Publicado por: Wally | Sexta-feira, Dezembro 5, 2008

À Procura da Vingança

Ao fim da Guerra Civil, um coronel inicía sua busca de um homem, à procura de vingança, num acerto de contas com um passado sombrio que uniu ambos sob uma tragédia irreparável.

Estreando na direção de um longa-metragem, David Von Ancken traz com “À Procura da Vingança” qualidades básicas de um cinema esquecido. Isso destaca seu filme considerávelmente em uma época onde tais valores são ainda mais escassos. É uma pena, portanto, ter que reconhecer que, além de suas virtudes incontestáveis, o filme esconde seus próprios defeitos, cujo destaque deve ir à adequação contínua à um clima formuláico do gênero do faroeste, abandonado completamente tão somente no clímax brilhante. O filme de Ancken envolve facilmente, particularmente por nos inserir num clima de perseguição logo de início sem revelar as verdadeiras motivações de seus personagens (deixando tudo bem instigante). Uma sábia escolha errôneamente prolongada pelo roteiro, fazendo com que o próprio filme perca seu fôlego em momentos. De início, quando os segredos vêem à tona e descobrimos o que realmente aconteceu em Seraphim Falls, nota-se uma decaída de ritmo e em seguida momentos que simplesmente não decolam. Falhas que poderiam facilmente ter sido evitadas por um roteiro que se detivesse e cortado as arestas, diminuindo a própria duração.

Mas passando por todos esses defeitos, encontramos ótimas virtudes pontuando elementos técnicos ou narrativos da sessão. A bela fotografia se destaca. Do cenário montanhoso, à geleiras, até chegar à um deserto devorado pela aridez, a fotografia captura tudo brilhantemente, atingindo o ápice nos momentos finais vibrantes da obra. As atuações dos dois protagonistas igüalmente não decepcionam. Liam Neeson começa um tanto distante, mas a frieza de seu personagem vai se concretizando naturalmente, até ser quebrada repetinamente ao revelar de seu passado, fazendo transparecer sua verdadeira dor e humanidade. Isso o torna num personagem que, ainda que não completamente tridimensional, possui densidades palpáveis bem direcionadas por Neeson, que vai construindo uma intensidade louvável até o fim decisivo. Já Pierce Brosnan continua a me surpreender. O ator que sempre achei terrívelmente mecânico me conquistou com “O Matador” e aqui ganha mais pontos, criando um forte personagem com grande presença e autênticidade.

Além dos dois protagonistas ótimos, temos uma pequena e grata surpresa ao fim com um aparecimento misterioso de Anjelica Huston. A personagem de Huston aparece num momento onde o filme já deixou toda a fórmula e abraçou gratificantemente aquelas qualidades cinemáticas louváveis que tanta sugestia ao longo da sessão. A fotografia une-se ao tom alegórico assumido pelo roteiro e à direção intensamente poética. Analisado em conjunto com o resto do filme, é fácil reconhecer o momento com um intuito demasiadamente pretensioso, mas ao menos é bem executado o suficiente para realmente oferecer algo digno à sessão (que já demonstrava suas qualidades). A sequência efficiente pode ser analisada sob diversos pontos de vista e ainda assim não perder sua significância ou poesia, da mesma forma com que tudo pode ser visto ou como alegoria ou como uma simples halucinação no meio do deserto (só vendo para entender). A impressão deixada pelo clímax é tão boa que dá uma significância a mais a todo o trabalho em sí. O filme só não se torna obrigatório por, infelizmente, recorrer à uma escolha ao seu desfecho que desmerece todo o furor do clima. Prestes a se tornar poéticamente feroz, o filme decaí com um ato entre os personagens frouxo e que não me afetou em sentido algum. O nível de pretensiosidade a que chegou o filme neste momento foi assustadoramente fora do aceitável, e mergulha o filme no esquecimento.

