Publicado por: Wally | Domingo, Novembro 9, 2008

Paixão Proibida

Opressoras belezas infundadas

Silk (2007)
Direção:
François Girard
Roteiro: François Girard, Michael Golding, baseado em romance de Alessandro Baricco
Elenco: Michael Pitt, Keira Knightley, Alfred Molina, Sei Ashina
[Drama, 107 minutos]

Com grandes aspirações, o modesto e inteligente Hervé Joncour casa-se com a bela Hélène, com quem vive um grande romance. Hervé, um mercador de seda na França, é forçado a se tornar um contrabandista quando, inesperadamente, uma praga assola toda sua matéria. Em suas viagens ao Japão, cai na obsessão por uma concubina. E, nas idas e vindas, se perde em suas emoções conflitantes.

Assistir à “Paixão Proibida” é o mesmo que se entorpecer em um paraíso visual. A estética é sublime. Lindamente fotografado, habilidosamente arquitetado por cenários suntuosos e ainda com figurinos especialmente bem desenhados, é uma jornada gratificante em termos unicamente visuais. Infelizmente, o entorpecimento não consegue nos deixar imune à mesmice e, apesar de superficialmente drogados pelos aspectos técnicos deslumbrantes, a ausência de um conteúdo mais pungente incomoda. O filme tem início com um intenso vapor que toma conta da tela, logo revelando uma beldade oriental. O primor técnico desta única cena é por si só extraordinário. E o resto do filme segue banhado em uma estética sempre formidável e recompensadora. E, acompanhando, uma trilha sonora magnífica. O grande Ryuichi Sakamoto (O Último Imperador) realiza um trabalho maravilhosamente misterioso, belo e sufocante em seus ritmos e tons. Reflete, perfeitamente, toda a aura do filme que, bem frio, oscila entre o triste, o distante, o misterioso e o apaixonante.

Nunca, porém, nos vemos realmente nos entregar à força do filme. E isto é porque não existe força para se poder ser entregue. Pretensiosamente, o filme segue sua duração em um clima melancólico, de tristeza e, infelizmente, frieza. É difícil realmente sentirmos ao durante toda a duração desta aparentemente bela história de amor, pecado e paixão. O filme simplesmente não nos afeta, ele se carrega. Falta a fluidez adequada e o poder transformador de uma eterna história sobre amores traídos pelo destino. O clima de pura melancolia, em uma tentativa compreensiva mas errônea em capturar unicamente o estado de espírito do protagonista, nos deixa vazios e afetados não nos modos como deveríamos. Não somos comovidos, mas frustrados. Pela inércia do clima e seu tom excessivamente deprimido. As intenções do diretor François Girard (O Violino Vermelho) parecem ter se perdido na construção de sua história. Ele queria criar um belo filme, mas tirando seu visual, tudo soa demasiadamente vazio, ainda que bem pontuado. Existe causa, mas nenhuma conseqüência. Ação por parte do roteiro que visa ser intimista e a direção que ambiciona deslumbrar, mas a reação, surpreendentemente, se revela inteiramente nula.

O elenco do filme igualmente falha em satisfazer as carências da história frágil. Michael Pitt (Últimos Dias) protagoniza sem a presença adequada ou a emoção devida. Seu personagem está na constante mesmice do clima de melancolia e Pitt não ousa se libertar dessas correntes morbidamente sufocantes impostas pelo roteiro. Keira Knightley (Desejo e Reparação) ao seu lado, decepciona. Saída de um filme de época impecável à pouco tempo, esperava mais intensidade mas, tirando seus bons momentos, não há muita atuação para poder se satisfazer aqui. Mas, talvez isso tudo seja mesmo culpa do clima sempre para baixo da produção. Seus atores nunca conseguem se envolver com a audiência e, portanto, permanecem antipáticos de maneiras incomodas.

Nisso tudo, porém, existem valores que vão além da estética e do som. Em vezes o tom intimista sobressai o melancólico e, analisada de perto, é uma historia muito bonita. É um conto falho sobre as fraturas humanas e as vulnerabilidades se chocando com nossas ambições. Talvez seja essa a questão. O filme talvez seja vulnerável demais em sua concepção, frágil na forma com que tenha sido desenhado para poder, no fim, prevalecer sobre nossos sentidos e, talvez mais importante, subir à altura de suas ambições e se tornar uma obra cinematográfica primorosa. A questão tem a ver com a roupagem e, por isso, a culpa  é do cineasta. Deveria ter notado que floreios visuais estonteantes não iriam substituir as boas graças de uma historia complexa simplesmente bem contada, composta e idealizada. A idealização aqui bate nas notas erradas e você termina o filme incerto. Incerto sobre se o que acabou de ver significou algo ou se foi tudo um monte de balburdia e floreios exagerados. Nessa incerteza toda, acabei terminando no pior lugar de todos: o do  meio-termo.

Nota: 5,0

SINDICATO DOS CINÉFILOS: 60% (+)


Responses

  1. Eu costumo dizer que “Cinema é subjetivo” e pelo o que tu escreveu, este pode até caprichar no concreto ( Visualmente belo, trilha sonora magnífica) mas esquece do principal: o abstrato (O roteiro e a força oculta do filme). Ai, realmente fica dificil…

    Abraço!

  2. Não tinha ouvido muito a respeito não, com sua crítica negativa fico com menos vontade ainda de procurar e assistir hehe

    vlws

  3. Sabe o que eu acho, Wally? Que muitos filmes têm apelado demais à uma parte técnica impecável, mas têm esquecido do principal: conteúdo em termos de roteiro e direção. Isto é tão triste…

    Abraços.

  4. Mesmo parecendo ter uma boa história, não tive muita vontade de ver esse filme no seu lançamento nos cinemas. Até pela Keira Knightley pretendo ver no DVD, mas sem muita expectativa.

  5. Curiosamente, Wally, o que você fala a respeito de “Paixão Proibida” estava dentro das minhas expectativas em relação ao filme. Dava para perceber que ele tinha uma estética muito boa, mas falhava em outros aspectos. Mesmo assim, devo ver o longa porque gosto do Michael Pitt e da Keira Knightley.

  6. Bonitinho, mas ordinário, então.

  7. Eu me canso um bocado das mocinhas de época da Keira Knightley, mas, ainda assim quero ver o filme!

    Abraço

  8. Nem sabia da existência… mesmo com a nota e o texto, fiquei curioso!

  9. Wally, queria ver este filme justamente pelos protagonistas, cujas performances deixaram a desejar pelo seu texto. Tinha essa impressao de ser um filme “belo”, com visual inspirado, e parece que nao vai muito alem disso.. Sua conclusao me faz pensar q talvez seja um filme pra se ver mais uma vez antes de chegar a uma opiniao final.. De qualquer maneira, perdi um pouco a vontade de ve-lo.

  10. Drama romântico de época muita vezes é belo em imagens, mas fraco no conteúdo.

    Abraço

  11. Postei umas três vezes e o meu comentário não apareceu! :@


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