Publicado por: Wally | Terça-feira, Agosto 12, 2008

Atos que Desafiam a Morte


Ilusões do destino

Em uma de suas muitas apresentações, a ida do famoso e venerado mágico Harry Houdini para a Britânia de 1926 traz um desafio: um prêmio para quem conseguir reviver a última cena da vida de sua mãe, da qual ele perdeu sua morte. Mary McGarvie, por sua vez, é uma vidente fraude que faz apresentações espetáculares com sua filha, Benji. De olho no prêmio, Mary promete um golpe no ilusionista, mas acaba se apaixonando pelo mesmo.

Elegante, visualmente belo e com uma aura instigadora maravilhosa, a parte técnica de “Atos que Desafiam a Morte” nos ilude perfeitamente. Além disso, a diretora sensível Gillian Armstrong vai construindo um clima de beleza e mistério envolvente, mas como acontece com seus personagens, que são iludidos pelos elementos apresentados pelo destino e os truques do mesmo, nós espectádores nos sentimos um pouco traídos ao chegar ao fim do filme, ao percebermos que tudo que vimos até ali não foi o prometido. Apesar de competente e possuir admiráveis elementos em sua narrativa, é realmente entristecedor que o filme dela nunca realmente decola, e apesar de um fim poético e significativo, te deixando sentindo como se toda a jornada pudesse ter sido bem melhor desenvolvida, em questões de clímaxes e surpresas, em especial. O filme em sí, porém, é um exercício admirável em estilo e sentimento.

Construindo bem seus personagens, o longa permeia sua narrativa pelos encontros e desencontros entre mãe e filha (Zeta-Jones e Ronan) e o idolatrado Houdini (Pearce). O filme trata muito sobre a imprevisibilidade do destino e as escolhas que fazemos, que podem se tornar verdadeiros atos mortais, encontrando analogia nos truques famosos de Houdini (que por sinal são explorados friamente pelo roteiro). A satisfação é encontrada na overdose de sentimentos sempre sutis do trio central. O elenco consegue bolar boa química e se saem muito bem sucedido ao conseguir segurar nossa atenção e nos levermos até o fim de seus personagens, algo essêncial. Mas como já dito, a estética também oferece um papel fundamental. Seja a fotografia luminosa belíssima ou a direção de arte em vezes grandiosa em outras meticulosa, satisfação sempre pode ser encontrada nos aspectos técnicos. A viagem em sí torna-se mais gratificante.

Mas não se deixe ser de todo iludido pelo apresentado em tela. Ao menos a direção não é maniqueísta e os sentimentos não soam falsos. É o que me venceu no filme, o sentimento. Certos momentos parecem estar em total inércia, mas ainda assim rola um ar mágico de sentimento alí. E você sente que Armstrong realmente se dedicou ao contar essa história de paixão. O filme ainda possui cenas bem dirigidas, como o clímax contendo a revelação da personagem de Benji, que apesar de não ser surpreendente, garante uma sequência bem finalizada, principalmente em termos técnicos. O problema de tudo mesmo é que o filme não te marca ao fim a ponto de permanecer em sua memória. O vi faz mais de um mês e tenho problemas em me recordar completamente do que assisti. Minhas notas ajudaram. Armstrong tinha um trabalho em mãos que oferecia sentimento e mistério de sobra, faltou aquele desfecho pungente que deixasse tudo fresco na cabeça.

É ótimo notar que Saorsie Ronan não foi apenas uma sortuda que se deu (excepcionalmente) bem no filme “Desejo e Reparação”. Alias, se levarmos em conta tudo, a grande revelação da promissora atriz veio no pouco visto e divertido “Nunca é Tarde para Amar”, onde interpreta uma adolescente atípica memorável. Ronan está escolhendo bem seus papeis e, melhor ainda, os interepretando de forma única. O sotaque especial em “Atos que Desafiam a Morte” é muito oportuno, e a garota rouba todas as cenas onde aparece. Com isso, os pobres Catherine Zeta-Jones e Guy Pearce são deixados à deriva, mas ainda assim estão competentes. Timothy Spall também está ótimo. Seus personagens são interessantes e ambos satisfazem, mesmo que nunca fugindo do esperado. Talvez essa seja outro maior problema do filme, não conseguir ser imprevisível, como foram todos os truques de Houdini, que nunca será esquecido. Já seu filme não deve sobreviver muito tempo na memória de ninguém. Aplausos merecem ir, porém, ás intenções de Amrstrong e sua arrojada condução, além dos vários elementos positivos que pairam sobre a sessão.

