Publicado por: Wally | Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Amadeus


Agonia e êxtase

Antonio Salieri é um ambicioso compositor que atingiu a consolidação na carreira, mas não a consagração. Sua paixão pela música de Mozart talvez o tenha afetado demais. Desejando sempre ter o talento do compositor idolatrado, fica estarrecido ao conhecer o homem por trás da música e ver uma criatura ingênua e deplorável. Indignado com Deus por ter dado à Mozart o dom e não a ele, leva sua obsessão aos limites.

O conto de Milos Forman sobre um mestre e um escravo é sem dúvida, uma das histórias mais bem contadas e apaixonantes que já presenciei do cinema. O épico é construído luxuosamente em meio à visuais grandiosos, incluindo uma direção de arte primorosa e aspectos técnicos suntuosos, como a fotografia marcante (incluindo ângulos sensacionais) e a montagem fundamental, que nunca deixa que os 180 minutos de filme se arrastem ou cansem. Somos pegos de jeito por toda aquela suntuosidade e deixados à deriva da fantástica história sobre um escravo da música, da obsessão e da inveja. O personagem de Antonio Salieri é fascinante por toda sua complexidade emocional e psicológica, construída de uma forma impecável pelo roteiro meticuloso, ganhando traços elegantes na direção sempre atenciosa de Milos Forman, que vai nos aprofundando aos poucos no mundo de Salieri, que vai sucumbindo para o tenebroso e o sombrio a cada quadro de filme. A atmosfera do filme também vai lentamente se tornando mais e mais pesada, carregada de algo denso quase sufocante. Nosso temor pelo destino de Salieri como pessoa se junta ao triste fim da carreira de Mozart.

O nome do filme, outrora, não poderia ter sido mais perfeito. Aos poucos vamos percebendo o que Forman está querendo comunicar com seus visuais influentes e claro, a música onipresente sublime e maravilhosa, ao retratar Salieri como um ser moralmente decadente e sua caída total na escuridão, incluindo a perda de sua fé em Deus. Ao momento que dispõe de um crucifixo no fogo, Salieri escolhe o verdadeiro Deus que predomina sua vida: o que é transmitido por Mozart e, portanto, começa a responder reservadamente aos impulsos das músicas do mestre. Por outro lado, Salieri em pessoa começa a brincar de Deus ao começar a manipular a vida do pobre Mozart, em resposta aos seus próprios impulsos vingativos e obsessivos. A partir disso, são apenas eles naquele mundo. E nós nos mantemos como os juízes, observando os atos de Salieri e temendo por ambos mestres, um da manipulação, o outro da arte.

As atuações também são louváveis. O Salieri de F. Murray Abraham é a melhor performance de sua carreira e uma personificação intensa. Abraham consegue despir as emoções do personagem à audiência ao mesmo tempo que o torna mais complexo, escondendo por trás de uma máscara de elegância e competência. Tom Hulce, por sua vez, não decepciona, e entrega um Mozart soberbo, seja em sua fase melancólica ou em suas extrapolações exuberantes, incluindo uma gargalhada hilária. Elizabeth Berridge também surge com admiração como a esposa de Mozart, entregando uma nuance sincera e sensível, conseguindo realmente comover. O triângulo predomina o filme todo, mas é inegável que toda minha fascinação esteja mais carregada mesmo no personagem de Abraham e toda sua obsessão não pela pessoa de Mozart, mas por sua alma musical, à qual queria possuir vigorosamente. Torna-se evidente durante os espetáculos de ópera de Mozart e, principalmente, na cena onde Salieri tenta arrancar as últimas notas de genialidade e magia de seu Deus.

É uma obra-prima cinematográfica verdadeira única em sua composição e emblemática na impressão que deixa no espectador. Seus questionamentos religiosos soam autênticos e subversivos, e seu estudo de personagem é incrívelmente extraordinário em suas implicações. “Amadeus” traz a tona os sentimentos humanos mais complexos e sombrios ao mesmo tempo que entrega uma reflexão tenebrosa sobre os limites e os confins humanos. É uma enigmática jornada pela força da arte e um pungente retrato do poder que a religião exerce sobre as pessoas. O filme então fascina com sua densidade psicológica e impressiona pela sua maturidade e toda a desenvoltura com o qual o conto foi concebido. Algumas cenas são puro êxtase cinematográfico, dotadas de uma música estônteante. Mas a música é apenas um dos meios do filme de transmitir sentimentos, sejam estes dor, ódio, amor e paixão. O filme é lírico por nos carregar na força dessa música e na profundidade simplesmente fantástica de todos os personagens que nos são apresentados. É paraíso suntuoso, mas também um desafio à nós mesmos, como seres humanos, vítimas de impulsos e emoções carregadas. O filme te assombra. E no melhor sentido da palavra.

Nota [9.5]

Amadeus (1984)
Direção:
Milos Forman
Roteiro: Peter Shaffer (baseado em sua peça)
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Roy Dotrice, Simon Callow, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay
[Drama, 180 minutos (versão do diretor)]

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Responses

  1. Uma escolha bem lembrada, Wally. Um filme de sucesso que parece estar esquecido por muitos na actualidade. É mesmo uma fita assombrosa.

    9/10.

    Abraço.

