Publicado por: Wally | Domingo, Agosto 17, 2008

Wall●E


Odisséia de uma paixão

Em um futuro distante, os humanos deixaram de habitar a terra, vivendo agora em uma nave gigante no espaço, fugindo da quantidade em overdose de lixo acumulado e atmosfera polúida do planeta natal. Para a volta dos seres à terra, foram implantados pequenos robôs para limpar a bagunça. Com o passar dos anos, porém, eles forem se desintegrando. Até sobrar apenas um. Wall•E, que questionará o motivo de sua existência ao olhar para o céu um dia e ver algo além de sujeira: Eve.

Seria extremamente cliché introduzir meu texto de “Wall•E” falando sobre o legado excepcional da Pixar no cinema e sua contribuição irreal ao mundo cinematográfico, mas é a mais verdadeira constatação. A melhor animação do estúdio (e na minha opinião, a melhor produzida em todos os tempos) chega em um tempo onde o aquecimento global está no foco das notícias e parecemos estar à beira de uma guerra ao mesmo tempo que ficamos mais e mais integrados tecnologicamente. Cheia de urgência, o filme sobre o pequeno, ingênuo e adorável robô chamado Wall•E traz consigo uma aura adulta impressionante. Foi-se o tempo inocente das animações maravilhosas da Disney que falavam apenas sobre questões morais, sobre amor e amizade. O filme do ótimo Andrew Stanton (o mesmo diretor do excepcional “Procurando Nemo”), abre com uma imagem pertubadora sobre um mundo fantasma, onde o acúmulo de lixo tornou-se maior até mesmo que os mais altos arranha-céus. O cenário remoto e triste marca, faz pensar e depois te assombra. Não exatamente pela animação visual fantástica, mas pela urgência. Pelo realismo e sim, pela genialidade, ao vermos surgir, naquele meio imundo, uma máquina que é muito mais do que fazemos dela.

Se em “2001 – Uma Odisséia no Espaço” tinhamos uma máquina robotizada que começa aos poucos a pensar por sí própria, porque não podemos ter uma máquina que começa a sentir por sí mesma? Wall•E vem de influências diretras de Chaplin, e nos remete nostálgicamente à um cinema não de diálogos tolos ou ação desenfreada, mas humor sincero e fantástica visual. Ele surge como um ser amável e logo nos primeiros minutos do filme (todos sem diálogos, por sinal), nos vemos aos poucos nos apaixonando pelo robô. E, ao surgir a mistériosa Eva, vemos desencadear um sentimento humano cada vez mais escasso nos humanos: o amor. E é estranho, quase irônico, vermos tal sentimento ser transmitido por uma máquina, que se junta à tristeza de um mundo habitado por lixo e não gente. E tudo aquilo nos enche de prazer e fascinação, assistir adorávelmente e confortávelmente o aflorar de uma clássica história de amor entre duas máquinas em um lugar desolado e aterrorizante. O humor domina, a paixão contageia e cada plano do filme nos toca com uma extrema sensibilidade. Seja a trilha sonora maravilhosa de Thomas Newman, sempre genial, ou o visual simplesmente brilhante em todos os sentidos, detalhista, significativo, vibrante e apaixonante.

O cineasta quer nos comunicar de como ainda pode existir humanidade e principalmente amor nos lugares mais improváveis. E isso se torna mais grandioso quando nós embarcamos para conhecermos o nós de amanha: obesos, ignorantes, tolos e degenerados. O futuro da humanidade é o retrocesso. Não mais andamos, nos comunicamos não diretamente mas via tecnologia e tudo que precisamos surge magicamente em nossas mãos. É a reposta dos desejos industriais e tecnológicos de hoje, mas não a resposta de nossos simples desejos e sentimentos humanos. “Wall•E” acaba nos remetendo, por isso, ao genial filme de Stanley Kubrick, que possuia um comentário sobre a humanidade tão assombrador. E vermos aquela tese e idéia que um cineasta “criou” há 40 anos se tornar cada vez mais próxima da realidade fascina e também amedronta. A maravilhosa animação da Pixar chegou para nos comunicar isso e, de certa forma, oferecer uma resposta à “2001”. O filme, portanto, é de uma complexidade assustadora. Emblemático em suas analogias, referências e comentários sociais e humanos extremamente especiais, vamos aos poucos caindo sobre a magia esplêndida de todo o espetáculo grandioso.