Death Defying Acts (2007)
Direção:
Gillian Armstrong
Roteiro: Tony Grisoni, Brian Ward
Elenco: Catherine Zeta-Jones, Guy Pearce, Saoirse Ronan, Timothy Spall, Frankey Martyn, Martin Fisher, Silvia Lombardo
[Drama, 97 minutos]


Responses

  1. Quero conferir este filme e seus comentários, ainda que não tão empolgados, me deram esperança de encontrar algo na média!

    PS: Ótima a head do Match Point!

  2. Confesso que não tinha ouvido falar deste filme… talvez assista um dia..

    vlws

  3. Um filme que foi dizimado pela crítica especializada em Portugal, que não foi nada meiga. Aguardo pela passagem na televisão.

    Abraço.

  4. Vamos ver, quem sabe não é bom.

  5. Que a Zeta-Jones ficasse de escanteio ao lado de Saoirse (e olha que dela soh vi “Atonement”), eu ate esperava, mas o Guy Pearce tb? Essa menina vai longe. Veria esse filme apenas por ela.

  6. Esse eu tive mais curiosidade de ver por causa da Saoirse Ronan, ainda que sua participação nesse longa tenha sido pouco notada. A Gillian Armstrong faz um tipo de cinema sem maiores méritos, mas que é competente na medida do possível e sempre entrega um resultado satisfatório. Espero que com esse não seja diferente. Abraço!

  7. A minha única curiosidade para assistir “Atos que Desafiam a Morte” é ver a Saoirse Ronan, uma atriz que ainda não deu uma performance ruim! Gostei do seu texto. Foi honesto!

  8. ♦Luciano o filme vale a pena, sem esperar muito. E valeu, a imagem é mesmo excelente.

    ♦Sérgio o filme passou despercebido mesmo, mas é bom. Veja no descompromisso.

    ♦Red Dust algumas críticas foram duras mesmo, mas é um bom filme. Sem esperar muito dele, é possível gostar.

    ♦Hypado o filme é bom.

    ♦Romeika a pequena Ronan ta ótima como sempre e desbanca mesmo os astros. E eu confio no potêncial dela mesmo. O filme é bom, mas especialmente por causa dela.

    ♦Vinicius ela é o elemento mais sóbrio do filme. Ronan rouba o show. Mas o filme é bom. E Armostrong tem esse constume sensível de nos conquistar. O resultado é morno, mas agradável.

    ♦Kamila veja sim. Saoirse pode ser o grande espetáculo do show, mas é uma apresentação agradável de Armstrong que merece uma olhada. E obrigado! ;)

  9. Esse serve como prova da decadência de Zeta-Jones como atriz. Não gostei. Nota 3.0.

    Abraço, Wally!

  10. Não me lembre desse filme, estava na relação daquele problema que lhe contei …

    e sobre o que você pergunta … faça o que o seu coração mandar … simples como tudo na vida …

  11. Mesmo que o filme não venha a ser algo marcante, como você diz, acho que verei em DVD, pela presença da futura estrela Ronan, pela diretora e pela parte temática do ilusionismo. Se as expectativas forem baixas, talvez não decepcione.

    Cumps.

  12. Não Assisti. Li críticas que bombardearam tanto o filme que fiquei até com medo de ver!

    Abraço!

  13. E sobre os filme… Preferia ler sobre “Amadeus”. Filmaço! Mesmo porque “Três Homens em Conflito” eu não vi …hehehe.

  14. Como não assisti “Três Homens em Conflito”, prefiro ler sobre “Amadeus”.

  15. Confesso que apesar de achar toda a história de Houdini como caçador de fraudes espíritas bem interessante, o filme não me deixou muito curiosa.
    Depois da sua crítica, acho que posso mesmo deixar para depois.
    Beijocas

  16. ♦Pedro que pena. Gostei do filme e não vi nada de ruim na performance de Zeta-Jones.

    ♦João Paulo então é melhor nem lembrar mesmo. E estou tentando, mas amei ambos.

    ♦Gustavo exato! Com baixas expectátivas, é fácil não se decepcionar.

    ♦Rafael algumas críticas foram cruéis mesmo. Mas o filme possui atrativos. E “Amadeus” é mesmo um filmaço! Obrigado pelo voto.

    ♦Kamila obrigado pelo voto! ;)

    ♦Cecilia o filme é interessante, mas não é muito focado nos ilusionismos de Houdini, usando isso apenas como pano de fundo e analogicamente. Veja sim.

  17. […] Atos que Desafiam a Morte Ilusões do destino Em uma de suas muitas ap […]

  18. […] Mais no CINE VITA! […]

  19. […] um pouco de ousadia. E ainda conta com participações no elenco bem interessantes de Guy Pearce (Atos que Desafiam a Morte) e, principalmente, Ralph Fiennes (O Leitor). Mas quem merece os elogios é Jeremy Renner (O […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: