Publicado por: Wally | Domingo, Agosto 3, 2008

Joshua – O Filho do Mal

Lançamento direto em DVD

A morte passou por perto

O nascimento da pequena Hazel causa uma abrupta mudança de clima na casa da família Cairn, que começa, aos poucos, se desintregar ao irmão da garotinha, o Joshua de nove anos, tornar-se uma constante ameaça e uma presença pertubadora.

“Joshua” é um caso raro no quadro do cinema atual. Um suspense sem nenhum utilizo de efeitos especiais, maquiagens exageradas ou peripécias visuais. Relembrando como se arquiteta um thriller de verdade, o cineasta George Ratliff pode pecar diversamente em momentos, e o roteiro pode não ser o mais bem polido, mas o fato é que este pequeno filme é um cujo clima de suspense torna-se sufocante e essêncial. A técnica precária hoje em dia é usada com sutileza por Ratliff, que constrói ótimo suspense usando a atmosfera densa e a tensão palpável. Ao abordarmos a família Cairn, logo nos vemos sentindo por eles, só para depois sermos igüalmente pertubados pela presença nada comfortável de Joshua, que representa um ser fascinante ao mesmo tempo que distante. Sua figura é fria e calculista, e atinge um tom maléfico poucas vezes vista. Talvez a falha disto tudo seja o fato de que em vezes o tom frio toma conta completa do filme, e verdadeiras emoções tornam-se nubladas.

Talvez essa seja a intenção, deixar tudo o mais sombrio e inquietante possível. Em questões de clima, tal intenção se saiu extremamente bem sucedida. A inquietação é chave para a instigação e refrescante em muitas maneiras. O roteiro merece crédito pela boa construção dos personagens e suas relações. Abordando diversamente o psicológico de uma forma natural e exemplar, é onde acaba nos vencendo. Vermos a decadência da sanidade da família Cairn é algo, para a falta de uma palavra melhor, sinistro. Mas os sentimentos em sí, aqueles de maior crueza, são em vezes encobertos pelo clima de frieza e tudo soa exatamente como Joshua, calculado. Ao menos esses são defeitos que de certa forma ganham uma certa despeocupação, assim que somos absorvidos pela trama e pelos personagens e nos aprofundamos mais e mais no mundo denso bem construído. Mesmo quando não sentimos a devida emoção, somos deixados à beira da curiosidade e o fascínio ao observar tudo aquilo que nos é presenteado.

Um elemento do filme que é realmente impecável é o elenco. Nesse sentido, destaco com grande prazer Sam Rockwell, excelente, e Vera Farmiga, soberba, atingindo sua performance mais impressionante até então. A dupla possui uma excelente química e são deles que podemos tirar as emoções que muitas vezes faltam ao resto do filme. E aí tem Jacob Kogan, que faz o maléfico Joshua de uma forma contida e ainda assim eficiente, introduzindo aquela estranheza necessária ao personagem. O elenco eleva em muito as qualidades apresentadas no roteiro e até melhora algumas. Acredito que o que não fez o filme soar morto foi justamente eles, visto que o clima de mórbidez do filme em vezes atinge um pique do qual fica difícil classificar como formidável, descomfortável ou inconveniente. Mas isso acaba é deixando tudo ainda mais interessante.

Classifico essa obra então como exatamente isso: interessante. É óbvio percebermos as falhas uma ou outra vez e desejar que Ratliff tivesse um olho ainda mais afiado, mas seu filme em sí foge tanto à regra, à formula e à habitual estrutura de Hollywood para o gênero, que já me deixa extremamente contente e surpreso. A fotografia é chave e a trilha, sua ausência ou mesmo sua onipresença, funciona como ouro. Elementos como esses são sempre louváveis. Junta-se isso à um filme que quase investiga de uma forma fascinante o mal psicológico que pode residir na mais sombria das almas humanas, um elenco excepcional e virtudes que não podem ser facilmente ignoradas e temos um exemplar do gênero competente e um exercício formidável de suspense e tensão, instigação e curiosidade. Afinal, o que leva um ser humano a destruir sua própria família? O filme não responde, talvez por não existir resposta. Psicologia às vezes pode não representar respostas, em vezes o mal pode surgir do desconhecido. A ambigüidade do filme e seu fim nada convencional e aberto apenas nos deixa ainda mais reflexivos sobre o que acabamos de presenciar.

Joshua (2007)
Direção:
George Ratliff
Roteiro: David Gilbert, George Ratliff
Elenco: Sam Rockwell, Vera Farmiga, Jacob Kogan, Dallas Roberts, Michael McKean, Nancy Giles, Celia Weston
[Suspense, 106 minutos]


Responses

  1. Eu nunca tinha ouvido falar desse filme, mas só de saber que ele remonta aos tempos em que os suspenses não eram baseados em sangue, mutilações e sustos fáceis, já me deu uma vontade maluca de ver, irei procurar. Hoje em dia é tão complicado achar um filme que se encaixe na definição de suspense propriamente dito que, ao menor sinal de algo que proponha isso, já abre uma esperança de que as coisas voltem ao normal e essa enxurrada de sangue vide Jogos Mortais e derivados finalmente cesse. Um abraço.

    PS: perdão, é a primeira vez que comento aqui; espero não estar incomodando.

