Publicado por: Wally | Quarta-feira, Julho 30, 2008

Fim dos Tempos


A hora negra

Começando no Central Park, em Nova Yorke, alguma toxina na atmosfera começa a afetar as pessoas ao ponto de as levarem a cometer o ato de suicídio. Ao redor do país, várias pessoas se mobilizam fugindo do desconhecido mal que paira no ar. O professor Elliot tenta levar sua família à segurança ao mesmo tempo que quer descobrir o que está acontecendo.

No mais novo filme do sempre subestimado M. Night Shyamalan (sendo a clara exceção o celebrado “O Sexto Sentido”), o mundo retratado sofre uma brusca chacualhada e entra abruptamente em uma hora negra, de medo, paranóia e morte. Introduzindo vários elementos que o tornou um diretor tão bem sucedido ao longo de sua carreira, existe no filme sempre um clima sugestivo e ficamos sempre a espreita de algo, seja o que for. É a habilidosa atmosfera construída pelo cineasta, que sempre trabalhou bem nas emoções da audiência e torna-se ainda mais eficiente esta atmosfera ao constatarmos que o vilão desse novo filme é algo invísivel existente justamente na atmosfera. Portanto, seria risível ver várias pessoas em um campo correndo do nada. Mas com Shyamalan, é um pouco pertubador. O triste é que, a dose de terror, paranóia e pertubação sofrem uma diminuída brusca no seu filme, principalmente quando seus personagens abrem a boca. De qualquer forma, é fato que o longa é um instigante e o assistimos sempre no aguardo por algo realmente surpreendente e catártico…mesmo que isso nunca chegue.

As intenções do diretor ao fim, se revelam outras. Primeiramente, o cineasta declarou que seu filme possui uma aspiração à filme B, e tais elementos são claramente encontrados, vide o humor exacerbado de momentos. Se formos analisar com seriedade, o humor debilita o clima de medo e quebra a tensão, mesmo que isoldamente possa funcionar uma vez ou outra. E tem o valor ambiental. O filme de Shyamalan é um de natureza clara de filme denúncia. O esperto cineasta pegou algo atual e amedrontador: o aquecimento global e a crescente ameaça da natureza e fez um filme cujo terror reside nos elementos com os quais vivemos nossa vida inteira. Ele mergulha seus personagens no desconhecido e no pavor. A idéia é muito boa. O que falta é uma execucão mais admirável. Seu filme é curto demais. Existe pouco desenvolvimento e muitas coisas parecem ter sido apenas largadas. O cuidado estético está sempre lá, e como diretor ele ainda possui aquele talento de orquestrar sequências bem interessantes, mas seu valor como roteirista sofreu uma decaída brusca. Os diálogos de seu filme são muita vezes terríveis demais para serem aceitos, mesmo em um contexto de filme B.

Não ajuda também certos diálogos terem hóspedes tão pobres. Nesse caso, destaco a pobreza de Zooey Deschanel, uma atriz que já prometeu muito mas simplesmente decepcionou grandiosamente com suas caras e bocas terríveis presentes aqui. Sua personagem parece mais uma deficiente mental. Ainda tem a péssima Ashlyn Sanchez, que uma vez ajudou a me fazer chorar em “Crash – No Limite”, mas aqui encena dramaticamente de uma forma quase obscena. O eqüilibrio aqui pode ser encontrado em Mark Wahlberg. Apesar dos diálogos e do personagem instável, o ator cumpre bem seu papel, mesmo que longe de seus últimos trabalhos mais expressivos. O resto do elenco apenas preenche, como John Leguizamo, que não marca muita presença.  Não ajuda também alguns personagens serem mal desenvolvidos e uma ou outra cena decepcionar até mesmo na técnica, como a horrorosa cena em câmera lenta à frente de uma casa onde ocorrem dois assassinatos. No mais, ainda existem elementos virtuosos. Trilha sonora afiada e soberba de James Newton Howard e uma fotografia muito, muito boa. Além de uma sensacional cena realmente angustiante focando a trajetória de uma arma de mão em mão, provocando suiícidios em massa.

