Publicado por: Wally | Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Três Homens em Conflito


Tinta de pólvora, canvas do oeste

No velho e perigoso oeste, a vida de três homens com interesses similares e objetivos diferentes unem-se e acaba por modifica-los um ao outro, na jornada ofegante aos confins do oeste e ao extremo da violência.

A arte realizada no primoroso “Três Homens em Conflito” é uma cuja magnitudade vai além do que o puro vocabulário possa descrever. Talves a caligrafia artística poderosa da China consiga, mas simples palavras não fazem jus à estranha, surpreendente e inquietante obra-prima de Sergio Leone. Surpreendente principalmente para aqueles – como eu – que nunca foram de gostar do gênero “bang-bang”. Admirador dos mais recentes, sejam eles “Os Indomáveis” e principalmente “Os Imperdoáveis”, me peguei não só asstindo ao canvas delirante pintado por Leone, mas me peguei boqui-aberto ao admirar a beleza constante e o ritmo quase que perfeito de todo o filme, que parece impecávelmente concebido. Desde seu início ágil até seu fim melancólicamente poderoso, a jornada proporcionada é gratificante sob mais de uma maneira. Uma revisão é obrigatória. Arte de verdade como essa, bela, monstruosa e profunda, difícilmente encontra um meio por onde possa ser descrita. Leone pegou suas balas mais poderosas e polidas, arrumou seu canvas de uma forma minuciosa, e começou a pintar sua Mona Lisa, em uma obra de arte que resgata o espírito do velho oeste ao mesmo tempo que as paixões e o poder por trás dos homens que nela se habitaram.

Abrindo com créditos iniciais eletrizantes e já definindo o ritmo ágil da sessão, o filme possui três horas de duração, masnunca, em nenhum segundo, consegue nos cansar. Méritos merecem ir à montagem, realmente inovadora e essêncial no que se diz movimentação da trama e estabelecimento de um ritmo necessário. Sem contar sua união majestosa com a fotografia revolucionária e as idéias ousadas do próprio Leone. É uma mistura de imagens do amplo oeste com “closes” dos personagens que funciona com um primor único, exaltando não só uma vida por trás do local onde retrata suas histórias, mas criando um estilo próprio e uma forma narrativa estranhamente contagiante. Parecemos testemunhar a ação não apenas como observadores, mas como os próprios personagens enxergam aquele mundo. Em outras palavras, não é só o roteiro que faz uma bela construção de personagem, mas a parte técnica é essêncial no que diz nos enviar a percepção exata de cada um deles, sendo os principais, claro, os três homens do título, que por sua vez parecem como influências em diversos filmes do gênero.Mais recentemente, o próprio “Os Indomáveis”.

Os atores igüalmente realizam um belo trabalho. Enquanto Eastwood abraça seu personagem com diversos tíques e uma personalidade própria (provavelmente já estabelecida nos outros filmes da trilogia de Leone anteriormente), Eli Wallach faz um bandido feio intensamente enquanto Lee Van Cleef faz o possível para tornar seu personagem o mais sombrio e mal possível. Os três estabelecem o timing, a parte técnica o ritmo e Leone faz seu trabalho magistral tanto quanto contador de histórias quanto de apaixonado pelo que faz. Sente-se, ao assistir o filme, o quanto ele foi passionalmente concebido. Acabamos por sentir isso e o contageio torna-se inesperadamente resplandescente. É muito mais do que um mero filme de três homens mercenários no velho oeste atirando em um ao outro. É uma poesia. Tanto narrativa quanto visual. Leone pode ter diálogos geniais, mas a força motriz do seu filme é na arte que transmite à nossa ótica. Seu canvas é um cujo poder poético, lírico e alegórico torna-se pungente e fundamental. Seguimos, portanto, a jornada desses cavaleiras oeste adentro sempre com um olhar desafiadoramente original e diferente, porque Leone nos deu essa visão meticulosa no momento onde decidiu realizar uma obra-prima da arte e do cinema.