  2. Eu vi Joshua há alguns meses atrás por indicação de um amigo que é fã do genero suspense/horror e gostei bastante, o jovem Jacob Kogan transmite uma frieza sutil e transpira maldade no olhar. Um bom filme!

  3. Eai! Bom? Sei não se eu iria gostar desse filme, mais se tratando de ‘suspense’ até me deu vontade de ver!
    — estou mesmo precisando ver um suspense ultimamente!

  4. ♦Luiz está corretíssimo! Filmes assim são artigos raros e mesmo quando surge um com falhas, é inevitável elogiá-lo. E bem-vindo ao Cine Vita e ao mundo blogueiro. Conferi seu novo blog e gostei bastante! Pretendo comentá-lo em breve e te linkarei assim que possível. ;)

    ♦Wendell realmente um bom filme. Aquela frieza do garoto é mesmo inquietante.

    ♦Lucas este é do típo de suspense bem realizado, com clima, personagens densos e instigação natural. Nada de gore, torturas e afins. Se gostar assim, veja!

  5. Tudo que o remake de A Profecia e Anjo Malvado não conseguiram tem em Joshua, um terror que se preocupa em contar uma história assustadora e ao mesmo tempo proximo da nossa realidade, me diga, quem não sentiu uma ponta de raiva por apenas ser deixado …

    Um filme que só não recomendo em ser indispensavel por que ele pode se considerar “dificil” para alguns porém é um filme assistivel e assustadoramente real …

  6. Não pude deixar de pensar em Anjo Malvado instantaneamente, mas acredito, pela sua resenha, que o filme em questão não se aproxime do malfadado filme que tentou tirar a cara de ankinho de Macaulay Culkin, sem sucesso entretanto. Como estou no interior vou fazer o possivel pra achar na locadora, mas os deuses do DVD nao costumam sorrir pra mim aqui. E olha que sou fanático por suspenses, suspenses bons… nada de Jogos Mortais 17.

  7. Nooossa, que medo! Faz tempo que não assisto um bom suspense. Confesso que não sou dos mais fãs do gênero também, mas acho que é meio por ter me decepcionado um pouco com os últimos filme que andaram saindo, acho tudo muito trash.

    Mas, quem sabe, até, talvez…

    Abs!

  8. Não vi o filme, Wally.

    Sábado comprei um box de coleção com três filmes do Kubrick. Um deles é “A Morte Passou Por Perto”.

    Pergunto-lhe: A legenda da foto seria uma referência ao filme do mestre?

    Se for eu vou ver o filme agora mesmo…rsrsrsrs…

    Abraço!

  9. Wally, esse eu não assisti, e conheço muito pouco do diretor. Mas o elenco é bem interessante!

    Ciao! ;D

  10. Wally, não conhecia o filme, mas só de ler uma crítica chamando um filme de suspense recente de interessante, já me chama a atenção. O elenco de “Joshua” é ótimo! Curiosidade dupla por esse longa, então! :-)

  11. Apesar do lançamento direto em DVD por aqui, fiquei curioso quanto a esse suspense, especialmente após seus comentários. Geralmente não sou muito fã desse tipo de filme (e acho que pouca gente consegue fazer algo decente dentro do gênero atualmente), mas acho que esse “Joshua” pode me surpreender. Abraço!

  12. ♦João Paulo concordo plenamente com tudo.

    ♦Daniell visto como filmes assim são raros, sugiro que procure vê-lo. Mesmo no fim do mundo…rsrsrsrs.

    ♦Victor o filme não dá medo, mas pertuba de uma maneira interessante. Essa é a virtude.

    ♦Pedro eu não vi este filme do Kubrick, mas o título tem tudo a ver com o que ocorre no filme “Joshua”, por isso escolhi para entitular meu texto.

    ♦Louis o elenco é o deleite principal. Mas o diretor faz um bom trabalho…

    ♦Kamila o filme é bom sim e merece uma conferida. E o elenco ta excelente!

    ♦Vinicius os lançamentos direto em DVD estão muitas vezes superando os que vão para os cinemas…me assusta um pouco. E o filme é bom! Veja.

  13. Ok, than. Entendido.

    Abraço!

  14. Sou meio medroso pra esses filmes… mas vejo!! hhehehehehe

  15. Bem não tinha ouvido falar do filme. Aguçou minha curiosidade, gosto de filmes mais idependentes. Gostei da sinopse, dos elogios… Devo assistir em breve. Mas devo confessar que não aprecio muito o gênero, pois há muito não vejo um filme que me satisfaça!

    Abraço ;DD

  16. Wally, acho que o João Paulo me recomendou este filme. Ainda não vi, mas sua crítica também incentiva. Parece interessante, hein.

    Abs!

  17. ♦Pedro depois me diga o que achou do filme do Kubrick.

    ♦Robson veja sim!

    ♦Rafael o filme corre o risco de despertar novamente sua fé no gênero.

    ♦Otavio é recomendado sim! Procure assistir.

  18. Eu adorei o filme. Chequei a ficar de pau duro! Mas bem no fim eu me caguei!

  19. […] é tudo menos politicamente correto. O próprio Victor Mancini é interpretado por Sam Rockwell (Joshua – O Filho do Mal) com uma postura sempre interessante e que nunca deixe que Victor se transforme em um ser […]

  20. nao vejam o filme, o final esta muito mal feito !


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