Publicado por: Wally | Domingo, Outubro 19, 2008

Batman – O Cavaleiro das Trevas

Meia-noite no jardim do bem e do mal

The Dark Knight (2008)
Direção:
Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan, David S. Goyer, baseado nos personagens de Bob Kane
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Monique Curnen, Cillian Murphy, Chin Han
[Policial, 152 minutos]

Com o surgimento da ameaçadora figura do caótico Coringa, Gotham começa a viver sob constante ameaça enquanto Batman, Tenente Gordon e Harvey Dent tentam tirar a cidade da mão dos corruptos. O anarquismo e a genialidade da figura misteriosa, porém, apenas leva todos os três à seus limites, modificando direta e indiretamente seus emocionais, ao mesmo tempo que a integridade decadente da metrópole.

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” é um milagre. É como aqueles cometas especiais que passam uma vez na vida e outra na morte. Depois de ter resgatado o bom nome do herói há três anos, com o excelente e denso “Batman Begins”, Christopher Nolan, o cineasta até então tímido e de projetos mais experimentais (todos notáveis) havia ganho nosso respeito. Porém, apesar da grande antecipação, acredito que poucos previram até que ponto ele levaria sua ambição. É aquele raro exemplo de um blockbuster que simplesmente desgarra de todas as restrições impostas sob ele e se transforma numa verdadeira obra de arte. O que Nolan criou aqui é nada menos de que cinema primorosamente concebido, unificando a ambição clara e óbvia de entretenimento, ao arquitetar cenas de ação de intenso valor estético, com engenhosidade cinematográfica, ao introduzir um roteiro tão introspectivo quanto a direção de Nolan foi visionária. Não é fácil encontrar defeitos neste filme, especialmente se você está sendo tão entretido e impactado pela sua força que você nem se importa em procurá-los. Porém, ainda revendo ao filme, percebe-se que se trata mesmo de um cometa e não um simples blockbuster de verão. É puro cinema. Feito com arte e, principalmente, paixão.

Mas se ele foi concebido com paixão, tal sentimento é o que ele menos transmite quando observado sob o aspecto do mundo que retrata. Fazendo jus ao seu título, o filme realmente é sombrio, assumindo um clima de terror extremamente tenso sem unca abrir mão do realismo. Tal clima, em um filme altamente atmosférico, ganha um peso a mais com a figura de o Coringa. E é nisso que é estabelecido, de forma ainda mais exemplificada, o amadurecimento do filme quanto aos outros filmes da herói. Burton fez aqueles dois primeiros imaginativos e divertidos filmes, e todos se lembram do Coringa engraçado, bizarro e ótimo de Jack Nicholson. Mas aquilo era puro bom humor. E, ainda que o novo Coringa arranque inúmeros sorrisos do espectador, é mais pela sua figura fascinantemente macabra e sinistra do que pelo seu humor, que é tudo menos politicamente correto. As piadas do Coringa, em geral, causam o ranger dos dentes. E é nesse mundo pessimista, pesado e denso que abordamos ao adentrar o filme. É o primeiro à isolar completamente o nome do herói no título original, e por vários motivos. Primeiro que essa obra é muito mais do que um mero filme de super-herói, segundo que, como pudemos tirar do defecho poético emblemático, o personagem possui um caráter muito mais profundo e multi-dimensional do que poderíamos esperar.

E, assim, o complexo mundo vai se desenrolando. Em seu núcleo, um grande épico criminal, que retrata Gotham com um realismo que nos traz de volta à nossa própria sociedade. Se o primeiro filme de Nolan para Batman era sobe o medo e em como uma figura impotente como Bruce Wayne se apoderou deste medo em um mundo sendo devorado por ele, esta continuação trata da fragilidade do ser humano em sucumbir a esse medo em um tempo pessimista, muito como os dias de hoje. É sobre essa fragilidade humana e sobre os males que podem habituar nosso interior. É sobre escolhas, acima de tudo. É também sobre a nossa triste, trágica e corrompiada sociedade, que se afunda, a cada dia, mais no obscuro. No desfecho do filme, não é apenas a figura de Batman que vai sendo devorada pelo escuro, mas nossa imagem de herói, nossa esperança. Nesse meio, diálogos brilhantes se unem aos personagens fascinantes, apoiados pela estrutura genial de toda a metragem, orquestrada por uma linguagem cinematográfica primorosa de Nolan e um roteiro monumental em sua composição. O longa não perde o fôlego, o ritmo é tão ágil que as duas horas e meia poderiam ser três inteiras que nem iríamos notar e a força de seu entretenimento tão imensa que nos manda para fora da sala como se acabássemos de ter uma epifania. Aquela realização soberba de que o blockbuster perfeito havia sido concebido. Mas limitar tudo à essa definição é lastimável.