Deixando para o último o melhor, não teríamos “Três Homens em Conflito” sem aquela trilha sonora simplesmente fenômenal de Ennio Morricone. O tema do filme, que hoje é copiado, homenageado e reciclado incansávelmente, já abre o filme com um furor intenso e extremamente divertido. A trilha exuberante é uma mistura de sons, gritos, berros, instrumentos e típicos barulhos do oeste, reunidas em uma seleção constantemente tensa e dramática. Como, pelo amor de Deus, não ir aos delírios na sequência onde toca “L’estasi Dell’oro” (O Êxtasy do Ouro)? Foi tão bem filmada, composta, idealizada e atuada que é de dar arrepios. Seu efeito em nós é permanente, memorável e sua beleza intensa estarrece. O filme todo de Leone é uma grande obra de surpresas, beleza e poesia. Um retrato sem dúvida alguma impecável em sua natureza e primordial para a história do cinema.

Nota: 9,5

Il Buono, il brutto, il cativo. (1966)
Direção:
Sergio Leone
Roteiro: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vicenzoni, Sergio Leone
Elenco: Eli Wallach, Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Luigi Pistilli, Aldo Giuffré
[Faroeste, 179 minutos]


Responses

  1. Provavelmente o melhor western já realizado e um dos meus filmes preferidos. O “trielo” final transcende a essencia temporal e por si só, pode-se considerar uma obra prima!

  2. Com um texto destes, acho que é uma vergonha eu ainda não ter conferido “Três Homens em Conflito”. Na realidade, assisti a poucos filmes do gênero western e esta é uma lacuna que, como cinéfila, tenho que corrigir.

  3. Nem leio. Vivo em falta com o cinema clássico. O tempo também não me ajuda!

    =D

  4. esta na minha lista para ser assistido.

  5. Wally, eu nunca vi esse filme! =/ Meu irmao, no entanto, o adora, tem em casa e tudo. Vergonha! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  6. Fazia tempo que eu não lia uma crítica tão apaixonada e segura da maestria da obra analisada. Sério.
    Espero que isso faça com que eu tire meu DVD da gaveta e finalmente assista a esse clássico seminal. Leone partiu cedo; poderia estar até hoje fazendo seus westerns operáticos.

  7. Estava justamente procurando clássicos dentro desse gênero pouco conhecido e sua crítica me animou para ver esse “Três Homens e um Conflito”. Do filme, só conheço o tema principal mesmo, realmente um dos mais celebrados da história do cinema. Enfim, mais um para a lista. Grande abraço!

  8. Esse é o filme de paixão do meu pai, o filme preferido dele – e com o qual o presenteei no último Natal. Até então eu mal tinha visto, só me lembrava mesmo da trilha sonora clássica, perfeita e irretocável do Morricone, um dos três melhores compositores de soundtracks, na minha opinião. Aí resolvi assistir e tomei um choque: que filme maravilhoso! É o ápice dos spaghetti-movies do Leone, genial como sempre. E mesmo a duração longa – 187 minutos – nem se percebe. Passa voando. Como numa viagem.

    Um grande abraço.

  9. Infelizmente não assisti esse filme. Mas quero muito ver. Do Leone só vi a obra-prima Era uma vez no Oeste.

  10. Este filme fecha brilhantemente a “Trilogia dos Dólares” e coloca o nome de Sérgio Leone entre os grandes mestres do gênero, porém considero que ele conseguiu se superar no próximo filme “Era Uma Vez no Oeste”, onde manteve a parceira com Ennio Morricone e digiriu um grande elenco, encabeçado por Henry Fonda e Charles Bronson,

    Abraço

  11. Obra-prima máxima de Sergio Leone! Belo texto, Wally! Estás cada vez melhor nisso! Escreva com paixão! Não se esqueça e é isso aí!

    Abs!

  12. Um dos grandes westerns. Uma enorme lição de cinema. Ah… e depois temos Clint Eastwood que é grande na sua interpretação e dá uma enorme lição… :)

    10/10.

    Abraço.

  13. Eu vi o filme recentemente, sabia que estava diante de uma obra de arte. O filme é demais!

  14. Pois é clássico… e muita coisa que se faz e que se fará ao longo dos anos no cinema se deve a Sergio Leone, e o Ennio construiu com sua trilha sonora o que se pode chamar de um imaginario coletivo, quando se pensa em filme de bang bang, ja se imagina e se ouve a trilha de Ennio

  15. la trilha sonora por favore????


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