É refrescante constatar que no meio de tantas animações desmoralizantes e vergonhosas como “O Segredo dos Animais”, possa surgir uma obra-prima tão melancólica, bela e resplandescente como essa, que comunica milhões de palavras e sentimentos, carregada de uma irretocável atmosfera de cinema genuíno. Alias, o filme é para nos lembrar do que realmente se trata a sétima arte. É algo que vai além do óbvio e do mero divertimento fácil, é sobre amor. Nós, que somos apaixonados por essa arte tão subjugada hoje em dia, não conseguimos conter o brilho nos olhos ao chegar ao fim de um filme tão arrebatador em sua beleza e em seu espírito. Difícil também é tirar o sorriso do rosto ou as lágrimas dos olhos ao testemunharmos a saga de Wall•E e de sua amada Eve, a começar pela dança desde já clássica do casal pelo espaço, até a última redenção da humanidade quebrada pela simples tragédia do irreparável. O que precisamos saber é que nada é irreparável. Até mesmo o mundo ou nossos sentimentos intactos de seres humanos. Precisamos começar a olhar para dentro de nós e precisamos começar a sentir. Uma dica: não só veja “Wall•E”, sinta-o e, como eu, se apaixone por ele.

Wall•E (2008)
Direção:
Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Jim Reardon e Pete Docter
Elenco de vozes originais: Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, John Ratzenberger, Kathy Najimy e Sigourney Weaver
[Animação, 98 minutos]

 [Nota: 9.5]

ATENÇÃO: Me empolguei tanto escrevendo sobre “Wall-E”, que esqueci que o post da vez seria sobre um dos filmes de acervo. Mas tudo bem, fica adiado para o próximo. Mas fiquem sabendo que irei comentar sobre “Amadeus” e “Três Homens em Conflito”, cada um em uma semana.


Responses

  1. Filmes sempre nos pegam pela subjetividade, mas parece que com Wall-E é unanimidade, também pudera, o filme é maravilhoso.

  2. É dificil depender de downloads para ver certos filmes, e também é dificil diminuir em quase 100% a vida que eu levava em outra (grande, saudosa e inesquecível) cidade que morava, para ver nas telonas um filme que eu espero antes mesmo de sua estréia. E seu texto só “colaborou” com essa ansiedade.rs

    So Long!

  3. Realmente não há muito o que acrescentar, seu texto diz tudo desde o excelente título até o perfeito parágrafo final. Abraço!

  4. Esse filme consegue fazer o que muitos outros não conseguem. Envolve, tem uma moral completamente verde e sabe deixar todo mundo boquiaberto com a beleza dele. Simplesmente um dos melhores filmes do ano.

  5. O melhor filme do ano. Eu não esperava que a Pixar fosse se superar novamente depois de “Ratatouille”, mas “WALL-E” é uma verdadeira obra-prima que merece inúmeros Oscar!

  6. Eu vou ter que esperar o dvd, perdi a chance de ver no cinema.

    Abraço!

  7. Wally, eu gostei muito de “Wall-E”, filme que considero ser o melhor de 2008, até agora. No entanto, não o considero a melhor animação de todos os tempos (continuo amando “A Bela e a Fera”) ou o melhor trabalho da Pixar (que, para mim, continua sendo “Ratatouille”). O filme só não ganha mais pontos comigo porque acho que o segundo ato da animação não é tão brilhante quanto o primeiro.

  8. é um filme tecnicamente impecavel, porém como você disse em uma parte especifica

    “A maravilhosa animação da Pixar chegou para nos comunicar isso e, de certa forma, oferecer uma resposta à “2001″

    Ele não quis comunicar … mais sim superar algo que o desenho nunca vai ser e nessa tentativa, se tornou apenas um 2010. um filme que se torna desnecessario ao tentar explicar algo inexplicavel … e fora a queda de qualidade de roteiro que acontece na segunda parte do longa …

    Mas deixa para lá, o filme com certeza conquistou vários corações e mentes de muitos espectadores e merecido. Apesar de não ter gostado como deveria ter gostado.