  2. Concordo com todo seu último parágrafo, Wally. Um resumo perfeito do que é “Amadeus”. A única coisa a lamentar no filme é o fato de que Murray Abrahams e Tom Hulce praticamente sumiram após este filme!

  3. Um grande filme… que eu cometi o displante de ainda não ter visto. O que eu conheço da película é via YouTube. Sempre passo na locadora, o vejo nas prateleiras, abandonado, e não alugo. Preciso corrigir essa gafe.

    Wally,
    estou começando a montar minha monografia de fim de curso sobre “A Influência dos Blogs na Crítica Cinematográfica” e procuro por donos de blogs antenados sobre a questão para prestar um depoimento a ser citado em meu trabalho e acredito que você se classifique bem entre essas pessoas. Se possível, entre em contato.

    Mídia e cultura:
    http://robertoqueiroz.wordpress.com

  4. Como gostaria de compartilhar essa opinião maravilhada, que aproximadamente 100% dos cinéfilos também têm. Confesso que, tendo visto o filme algumas vezes em VHS, há anos, não me pareceu grande coisa. Talvez o DVD resgate algo de sua grandeza.

    Cumps.

  5. Hmm… paraíso suntuoso… muito bem! Quando vejo este filme extraordinário, eu sempre fico com a risada do maldito Mozart na cabeça. Como Saliere ficou… Obra-prima! E sem dúvida!

    Abs!

  6. Consegui o dvd desse filme hoje!
    devo ver essa semana!

  7. Conseguiu expor o seu deslumbre sobre esse filme?
    Agora é só fazer de Três Homens em Conflito …

    É aquela coisa, existe filmes que propõem momentos inigualaveis. ainda bem que você sentiu nesse filme forte e inesquecivel …

    abraços

  8. A cena da composição do Requiem (Lacrymosa) é fantástica.

    E adoro a risada do Mozart.

  9. Amadeus é o único dos indicados ao Oscar naquele ano que eu preciso ver. Deve ser filmaço!

    Abraço!

  10. É isso ai Soares, assistindo filmes de mais qualidade.

  11. Nossa. vc deu 5 estrelas pro filme…. eu nao gostei nao, não é um filme que eu veria!

    — Nossa ciao, como vc penso que Heroes tinha sido cancelado ????

  12. Este filme é grandioso e uma verdadeira obra-prima. Milos Forman conseguiu fazer pelo menos 3: Amadeus, Um Estranho no Ninho e Hair.
    Todo o ar de inveja sentido por Salieri e ao mesmo tempo veneração ao gênio Mozart é muito interessante de se ver, algo que é mostrado também no recente O Assassinato de Jesse James , por exemplo.

  13. Sempre fiquei muito curioso em relação a esse filme, afinal é um filme com música (mas não especialmente um musical, pelo que entendi) que venceu vários Oscar, e isso é bastante raro. Adorei o texto, me animou para procurar o filme. Abraço!

  14. Acredita que eu não vi? Eu tenho ele aqui, mas até hj nunca vi. Heresia, não? =S

  15. PS- Valeu pelo meme! Semana q vem (acho) eu posto!

  16. Essa gargalhada do Mozart eh inesquecivel. E segundo sua biografia, ele tinha essa risadinha boba de fato, sem contar nos seus modos peculiares, anos-luz de distancia dessa imagem de “escolhido por Deus” que o Salieri imaginava. Morro de rir com o Salieri chocado e vermelho de inveja. Nota 10 esse filme.

  17. ♦Red Dust realmente é de surpreender como uma obra como esta foi sendo esquecida.

    ♦Kamila infelizmente isso é verdade. Dois talentos perdidos após um espetáculo como esse.

    ♦Roberto procure vê-lo. Vale muito a pena. E já respondi seu requerimento: Estou dentro!

    ♦Gustavo tem muitos filmes que fui notar sua grandiosidade apenas após uma revisão. Veja novamente. Mas com “Amadeus” a fascinação não demorou a me atingir.

    ♦Otavio realmente a risada dele paira na cabeça. E é mesmo uma obra-prima.

    ♦Matheus não esquece de me informar sobre sua opinião!

    ♦João Paulo e senti mesmo! Maravilhoso.

    ♦Lucas concordo plenamente.

    ♦Pedro não perca a oportunidade de ver.

    ♦Luis Fernando tentando sempre né…

    ♦Lucas primeiramente, meu nome não é “ciao”, é apenas minha assinatura de despedida. “Ciao” é adeus em italiano. E “Heroes” foi tão criticado em sua estréia e me falaram que fracassou tanto quanto ao público que eu deduzi que seria cancelado. Que bom que não foi. Agora, Amadeus vale todas as 5 estrelas.

    ♦Ibertson o filme lembra mesmo o novo filme de Andrew Dominik. Agora, ainda não vi “Hair” de Forman, mas “O Estranho no Ninho” é mesmo fantástico.

    ♦Vinícius procure sim, é maravilhoso cinema!

    ♦Marco heresia, sim!

    ♦Romeika concordo plenamente, senti isso mesmo vendo o filme.

  18. F. Murray Abraham e Tom Hulce estão formidáveis. Mas Mozart é, sem dúvida, o actor principal. Excelente guarda-roupa. Um argumento cheio de bom humor.


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