Publicado por: Wally | Domingo, Setembro 21, 2008

A Espiã

Luxúria e perigo

Durante a Segunda Guerra Mundial, o filme foca a história de uma garota Alemã Judia que escapa por pouco da morte da guerra na Holanda, apenas para depois se juntar à resistência em busca de respostas acerca de quem traiu sua família quando eles tentavam cruzar para terra protegida. Rachel Stein, a alemã, logo começa a trabalhar como uma espiã, fazendo serviços simultâneos para ambos os lados.

Dono de uma filmografia interessante, Paul Verhoeven nunca foi um diretor do qual estimei. O diretor europeu já me deixou impressões negativas diversamente, sendo seu único acerto comigo o clássico “Instinto Selvagem” que, ainda assim, é um filme imperfeito. Me surpreendi, por isso, ao me deparar com um thriller de guerra maduro como “A Espiã” que, mesmo com suas falhas, consegue resgatar os antigos elementos do cinema do cineasta e trabalha-los a favor da narrativa, como a sexualidade, o suspense e o melodrama. Talvez seja a saída do diretor estrangeiro de Hollywood e sua volta ao cinema de sua origem que tenha lhe feito tão bem a ponto de garantir uma direção mais segura, focada e sim, diversamente inteligente. O seu filme pode percorrer pelo melodrama continuamente, mas é inegável que encontremos valores admiráveis ao longo da sessão.

Acima de tudo, porém, Vehoeven arquitetou entretenimento fervoroso. Mesclando audaciosamente climas de perigo e lúxuria, o longa é de uma vitalidade altamente recompensadora, te envolvendo em seu conto de guerrra melodramático mas também, bastante introspectivo. O comentário urgente que Vehoeven quer passar sobre a infinitude da guerra é extremamente esperto, nos deixando refletindo sobre algo que outro filme semelhante do gênero já havia mostrado. “Soldado Anônimo” de Sam Mendes, também toca nessa ferida de guerras diferentes mas, ao mesmo tempo, igüais em seu próposito e em sua continuidade assustadora. “A Espiã” traça esse clima de urgência e perigo muito bem, mesmo que históricamente não seja dos mais corretos e mais densos, consegue te envolver em seu melodrama e faze-lo importar por seus personagens, mesmo que estes não tenham sido desenvolvidos da forma mais profunda possível. Na verdade, se não fosse pela aura constantemente envolvente que ele empregasse ao seu filme, deixando até mesmo os quase 150 minutos quase voarem pelos olhos, ficaríamos bem menos impressionados, visto que o roteiro possui uma fragilidade bem perigosa. Ele consegue sustentar todo o melodrama e os personagens com doses de intriga, sensualidade a tensão de sempre. Felizmente, funcionou.

A intercalação genuína entre cenas de intriga, sexo e violência é, por isso, primordial para a construção do filme, que é bom cinema, independente de ser históricamente e politicamente superficial. A direção pode ser focada no melodrama, mas o ritmo é ágil o suficiente para casar admirávelmente bem com toda a trama, bem instigante e interessante. O melhor de tudo deve ser o diferencial em relação ao protagonista do filme que é, acima de todas as chances, uma mulher, fazendo papel de heroína em um tempo conturbado onde não se sabia distinguir heróis de vilões. E assim entra Carice van Houten que, além de cantar maravilhosamente bem no filme, é também uma boa e competente atriz, empregando à personagem uma sensibilidade necessária, em contraponto à sua postura sempre audaciosa frente às autoridades e às leis impostas em um tempo de opressão. Ela faz uma representação forte da postura de uma mulher independente indo contra preconceitos e homens fracos. Ela é, em sí, a essência do filme.

Ainda tecnicamente verossímil e belo, “A Espiã” é o filme alemão mais caro da história, e faz por merecer o título. Cenários autênticos, figurinos bem desenhados e uma atmosfera habilmente impregada. É, na verdade, um filme bem texturado e arrojado, cujas falhas residem mesmo na tendência ao melodrama contínua do diretor e o roteiro que possa apresentar fragilidades ao não se comprometer a ser de todo históricamente correto ou ao menos politicamente genuíno. Encontra seus maiores méritos em seu elenco que, ao lado da bela Houten, possui o talento sempre admirável de Sebastian Koch e também de Thom Hoffman. Não esquecendo, claro, de sua visão pessimista realmente valiosa sobre o estado antigo e atual de guerras e conflitos. Sobre intrigas, decepções, mentiras e trapaças, “A Espiã” é, acima de tudo, sobre uma mulher e sua guerra, seja a pessoal, passando por seus sentimentos de perda e remorso, ou a que viveu intensamente com a Alemanhã. Tudo muito bem desenhado por Verhoeven que, finalmente, ganhou meu respeito.