O problema é não generalizar. As falhas no filme existem demais, isso é verdade. Mas no fundo, aqui reside um trabalho interessante e admirável dentre suas limitações infelizes. Shyamalan quer fazer um comentário sobre a sociedade paranóica atual, em como o medo e o amor movem o ser humano à atos inexplicáveis e em como o nosso futuro reflete no horizonte cada vez mais sombrio e amedrontador. Tais comentários são bem realizados, o problema mesmo é a falta de estrutura e seriedade. Tirando cenas desnecessárias como a de um zoológico, acertando diálogos, desenvolvendo mais os personagens e dando uma maior polida em seu fim, teríamos um filme melhor, sem dúvida. Infelizmente Shyamalan chegou ao ponto de mergulhar sí mesmo em uma hora negra com relação à sua carreira. A crítica especializada parece esmuiçar cada vez mais e mais as pretensões muitas vezes louváveis do cineasta e a bilheteria de seu novo filme foi, para dizer o mínimo, decepcionante. O filme também foi. Mais ainda existe esperanças com relação ao diretor, principalmente porque seu filme batizado de lixo esconde algumas virtudes.

The Happening (2008)
Direção:
M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley, Spencer Breslin, Robert Bailey Jr., M. Night Shyamalan
[Mistério, 91 minutos]


Responses

  1. Eu não achei “Fim dos Tempos” um filme tão ruim assim. Claro que a obra tem defeitos (o elenco, principalmente. Não gostei de ninguém ali), mas o filme tem qualidades, como as que você citou: a trilha de James Newton Howard e a fotografia.

    No mais, acho que Shyamalan precisa deixar seu ego de lado para poder reencontrar a virtuose vista em filmes como “O Sexto Sentido”.

    PS: você, que quer assistir “30 Rock”, fique de olho na Record. O programa estréia neste domingo, à meia-noite. Eu, que perdi a primeira temporada, vou me atualizar na Record, a partir desta semana. :-)

  2. Esse eu não vi. O teaser até me empolgou mas o diretor está em baixa comigo rs… Quem sabe em DVD eu confira!

  3. Cada vez que lembro do filme ele só sobre na minha cabeça. É incrível, mas ainda o acho inferior aos outros.

  4. Muita gente malhou, falou que era o fim do Shyamalan, mas eu gostei, cara. Tem um clima negro no filme (coisa tipo filme B) que me atraiu na história. Porém, acho que o diretor foi infeliz na escolha de Mark Wahlberg para protagonista. Merecia um ator mais dramático…

    Discutir mídia e cultura?
    http://robertoqueiroz.wordpress.com

  5. É o velho ditado: nem só de boas intenções se faz um filme. Como você colocou, mesmo com tantas falhas de execução, “Fim dos Tempos” não merecia ser massacrado pela crítica, afinal tem lá suas qualidades (ainda que sejam poucas). Mais sorte para o Shyamalan no próximo trabalho…

    Abraço!

  6. É o fim dos bons tempos do cinema de Shyamalan. Espero que ele acorde logo.

    Abraço!

  7. É, realmente acho que fui um dos únicos que até gostou da nova obra do diretor. Aliás, não vi nenhum defeito tão grande que possa estragar o filme, apenas o roteiro que teve algumas falhas, mas fora isso eu achei bacana.

    Abraço
    Mateus

  8. Aqui apareceram algumas opiniões favoráveis ao filme. Ainda não assisti, mas com certeza Shyamalan sempre coloca algo a mais em seus filmes e gosto de sua originalidade, apesar de muito gente não gostar.

    Abraço

  9. Olá, Wally!
    Também sou grande admirador de Shyamalan, e ainda não vi seu novo filme, por isso mesmo fico surpreso ao ler a respeito de fragilidades incomuns em sua obra, como diálogos ruins e estrutura precária. Tá certo que errar é humano, mas tendo em vista a péssima recepção obtida, é melhor Night se cuidar para não pisar na bola de novo.
    Bem, ao menos no tema ambiental ele acertou em cheio.

    Cumps.

  10. Primeira vez que o Shyamalan fez um filme ruim, na minha opinião. Mas eu o perdôo. Destaque mesmo só para a trilha do James Newton Howard. A desgraça é o elenco, especialmente a Zooey Deschanel.

