: Wally | Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Os Reis da Rua

Veterano da polícia de Los Angeles, Tom Ludlow sofre com a perda da esposa e, entre suas dificuldades, se vê preso numa trama que o associa ao assassinato de um policial. Para desvendar a verdade por trás do ocorrido, terá que percorrer pelo podre da polícia, onde começa a questionar valores e a lealdade de seus companheiros.

O foco narrativo e o estímulo crítico de “Os Reis da Rua” não é original ou introspectivo. Já vimos filmes sobre a corrupção da polícia talvez bem mais empolgantes. A própria comparação ao infinitamente superior “Tropa de Elite” torna-se por isso inevitável. Em ambos filmes encontramos personagens principais instáveis no psicológico que tomam medidas extremas no meio de trabalho, numa onda contra a maré de corrupção desenfreada que asola a comunidade. A diferença entre os filmes é que, enquanto “Tropa de Elite” foi um relato urgente e denso sobre uma guerra, psicológicamente rico e narrativamente minucioso, “Os Reis da Rua” contenta-se com o óbvio e constatações manjadas sobre seu tema. Ainda assim, apesar de suas gigantes falhas, o filme dirigido por David Ayer (Tempo de Violência) que já se aventurou no gênero no seu longa anterior (de estréia) – saindo-se bem sucedido, possui algumas qualidades identificáveis ao longo da jornada diversamente frenética e empolgante o suficiente para entregar, se não brilhantismo narrativo, um “que” de entretenimento.

O roteiro, por sua vez, foi escrito à três mãos mas, especificamente (e surpreendentemente), por James Ellroy, o gênio literário por trás do romance policial ultimato chamado “Dália Negra”, um conto que realmente escancarava o mundo do crime com unhas e dentes, adentrando no núcleo de seus personagens e criando tensão extraordinária. Não é mais o mesmo Ellroy. O roteiro de “Os Reis da Rua” possui típos, estereótipos, clichés de filme de ação e finalmente, uma investigação criminal com vestígios de um bom Ellroy. É pouco diante das falhas do filme, mas o diretor não deixa tudo perecer e injeta adrenalina constantemente à veia narrativa, controlando as arestas de seu filme e fazendo com que nem tudo soe completamente descartável. “Os Reis da Rua” tem um estilo adequado, visual arrojado e edição satisfatória. É, em suma, um típico bom filme policial de ação. Mas, talvez, nada mais do que isso.

A “estrela” do filme é Keanu Reeves (A Casa do Lago), um ator que encontrou ouro num personagem com o qual pôde construir por três filmes bem sucedidos. Depois disso, porém, o ator pode ter decolado como astro, mas ainda possui muito a desejar como ator. Seu personagem mecânico em “Os Reis da Rua” é a maior prova disso. Reeves faz aqui um personagem frio, depressivo e bruto, mas não era por isso que ele precisava deixá-lo completamente antipático. Não ocorre uma identificação com o protagonista, tornando tudo bem mais difícil de aceitar. Chris Evans (O Diário de uma Babá) salva muitas vezes o clima com seu carisma, enquanto Hugh Laurie (O Vôo da Fênix) encarna um personagem com uma rispidez que dá aguá na boca. O personagem tinha potêncial. Mas Ellroy não acreditava nisso. O resultado é o desperdicio de Laurie. A verdadeira salvação no elenco é Forest Whitaker (Ponto de Vista) que, ainda que comece regular demais, vai intrigando (suas cenas são as melhores) e construindo seu personagem com um envolvimento bem admirável. Ao fim, sentimos a intensidade do ator, que é esmagadora.

O clímax do filme, por sinal, é bem empolgante e, ainda que óbvio, faz um retrato adequado e bastante autêntico sobre os limites da corrupção na polícia, e a incontestável verdade de que pode não haver solução. O clímax é seguido por um desfecho que, surpreendendo, não se liga à falsos moralismos, lições de vida baratas e caricaturas de final feliz. O gosto ao fim é tão amargo quanto deveria ser, sem dar concessões ou explicações demais à audiência, termina silenciosamente como deveria. É a nota adequadíssima, feita para salvar um projeto bastante irregular e de poucas virtudes, cuja proposta de entretenimento se sobressai a qualquer outra pretensão de análise, crítica ou introspecção. Pelas salvações no meio do caminho (particularmente no fim) a sessão acaba merecendo uma leve recomendação, principalmente se conferida sem o compromisso de uma sala de cinema.

Nota: 6,0

Street Kings (2008)
Direção:
David Ayer
Roteiro: James Ellroy, Kurt Wimmer, Jamie Moss
Elenco: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Cedric the Entertainer, Jay Mohr, Terry Chews, Naomie Harris, John Corbett, Amaury Nolasco
[Policial, 109 minutos]


Responses

  1. Acho que o filme faz direitinho oq propõe. Corrupção policial, marginalidade… Mas tem lá seus momentos de ser discutível. O destaque é o elenco que está legal.

    Bom fds! Abraços, Wally!

  2. Eu até tinha vontade de ver esse filme mas a recpeção foi nem está sendo tão boa… devo botar no fim da lista!

  3. Mesmo com seu texto levemente animador, as outras críticas que eu li mataram qualquer vontade que eu tinha de assistir a este filme, e olha que sou fã do gênero policial.

    Bom final de semana!

  4. Até que pensei em ver esse filme na época de seu lançamento, mas ultimamente o Keanu Reeves não tem participado de produções muito relevantes, por isso passei longe. Seus comentários foram melhores do que esperava. Abraço!

  5. Ainda não vi o filme, mas não sei se vou. Você colocou bem certos pontos positivos do filme, além do texto de Ellroy, mas não tenho confiança no diretor e no elenco.

  6. “leve recomendação” mesmo. Bem leve. ^^

    Gostei de ver o Hugh Laurie aí, o melhor do elenco.

    O Keanu Reeves que se cuida. Está a pouco de ser um Nicolas cage da vida. Só faz filmes de medíocre para baixo. tsc tsc

    Abração!

  7. Concordo com a sua crítica.

  8. Achei um filme bem mais ou menos, mas assistível.

  9. Puxa, Wally, eu simplesmente detestei este filme, para mim é o pior do ano, de longe…

  10. Eu acho que vou fechar o ano sem ver este filme. Apesar de ver qualquer porcaria que o Keanu faz…

  11. Cara eu gostei desse filme como postei no Moviemento , talvez por que assisti sem esperar muita coisa, foi tipo uma surpresa, uma boa surpresa.

  12. […] tenha no drama da aproximação de Klaatu com os humanos um ato fraquinho e conte com Keanu Reeves (Os Reis da Rua), que não ajuda. Ele até combina com o personagem impassível (como em "Matrix"), mas […]

  13. Ali pela desilusão. O argumento está um pouco mal amanhado e, para cúmulo, ainda temos direito a outra actuação ‘robotizada’ de Keanu Reeves.

    Abraço.


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