O elenco ta impecável. A atuação do sempre excelente Christian Bale satisfaz, mas abre lugar para o brilho e o torento da performance singular e arrebatadora de Heath Ledger, em desempenho extraordinário. Uma atuação para a história e, infelizmente, para nunca mais ser repetida pelo genial ator (destaque à cena do interrogatório, intensa e magistral). Aaron Eckhart, com um dos personagens mais interessantes da saga criminal, se revela igualmente eficiente em seu desempenho da figura trágica de Harvey Dent e sua transformação esperada, ainda que surpreendente. As três performances formam um estudo fascinante sobre a ambiguidade do homem. Sua dualidade e sua capacidade de realizar atos sombrios, oferecendo um desafio a seus personagens ao fazê-los buscarem o herói ou o vilão que existem dentro de sí mesmos. E assim, surge aquela fragilidade. Notável ainda o ótimo Gary Oldman. Ainda técnicamente primoroso, o filme foi fotografado com a mesma densidade com a qual foi escrito e os movimentos de câmera ousados capturam perfeitamente a direção de arte magnífica, evitando sempre o exagero, fazendo prevalecer mesmo o real. Não esquecendo da montagem, rítmica, acelerada e essêncial, além da trilha sonora única, que realça todo a tensão, o mistério e o drama trágico do filme, atingindo um ápice excepcional ao introduzir um pouco de anarquia à alma do filme. E toda essa sincronia sinfônica é o que fez deste exemplar um dos mais belos filmes do ano, e a melhor obra do gênero. É sobre muito mais do que poderíamos imaginar. Mas, acima de tudo, é sobre como Batman é muito mais do que um herói, transformado pelas suas escolhas e modificado pelo seu meio. E se Batman é mais que um herói, assumindo sua complexidade, é necessário notar que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” também não é um simples filme de gênero, estabelecendo seu brilhantismo.

Nota: 9,5

SINDICATO DOS CINÉFILOS: 91% (+)


Responses

  1. Quando saí do cinema, achava um filme cinco estrelas, porém hoje fico com 4 estrelas. Talvez o que tenha ficado comigo foi a atuação de Heath Ledger, pois tenho alguns problemas com a direção e certas escolhas no roteiro, mas ainda é bom.

  2. É um belíssimo filme. Acção trepidante de cortar o fôlego. E, claro, Heath Ledger está simplesmente fantástico. Que actuação!!!!!

    9/10.

    Abraço.

  3. Que bom que você também gostou de “O Cavaleiro das Trevas”, para mim é um dos três melhores filmes do ano ao lado de “WALL-E” e “Sangue Negro”, por isso mesmo minha nota não poderia ser outra: 5 estrelas. E concordo com você, o elenco está impecável, cada um melhor que o outro! Só não gostei daquela voz estranha do Batman ;)

  4. Olha, o filme é muito bom, mas eu não consegui gostar TANTO do filme como várias pessoas gostaram, mas é um bom filme sim, um dos melhores do ano.

  5. Como você sabe, gostei bastante do filme, do Heath Ledger e todo aquele bla bla bla tradicional de todo mundo. Mas eu gostaria de defender a produção em si (magistral e muito bem feita), que é cheia de grandes pontos positivos. O filme não é só Heath Ledger, como o “povão” aponttou.

  6. Simplesmente fantástico! Fodástico! hehehe ainda quero ver de novo!

  7. Realmente, a descrição de ‘épico do crime’ é perfeita. E será q alguém tira o Oscar do Heath Ledger?

    Abs!

  8. Bom, para mim, foi fácil encontrar defeitos neste filme, especialmente no que diz respeito ao roteiro. Entendo reações entusiasmadas como a sua, afinal não é comum vermos um blockbuster tão bem dirigido e que trata de temas tão complexos, mas, diante de tanto barulho, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” não justifica o auê. Continuo preferindo “Batman Begins”.

  9. Wally, preciso ser justo. Não gosto de super-heróis, hahahahahaha.

    Batman Begins é excepcional. Mas TDK é impressionante… achei tudo muito bem produzido, realizado, dirigido. Heath Ledger absurdamente memorável.

    Boa semana! Abs.