Mas apesar de ter batido na tecla errada justamente nos seus últimos segundos, “À Procura da Vingança” tem muito o que oferecer e é uma adição mais do que competente no gênero do “faroeste”, que está sendo fielmente resgatado este ano por obras de bastante qualidade. O definitivo retorno do gênero ainda reside no ótimo “Os Indomáveis”, mas a admirável estréia de Von Ancken segue bem nas trilhas. Técnicamente acachapante e com sugestões exemplificadas de brilhantismo pontuando diversos aspectos da obra, o filme pode encontrar barreiras, escolhas erradas ou a maldita fórmula, mas entretem, envolve e entrega um drama ora visceral extremamente competente. Merece ser descoberto apesar da pouca atenção à que foi entregue. Tente mergulhar na beleza estética da obra (e de seus pontos cinematográficos geniais), na sua força humana e tente se esquivar dos equívocos ao longo da feroz jornada que, ao fim, terá sido altamente gratificante. É só desligar o filme quando faltarem 2 minutos para seu fim.

Nota: 7,0

Seraphim Falls (2006)
Direção:
David Von Ancken
Roteiro: David Von Ancken, Abby Everett Jaques
Elenco: Liam Neeson, Pierce Brosnan, Michael Wincott, Xander Berkeley, Ed Lauter, Tom Noonan, Kevin J. O’Connor, John Robinson, Anjelica Huston
[Faroeste, 115 minutos]


Responses

  1. Estava fazendo uma lista dos filmes que precisava ver até o fim do ano (já pensando na lista de melhores) e esse “Seraphim Falls” está nela. Minha expectativa diminuiu após seus comentários. Abraço!

  2. Nem sabia que David Von Ancken tinha se aventurado num longa! Parece ser até assistível, mas nem espero nada. Assisti a um curta dele chamado ”Bullet in the Brain”. É muito legal, mas esquecível.

    Abraços, Wally!

  3. Já passei por ele umas duas vezes e na hora h acabei por alugar Não Estou Lá, do Todd Haynes e Réquiem para um sonho, do Aronofsky. Quem sabe amanhã, se a TV a cabo não prometer nada de bom, eu não dê uma conferida! E aproveitando a chance, recomendo Appaloosa, do Ed Harris. ótimo!

    Cultura? Informação?
    http://robertoqueiroz.wordpress.com
    http://pequenos-takes.blogspot.com

  4. Vou procurar e ver se assisto… a trama me agrada bastante, quem sabe…

    vlws

  5. Fico feliz que apesar de serem poucos, ainda existem realizadores que conseguem manter o gênero faroeste vivo. Sou fã do gênero e cada nova boa obra é sempre um prazer assistir.
    Este parece ser interessante.

    Abraço

  6. Não conhecia o filme, mas seu texto me deixou curiosa para conferí-lo.

  7. Curioso ler sobre os erros cometidos pelos realizadores em suas fitas. Para quem está distante, como nós, espectadores, às vezes fica até fácil constatá-los.
    Enfim, pelo gênero e pelos astros principais, seria capaz de relevar as objeções do texto e conferi-lo, até para entrar no clima para outro western recente, APALOOSA.

    Cumps.

  8. Pois é eu não sabia da existência deste longa. Mas assim como a kami, também fiquei curiosa!
    bjokasssss

  9. Não vi esse western, vou procurá-lo …

  10. Não conhecia mesmo. Assisti poucos filmes desse “estilo” faroeste. Preciso assistir esse e muitos outros o quanto antes…

    Abraço!

  11. […] Sophie Okonedo (Alex Rider Contra o Tempo), Oliver Platt (Casanova) e Anjelica Huston (À Procura da Vingança), mas todas atuações contidas e de papéis limitados. Cusack e Coleman, por sua vez, […]

  12. […] a decisão do estúdio em enviar o filme direto para DVD nos EUA). Enquanto Pierce Brosnan (À Procura da Vingança) continua a me surpreender como ator (ainda que em menor grau, aqui), construindo seu personagem […]


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