  11. Não gostei do filme, pelo seguinte fato: a forma que ele não soube tratar o tema. Foi de forma tão banal. E o elenco não ajuda, somente Wahlberg cumpre bem seu papel. Todos sabemos que Zooey Deschanel teve o pior desempenho no filme (Unanimidade). Os principais destaques são: a trilha sonora de James Newton Howard, responsável por todas as trilhas da filmografia do diretor, e a fotografia. Como você citou.

    Abraço!

  12. Olha que eu gostei de A vila, A dama na água…até A dama na água, achei de bom gosto (simples, e tal…mas)! Só que as vezes é difícil engolir certas coisas do cinema dele,
    preciso ver este e tentar mudar o meu conceito!
    Abraço

  13. ♦Kamila também não achei o filme ruim. Possui defeitos mas também virtudes. E Shyamalan parece mesmo possuir um ego enorme. E ficarei ligado em 30 Rock, valeu! ;)

    ♦Louis se o diretor já está em baixa com você antes mesmo de você conferir este filme, então é perigoso. Achei o mais fraco dele (exceção de Olhos Abertos). Mas ainda assim, bom.

    ♦Lucas certos filmes possuem esse poder mesmo. Eu não senti isso, mas o filme tem valores, mesmo que seja mesmo o mais inferior da carreira dele (tirando Olhos Abertos).

    ♦Roberto o filme pode ser falhado, mas também gostei. O elenco todo me decepcionou, mas em Wahlberg enxergei algo estranhamente autêntico para o estilo de filme.

    ♦Vinicius palavras perfeitas. Sinto o mesmo.

    ♦Pedro ainda não acho que ele esteja tendo pesadelos, mas seus devaneios estão lhe sendo prejudiciais. Que sua completa lucidez volte logo.

    ♦Mateus eu também gostei. O problema é que vi mais defeitos que você mesmo.

    ♦Hugo o cineasta tem um talento para a controversia mesmo e ainda que seus filmes apresentem falhas, sempre são lotados de virtudes.

    ♦Gustavo o diretor não chegou a pisar na bola comigo, mas ele escorregou um pouco. Acho que ele ainda voltará a ser o cineasta daquelas duas primeiras obras-primas.

    ♦Matheus por pouco não sou decepcionado como você. Mas olhei mais de perto e vi algumas virtudes. O elenco é mesmo trágico e Zooey ta uma desgraça de verdade.

    ♦Rafael acho que essa banalidade se apresenta mesmo. O problema para mim foi a execução em termos de roteiro, visto que quase sempre a sua direção me agradou. Os diálogos me incomodaram e sim, a abordagem do tema falhou muito em vezes. Wahlberg é o único que se salva do elenco mesmo e essas virtudes que você citou são mesmo admiráveis.

    ♦William eu gostei de todos do diretor. Só achei “Olhos Abertos” um tanto simplório e esse “Fim dos Tempos” por pouco não caiu no meu conceito. Tentei me segurar às virtudes. Seu conceito sobre ele não mudará com esse. Para mim, seus melhores foram seus dois primeiros.

  14. Wally, seu ultimo paragrafo resume bem o pq de eu ter gostado do filme, apesar das falhas obvias que esse possui. Shyamalan eh sempre alvo facil de criticas por ser considerado arrogante, etc, etc, alem de todos terem altas expectativas com relacao a seus trabalhos. O filme nao eh esse horror todo que a critica disse.

  15. ♦Romeika concordo plenamente. Realmente foi desnecessariamente escrachado pela crítica. Mas como disse, às vezes generalizam demais, e fazem com que os defeitos nublem as virtudes, apesar dessas existirem.

  16. […] nunca deixa de implantar um sorriso em nossos rostos, nem mesmo quanto a insossa Zooey Deschanel (Fim dos Tempos) está lá para tirar. Alias, se Chanel é chique, sofisticado e valioso, Deschanel é exatamente o […]

  17. Um filme interessante, com um começo fantástico e prometedor, mas que, depois, Shyamalan não conseguiu manter, por inteiro, esse nível. Por outro lado, está muito longe de ser a desgraça que muitos apregoaram aos sete ventos… :)

    Abraço.


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