Publicado por: Wally | Terça-feira, Novembro 11, 2008

Control

Nascido no silêncio

Control (2007)
Direção:
Anton Corbijn
Roteiro: Matt Greenhalgh, baseado na auto-biografia de Deborah Curtis
Elenco: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara, Joe Anderson
[Drama, 122 minutos]

Um retrato de Ian Curtis, o enigmático vocalista da banda cult Joy Division dos anos 80, cujos conflitos pessoais, profissionais e amorosos o levou à cometer suicídio aos 23 anos de idade. Relatado quase que pelo ponto de vista de sua mulher, Deborah Curtis, que escreveu uma auto-biografia retratando a descida de Curtis ao obscuro.

Filmado em um preto e branco assombroso, a força de “Control” é impactante. Na brilhante estréia de Anton Corbijn em um longa-metragem, somos absorvidos lentamente pela aura angustiante de um jovem em desordem e assistimos, com a mesma angústia, sua queda até sua resultante morte precoce. Em um filme cuja virtuosidade é nos instigar lentamente e mortificantemente por um retrato triste e sombrio de uma  mente oprimida pelo silêncio, é fácil ser movido ou até mesmo tocado pela sua coragem ao retratar Ian Curtis com um realismo surpreendente e com um clima enigmático que faz jus à imagem do cantor. Como inexorável fã da banda Joy Division, foi fascinante mergulhar a fundo na mente conflitante de Curtis, especialmente quando tem-se em mãos um roteiro maduro e expressivo que, singelamente, captura todas as nuances que precisam ser retratadas para se poder descontruir a tragédia de Curtis.

Mencionando isso, é igualmente notável como nem o roteiro nem a direção de Corbijn ousam tentar descontruir a mente de Ian. Não se deixam levar pela ambição de compreender o que ocorria em sua mente, apenas relatam, com detalhes, virtuosidade e grande emoção, todas as suas batalhas. Sejam essas emocionais, psicológicas ou profissionais. O roteiro baseia-se na auto-biografia escrita por sua esposa, Deborah Curtis, que talvez sofreu mais que qualquer outro ao assistir a descida de sua paixão ao obscuro. Corbijn entende muito bem todas as nuances apresentadas no texto e as conduz com a merecida sutileza. Seu filme em vezes pode enviar um tom opressivo, pesado e por assim dizer, talvez até frio. Pode incomodar mas, nas trilhas do retrato, é o necessário para capturar o que Curtis sentiu e viveu. Ainda assim, embalado pela trilha simplesmente sensacional da banda, o longa atinge momentos de vivacidade, mesmo que não sobreviva entre os tons sombrios empregados pela fotografia maravilhosamente expressiva e simbólica.

O elenco todo do filme merece méritos mas, no meio do obscuro, surge Sam Riley, outro talento revelado em “Control” além do diretor, que impacta e assombra com sua performance cheia de sutilezas, minuciosidade e enfim, uma intensidade excepcional. Riley captura a essência de Curtis. Busca refúgio em espaços vazios, vaga seu olhar tenebroso e aplica a conhecida neurose de Curtis durante suas apresentações, que por sua vez resultavam em convulsões. Mas fazendo jus à autora original, ninguém como Samantha Morton (Elizabeth – A Era de Ouro), impecável, para capturar o sofrimento de sua personagem, seu desamparo e sua afeição pelo marido. Morton arranca angústias e, no meio do caminho, talvez até lágrimas. Ela é uma síntese do filme poético e simbólico de Corbijn, que trabalha nas emoções que residem por debaixo dos cortes. O cineasta meche nas nossas feridas da mesma forma com que almeja oferecer um retrato convicente sobre a complexidade dos atos e dos sentimentos de Ian Curtis. E Corbijn nunca deixa sua obra cair no óbvio ou no sentimental. Seu cinema preto e branco é uma homenâgem à valores hoje precários no cenário atual hollywoodiano. A força de seu filme está na sua alma, no seu sentimento que transborda paixão, angústia e um senso arrebatador quanto à densidade de nossos temores.