Nota 8,0

Zwartboek (2006)
Direção:
Paul Verhoeven
Roteiro: Gerard Soeteman, Paul Verhoeven
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Rejin, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel
[Drama, 145 minutos]


Responses

  1. Todos têm recomendado o filme. Ainda não vi, mas é um dos que tenho na lista para alugar no clube de DVD.

    Abraço.

  2. Já tinha ouvido falar bem, mas depois dessa sua crítica vou certamente dar uma procurada no filme.

    Abraço
    Mateus

  3. Nao gosteii.. nao sou muito fã desses filmes passados em períodos de GUERRA!

    eai mudem o LINK do blog parao WODRPRESS AE!

    Tb indiquei vcs a um premio la no bloG! Abraços!

  4. Nesse filme vemos muitas características do cinema de Paul Verhoeven, não exatamente muito bem trabalhadas, mas que ganham um contexto interessante pelo tempo histórico da trama. Gostei muito da atuação do Sebastian Koch, além da revelação Carice van Houten. Abraço!

  5. Tens aqui um excelente blog. Parabéns!

    Abraço.

    http://ante-cinema.blogspot.com/

  6. A direção de arte e o figurino, pelas fotos, passam uma boa imagem do filme para quem ainda não viu, como eu.

    Abraço!!!

  7. Embora não conheça tão bem o cinema de Verhoeven, tanto o pano de fundo quanto o gênero são atraentes. Uma trama que comenta sobre a infinitude da guerra há de render coisa boa nas mãos de um veterano.
    Recomendação anotada.

  8. Red Dust fará muito bem em alugar o filme.

    Mateus procura sim, vale a pena.

    Lucas já estou mudando o link e muito obrigado pela indicação! Essa semana eu publico.

    Vinicius exatamente isso que disse! Vários elementos de Verhoeven são resgatados aqui, mas de uma forma mais elegante. E o elenco é mesmo muito bom.

    Fernando muito obrigado. Gostei bastante do seu. Estarei te linkando em breve.

    Pedro procura ver. Não é só a parte técnica que se destaca.

    Gustavo nem eu conheço muito, mas aí é melhor ainda. O cineasta não possui muitas cartas boas por debaixo da manga, mas este sim é valioso.

  9. Eu adorei “A Espiã”. Quando o assisti, ficou até difícil de perceber que era mesmo uma obra do Paul Verhoeven. É um longa sofisticado, com um roteiro de humor original e que mescla esse caráter histórico com elementos de sexualidade, mas sempre com muito bom gosto. Além da parte técnica, o elenco do filme é maravilhoso.

  10. Kamila é isso mesmo. Um filme bem arquitetado que, apesar das falhas, nem parece ter sido dirigido por Verhoeven.

  11. Wally, o holandês Paul Verhoeven tem alguns filmes excepcionais em seu currículo:
    1. O soldado de laranja;
    2. Louca paixão;
    3. Conquista sangrenta;
    4. Robocop – o policial do futuro;
    5. Total recall – O vingador do futuro;
    6. Tropas estelares;
    7. Instinto selvagem.
    Ele dirigiu ainda “Showgirls”, um filme horrível que ganhou o Framboesa de Ouro de pior filme, em 1995. Como um sujeito bacana que é, Paul Verhoeven foi até a cerimônia receber o prêmio… Caso raríssimo!
    Ele é o típico cineasta “contrabandista”, ou seja, em suas histórias há sempre um subtexto crítico sobre a vida em sociedade. Às vezes, ele passa do ponto, como em “Tropas estelares”, que alguns críticos consideraram “nazista” ou “fascista”. Na verdade, ele faz uma sátira a uma sociedade regida pelo totalitarismo. Mas quando ele acerta a mão, gera obras primas como “Robocop”, definitivamente um dos melhores filmes dos anos 80.


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