Publicado por: Wally | Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Bella


Anos depois de ter sua vida completamente abalada por um trágico ocorrido, ex-jogador de futebol Jose agora é cozinheiro no restaurante do irmão e, quando cruza caminhos com a garçonete Nina, que acaba de descobrir algo revelador, acaba por sugir uma inesperada conexão entre ambos. Perdidos entre obrigações e presos pelo destino, se vêem conhecendo um ao outro nas ruas de Nova York e, ao mesmo tempo, conhecendo a sí mesmos.

Curto, belo e simples, o indie “Bella” é o exemplo concreto do quanto a simplicidade, quando bem orquestrada, consegue ser tão sublime. Seguindo um dia tumultuado de dois estranhos, o filme é do típo que começa de forma direta e termina com uma nota das mais singelas. Ao decorrer da curta metragem, conhecemos duas pessoas das quais nos conectamos quase que instantaneamente, talvez por terem nuances e detalhes tão bem escritos e compilados pelo roteiro. Ou talvez por emplacarem com duas atuações sinceras e apaixonantes de dois atores desconhecidos. O contexto da obra em sí é simples de ponta a cabeça. Em vezes, até demais. Mas a verdadeira questão é assistir a um filme tão simples e, ainda assim, ser tocado por ele a ponto de se ver comovido quando menos se espera. “Bella” emociona por ser, de uma forma incontestável, belo. Desde a forma como abraça seus personagens, até a condução digna de diálogos e momentos cuja simplicidade guardam intensidades complexas.

Sente-se uma vez ou outra que existe certa tendência ao melodrama, e até mesmo ao maniqueísmo. Além disso, existe também uma previsibilidade rondando o que houve no passado que então viria à tona no presente dos personagens. Em outras palavras, o texto possui suas falhas, e o diretor nem sempre consegue condensá-las. A questão maior é, no entanto, se ver tão instigado pela premissa tão simples, tão encantado por personagens tão humanos e tão conectado por emoções tão arrasadoras (mesmo que seja de natureza maniqueísta) que as falhas só surgem depois, quando se reflete mais atentivamente sobre o que acabou de conferir. E, a esse ponto, estamos refletindo apenas sobre o poder reflexivo deste. O filme em sí possui uma fluidez extraordinária e você, hipnotizado, simplesmente vai sendo carregado pela sua carrenteza. E com isso permanece conectado às emoções transmitidas e carregadas até o fim. Seja quando o filme te carrega para o fundo, te sufocando com momentos de beleza pura, ou quando te deixa simplesmente admirar o brotar de sentimentos à superficie, tão irregulares em personagens tão fraturados. O filme, de certa forma, é bastante esperançoso nas implicações quanto aos seus personagens verossímeis e seus confrontos diários. Como se testemunhássemos, talvez, as simples soluções de problemas tão complexos.

Como já mencionado, os dois atores principais estão muito competentes. Verástegui e Blanchard são essênciais para garantir a genuidade requerida para fazerem seus personagens funcionarem. E alcançam isso admirávelmente bem, passando por cima de clichês e caindo na boa graça da improvisação. Alias, diversamente se sente um clima tão leve e puramente autêntico que não me espantaria se descobrisse que tratavam-se de verdadeiras improvisações do elenco valioso. E, nesse sentido, não só os protagonistas, mas vários coadjuvantes encarando a virtuosidade e ajudando a construir a força da honestidade do filme. O maniqueísmo acaba por surgir nesse meio, mas nunca de forma exageradamente supérflua. O cineasta revelação Monteverde parece sempre seguro e confia na força dos diálogos e na pureza de seus personagens. Sábias escolhas. Principalmente em um filme que versa justamente sobre como a comunicação é transformadora em momentos da vida onde parecemos ouvir apenas ruídos e balbúrdia.

“Bella” desponta, portanto, como um daqueles filmes adoráveis que, ainda que falhos em questões meramente superficiais, nos conquistam com sua afeição, sua simplicidade e, acima de tudo, com sua transbordante afetuosidade. Guarda profundidade em momentos mais simples e é carregado de emoção nos mais pesados (um é chave). Possui uma mensagem das mais encantadoras e te vence justamente por depositar tanta fé nos seus personagens e em seus próprios sentimentos a ponto deles nos vencerem e nos inspirarmos completamente. Em outras palavras, é um filme pequeno que deixa uma grande marca. Incita a revisão e desperta grande contentamento. Não é original ou revolucionário, apenas um belo, curto, simples e adorávelmente bem conduzido filme. Sinceramente para poucas palavras, mas para um grande público. “Bella” precisa apenas ser conhecido. Possui a capacidade de se tornar merecidamente popular. Afinal, apesar de partir do trágico, se transforma em um conto de fadas ao liderar até um fim feliz. E, às vezes, precisamos de histórias assim, por mais cínicos que sejamos.

Nota: 8,0

Bella (2006)
Direção:
Alejandro Gomez Monteverde
Roteiro: Alejandro Gomez Monteverde
Elenco: Eduardo Verástegui, Tammy Blanchard, Manny Perez, Ali Landry, Angélica Aragón, Jaime Tirelli, Ramon Rodriguez
[Drama, 91 minutos]


Responses

  1. Parece ser bom, não vi ainda, mas as críticas são bem positivas.

  2. Me pareceu interessante esta fita.

  3. Meus amigos me ordenaram a ver este filme. Montecerde dirigiu um curta, anterior a este longa, muito legal. Chama-se Waiting for Trains e foi uma grata surpresa…

    Abs, Wally!!

  4. Wally, eu AMEI “Bella”. Acho que a chave do filme é justamente a simplicidade que você tanto citou e as performances de Eduardo Verástegui e Tammy Blanchard. Só vou discordar de você em relação ao maniqueísmo que você citou. Não senti nada disso. Um filme que merece mesmo ser descoberto!!

  5. Já vi diversos comentários positivos sobre esse filme.
    Assim que tiver oportunidade verei. Mais uma vez, belo texto.
    Abraço!

  6. Sem dúvida “Bella” foi uma das melhores surpresas do ano, inclusive seus protagonistas ainda estão na minha lista de melhores do ano – especialmente o Verástegui, grande revelação. Abraço!

  7. Wally, lembro que Kamila falou muito bem desse filme no blog dela, e desde entao anotei a recomendacao, mas ainda nao o conferi. Vc apontou falhas como tendencias ao maniqueismo e melodrama (coisas q geralmente abomino em filmes), mas tb citou aspectos que parecem apagar as falhas. Eu adorei as duas unicas atuacoes da Tammy Blanchard q vi ate hj, espero, se nao um excelente filme, uma grande atuacao por parte dela.

  8. “Em outras palavras, é um filme pequeno que deixa uma grande marca.” Bela síntese, parece ser um filme muito cativante e interessante. Abs!

  9. Não sabia da existência mas depois disso fiquei bastante curioso a respeito!


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