Nos envolvendo a partir de sua parte técnica perfeita, incluindo sua significativa fotografia e uma direção de arte primorosa, o filme é poesia em movimento, ao embarcarmos na jornada noite adentro pela conflitante desordem de um filho do silêncio. O filme de Corbijn atesta mais ou menos o que “Atmosphere”, composta por Curtis, tinha a dizer sobre perigo, medo e o nascimento no silêncio. Alias, Corbijn não captura os processos criativos de Curtis como compositor, mas utiliza suas músicas de uma forma genial para capturar seus estados de espírito em determinados instantes. Mas é a simbólica imagem ao fim que diz tudo, ao subirmos junto à câmera de Corbijn, após testemunharmos tragédia e desespero, até o topo da casa onde se submeteu o suicídio. E nisso, vemos uma fumaça negra subir da chaminé e se desfazer no céu. Genial. O fim perfeito e profundo para um filme angustiantemente comovente sobre a vida de Ian Curtis e nossa habitual “conflitante desordem”, quando inocência se torna culpa, amor se torna ódio e luz se torna escuro. Um relato que virtuosamente captura e não degrine a imagem de seu foco, apenas a enaltece à um valor onde apenas imagens e sons não são o suficiente para traduzir. Com “Control”, é preciso sentir.

Nota: 8,5

SINDICATO DOS CINÉFILOS: 87% (+)

Depois da quebra, para quem se interessar, as letras de “Atmosphere” que, ao lado de “Love Will Tear Us Apart”, deve ser a melhor composição da banda.

Atmosfera

Caminhe em silêncio
Não se vá, em silêncio
Veja o perigo,
[ é ] sempre perigoso
A conversa não acaba, a vida se reconstrói…
Não se vá…

Caminhe, em silêncio
Não se vire, em silêncio,
Sua confusão, minha ilusão.
Destruindo-se em uma mascara e ódio-próprio.
Confrontando-se e morrendo…
Não se vá…

Pessoas como você, encontram isso fácil,
Despido para ver, andando no ar
Caçando pelos rios, através das ruas, em todo canto
Abandonado tão cedo
Colocado para baixo com o devido carinho
Não se vá, em silêncio
Não se vá…


Responses

  1. É uma construção admirável da mente torturada de Curtis. Quem já era fã dos Joy Division, mais passou a ser. Um belo filme servido por um preto e branco maravilhoso.

    9/10.

    Abraço.

  2. Passei a ouvir Joy depois de ver o filme!

    Abraço, Wally!

  3. Wally, tive a oportunidade de ver este filme duas vezes. Dizem que Sam Riley está excelente mesmo, assim como Samatha Morton.

    Abraços!!

  4. Wally, eu não conheço NADA de Joy Division, mas, por causa de ótimas opiniões como a sua, que quero assistir “Control”.

  5. só digo uma coisa: MARAVILHOSO.
    adorei este filme! MESMO!
    bjoooooo

  6. Você já recomendou esse filme lá no blog, mas ainda não encontrei em DVD (na verdade nem sei se já foi lançado). Parece ser extremamente envolvente e muito bem realizado – sessão imperdível!

  7. Este foi um dos meus filmes favoritos esse ano, e uma das cinebiografias mais interessantes q vi nos ultimos tempos. Nao tem aquele elemento cliche de filmes do genero nem tenta ser um “I’m Not There” da vida. Apenas um bom roteiro, excelentes interpretes e fotografia assombrosa, como vc citou. E de sobra a trilha sonora superlegal.

    Samantha Morton esta excelente, ela merecia bem mais reconhecimento por esse filme, e outros q fez. Sempre ecletica e desafiadora.

  8. Nossa, Wally. Belo texto. Só me deixou com mais vontade ainda de assistir “Control”! Espero conseguir em breve!

  9. Putz! Adoro o Joy Division, mas ainda não vi o filme. Estou em débito, pois parece muito bom!

    Abs!

  10. Cara ta muito legal o layout do blog e otimas postagens, quero muito ver Control, o perdi dos cinemas vamos aguardar chegar nas locadoras. Parabéns!!!


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