    Mas é melhor do que Ratatouille …

  9. O filme é mesmo um exagero de tão bom! Concordo com sua nota, não tinha como ser diferente. Merece todos as boas notas =D

  10. Você já sabe que eu adorei WALL-E. Viajei demais na crítica, você viu. Talvez seja o melhor de 2008.

    E depois de ler sua crítica, fiquei com vontade de ver WALL-E de novo. E olha que já fui duas vezes ao cinema…

    Pra mim, a música que toca na cena em que o Wall-E vê a Eve voando faz um dos momentos mais mágicos do cinema. Logo depois que ela chega à Terra. Sabe? Chorei ali já… E a cena da “dança” no espaço também é uma daquelas que entram para a eternidade.

    Abs!

  11. Não sou fã de animações, e só admiro mesmo as produções da Pixar. E Wall-E é dos melhores mesmo, lindo demais. Filme do ano? Acho exagero, ate pq nao gosto muito de comparar com o cinema “nao-animado”, mas é melhor que a grande maioria do que Hollywood produziu neste e no ano anterior.

    Abraços!

  12. Olá; Nossa quando as primeiras novidades sobre Wall-E começaram a surgir eu ja fiquei atento e curioso com a produção! Amoo de paixão animação e nao podia de forma alguma deixar de ver essa, que por sua vez prometia ser maravilhosa.

    Quando entrei na sala do cinema e o filme começou nao me agradei tanto com o começo, mas felizmente ao decorrer do filme as coisas melhoraram 100% e quando sai da sala ja podia dizer que foi um dos melhores que filme que vi em 2008 e tratando de animação uma das melhores com certeza !

  13. Fantástico este filme, uma grande fábula de amor e um futuro muito mais realista do que já mostrado em alguns outros longas de ficção… uma grande crítica ao comodismo… impossível não se emocionar com Wall-E

    vlws

  14. Tenho a certeza que Wall-e é optimo. Quero muito ver. Abraço ;)

  15. “Wall-e” é fantástico, não há dúvida!
    Vejo muito de Chaplin alí. A paixão cega por Eve, a timidez, a preocupação na humanidade, os olhos tristes e cômicos ao mesmo tempo, o jeito desastrado e até o fato de ser mudo. Os primeiros minutos do filme já são memoráveis, não? A Pixar é o estúdio cinematográfico que mais ama o que faz, na atualidade. E eu, respiro aliviado!

    Abraço!

  16. ♦Lucas exatamente!

    ♦Alyson a experiência foi única!

    ♦Vinícius obrigado!

    ♦Robson estas certíssimo.

    ♦Matheus não acho o melhor do ano mas é minha animação preferida EVER.

    ♦Pedro uma grande pena…

    ♦Kamila achei o segunto ato tão brilhante quanto o primeiro. Amei o filme e considero mesmo O melhor.

    ♦João Paulo a sua paixão por 2001 se misturou ao seu rancor pela Pixar e te cegou. O filme não quer copiar. A intenção de Wall-E é justamente a de homenagear a arte do cinema, e 2001 surge como principal representante do sublime, ao encaixar com perfeição na história que a Pixar quer contar. São referências e homages, não intuitos de copiar.

    ♦Marcel e merece mesmo…

    ♦Otavio é tudo maravilhoso mesmo! Estas mais que certo.

    ♦Hélio o incrível em Wall-E é justamente o de transcender o paradigma de animação e se tornar algo muito, muito maior.

    ♦Lucas o filme é show!

    ♦Sérgio verdade, a emoção é inevitável.

    ♦Francisco veja logo!

    ♦Rafael exatamente isso. A Pixar é, acima de tudo, um estúdio apaixonado. E isso é primordial. Wall-E é sublime.

  17. sem noção..
    o melhor..
    deveria sim ser o melhor do ano..
    awe..
    alguem afim de fazer amizade..
    gosto mt de ver filmes e tals.
    abração..

  18. […] mas é muito competente em tudo que preza. Então, por mais difícil que seja, esqueça “Wall•E” por um instante, e embarque no simples e belo prazer de “Horton e o Mundo dos […]

  19. […] ações, ao contrário de Martin. Também vale elogiar uma elegante e bem cômica Sigourney Weaver (Wall•E), que compõe uma personagem que sempre quando aparece garante sorrisos ou risos e, em menor grau, […]

  20. […] explora os tons mórbidos da rotina do casal e a constante mesmice desta, enquanto Thomas Newman (Wall•E) corajosamente compõe uma trilha não de ritmos catárticos, mas de uma significância cruel para […]


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