  10. THE DARK KNIGHT é um marco, e muitos fatores devem ter contado para torná-lo tal, e as qualidades ressaltadas em seu texto sem dúvida são um deles. Incrível um filme denso, negro, complexo e seriíssimo ter arrebatado um público tão grande.
    Mas não faço parte do hype que o considera um dos melhores filmes de todos os tempos, não.
    Parabéns pela crítica, Wally.

    Cumps.

  11. Eu gostei muito do filme. Pela primeira vez saí do cinema com a impressão de que tinha visto uma adaptação fiel às histórias em quadrinho.
    Mas, ainda assim, não acho que o filme seja perfeito.
    Ledger está monstruoso! Uma pena que ele já não esteja mais aqui!
    Beijocas

  12. Esse filme pra mim foi perfeitoo! Achei otimo, foi muito alem do que eu estava esperando que fosse! Coringa recebeu o grande destaquee! o ator fez um excelente trabalho!

  13. Adorei… tenho quase certeza que irá figurar entre os 5 melhores da minhas lista de 2008…

    vlws

  14. Resumindo: “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é uma boa pedida, mas que, infelizmente se perde no roteiro devido a tantos antagonistas. “Batman Begins” é superior porque tem uma história mais bem fundamentada conciliada a uma técnica impecável.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

  15. A trilha sonora que tenta colocar tensão onde não existe me incomodou um pouco. Pontos para a ótima direção de atores, e a própria direção de Nolan!

    Abraço!

  16. Eu concordo com cada palavra da Kamila. Para ser um aspirante a “O Poderoso Chefão”, Christopher Nolan tem que ralar muito! O que acontece em “O Cavaleiro das Trevas” é o mesmo que se deu no primeiro filme do morcego nos cinemas pelas mãos de Tim Burton: tem uma ou outra qualidade, mas só é o que é por causa do Coringa.

  17. Um dos melhores do ano! Filmaço! Já elogiei demais THE DARK KNIGHT. Até por isso, Nolan tem um pepino pra aprontar um terceiro filme no mesmo nível, porque melhor que THE DARK KNIGHT, acho impossível.

    Abs!

  18. Acho que agora é oficial: só eu nao vi o Cavaleiro das Trevas em todo o planeta Terra.

    Abraços!

  19. Lucas comigo foi o contrário. O filme foi só crescendo na minha cabeça e vi mais uma vez para ter certeza que não se tratava de um simples deslumbramento. Mas não era. O filme realmente é magnífico!

    Red Dust concordo em tudo!

    Vinícius que ótimo que concordamos. E para mim, é um dos 5 melhores do ano. A voz me incomodou de início, mas depois fui entendo que era necessária.

    Mateus eu amei! Achei sim um dos melhores do ano também.

    Matheus Ledger pode ter sido o motriz mas você está plenamente correto: o filme vai muito além.

    Robson isso mesmo. Vi duas e quero ver muitas mais.

    Anderson funciona mesmo. E, ainda tenho esperanças que não. Ele merece!

    Kamila eu vi muito e além. Amei o filme e gostei mais do que o Begins. Mas entendo sua opinião.

    Kau e o incrível que o filme nem parece ser de super-herói. É maravilhoso mesmo…

    Gustavo é muito bom saber que o filme mereceu todo o seu sucesso. Mas, concordo, não é um dos melhores de todos os tempos. No ano, porém, está entre eles.

    Cecília talvez não exatamente perfeito. Mas chega à milímetros de distância!

    Lucas eu esperava um filme admirável. Mas não sabia que seria tanto mesmo…

    Sérgio idem!

    Anderson discordo. É a quantidade de antagonistas que dá ao filme todo o teor poético e valida seu comentário sobre a ambiguidade humana. Prefiro ele à Begins.

    Pedro amei a trilha! E todo o resto…

    Alex não é nenhum “O Poderoso Chefão”, isso é óbvio. Mas dentre do gênero, causou uma revolução tão impressionante quanto o filme de Coppola causou no cinema naqueles dias. E discordo, o filme é muito mais que o Coringa, ainda que seja ele o motriz.

    Otavio é o medo depois do delírio. Muito medo, alias…

    Hélio corra! Simples assim.

  20. TDK beira a perfeição

    disseste bem foi um filme feito com paixão

    acho espetacular

  21. Jonathan é isso mesmo, cinema com paixão e perfeição. Um espetáculo.

  22. […] elenco bastante experiente e recompensador, que carregam o filme quando este falha. Morgan Freeman (Batman – O Cavaleiro das Trevas), já conhecido (e satirizado) pela sua presença como narrador em tantos filmes, aqui é o olho do […]

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