Publicado por: Wally | Quarta-feira, Julho 16, 2008

Speed Racer


Montanha-russa digital

Nascido em um mundo (e uma família) apoiado nas frenesias de corridas de carro alucinantes, Speed Racer cresceu com a idéia na cabeça de ser grande e, após controversos dilemas cercando seu irmão nas pistas de corrida, Speed arrebenta trazendo de volta a glória ao nome de sua família, mas se vê deparado também com todos os podres que a acompanha.

Ao início de “Speed Racer”, é fácil imaginar que estamos mesmo vendo o novo filme dos visionários cineastas de “Matrix”, a série que revolucionou o cinema e o gênero. Contando com um visual de encher os olhos, é fácil impressionar-se logo e, em um início inspirado, testemunhamos uma cena bem texturada contando com montagem essêncial. Primorosa, é usada como ferramenta para narrar histórias passadas dos personagens, oscilando entre duas corridas importantes. A compilação é memorável, exemplar e, mais importante, coerente. Ao passo que somos entretidos, porém, logo começamos a perceber o exagero e a incansável duração daquele mesmo método contínuo. Se desgasta, nunca descansando e se revela vistoso demais para o próprio bem. O filme em sí pode ser resumido assim. A impressão ao início é de deslumbro, ao fim, de cansaço. Mesmo que não seja um filme com aspectos deploráveis, é triste constatar toda a fragilidade do longa que, apoiado demais em sua parte técnica, no charme do elenco e na textura “pop”, perde em substância, ignorando que cinema não é feito apenas de pirotécnicas, mas de imaginação que vai além do que os olhos enxergam. É nesse ponto que definitivamente que não se trata mais da dupla brilhante de cineastas.

É admirável, no entanto, todo o clima do filme, que te insere de uma forma exemplar naquele mundo surreal e chamativo. Nesse sentido, os Wachowski ainda sabem o que fazem em questões de imaginação visual. Os efeitos especiais são fantásticos e a direção de arte, perfeita. Isso sem contar os efeitos sonoros impecáveis, a já mencionada montagem super eficiente e, claro, mais uma trilha muito boa de Michael Giaccino, mesmo que não tão onipressente quanto em outras vezes. Todos esses fatores técnicos trabalham a favor do filme ao fim, que possui muita energia. Infelizmente sentimos falta de mais. A todo momento me via procurando por “aquele” elemento. Mas não encontrava. Ao contrário, me via cansando aos poucos do exagero visual digitalizado, visto que a duração longa do filme simplesmente não colabora nesse aspecto. Temos deslumbro visual, energia, vivacidade, um pouco de magia cinematográfica, mas não muito recheio. Mesmo quando o filme apresentava alma e coração tratando de temas familiares, ele sentia frio e artificial demais quando mais necessitava se aproximar da audiência.

O filme é uma constante batalha entre o artificial e o genuíno. Felizmente tivemos um bom elenco para acabar um pouco com a mesmice do artificial. A começar, claro, pelo ótimo Emile Hirsch, cheio de charme e carisma, consegue fazer com que seu personagem se mantém cool mesmo com os diálogos tão desastrosos (alias, é um dos pontos mais agravantes do filme tais diálogos genéricos tolos). A ajuda dos coadjuvantes Ricci, Sarandon e Goodman é bastante proveitosa. Quem falha mesmo é Matthew Fox, decepcionando em atuação fria, sem emoção ou muita expressão. Mesmo assim, o elenco é chave para nos mostrar que não, o trabalho não é toda aquela artificialidade tremenda. Mas como já disse, os valores familiares conseguem oferecer uma injeção de sentimento no digital. Toda a trama sobre união familiar e o elo sempre necessário funciona bem, pesando contra o lado “sério” do longa, que ousa fazer um relato (e uma alerta) sobre a corrupção, em uma crítica às grandes corporações. Funciona também, mas é incômodo quando o filme precisa definir seu público alvo. Em um filme supostamente “família”, a experiência visual encantará sem dúvida, mas dividirá os interesses dependendo da idade. Enquanto os menores irão com certeza oferecer desinteresse ao fator sério (que chega a ser até cansativo) os adultos podem se irritar com a já mencionada tolice dos diálogos e as piadas em vezes bobas demais. Mas o humor diverte com momentos engraçados, ainda ajudado pela excelente dupla de macaco e Paulie Litt, ótimos!

No fim, é inegável como os diretores (e também roteiristas) flexionam tudo apenas para beneficiar tentativas de estilo e cenas de ação, chegando até a nos subestimar um pouco, com inúmeros furos de roteiro. Então sugiro o seguinte: veja “Speed Racer” pela experiência visual, pop e sonora. É bom cinema. Mas não é cinema necessário. O filme apenas abre mais portas para novas evoluções técnicas. Não mecheu comigo, ou me tocou. Mas ao menos a viagem diverte. As escorregadas podem existir mas ao menos existe satisfação à cada equívoco. Um trabalho, digamos, onde defeitos e acertos eqüilibram-se. Funciona, mas sem um pingo de dúvida sequer, com um pouco mais de esforço e menos exagero, teríamos um filme bem superior. É uma louca montanha-russa de um filme, como todos os efeitos colaterais mas também a empolgação.

Speed Racer [2008]
Direção:
Andy Wachowski, Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski, Larry Wachowski, baseado na série de Tatsuo Yoshida
Elenco: Emile Hirsch, Nicholas Elia, Christina Ricci, John Goodman, Susan Sarandon, Matthew Fox, Ariel Winter, Scott Porter, Benno Fürmann, Paulie Litt
[Aventura, 135 minutos]


Responses

  1. Ainda não conferi “Speed Racer” mas também nem estou mais tão animado como estava antes. Quando vi o trailer fiquei bem empolgado com o visual do filme, mas pensando bem, 2h de projeção naquele visual deve cansar mesmo.

    E by the way, nunca gostei muito do Matthew Fox.

  2. Acho que fui um dos poucos que gostou MUITO desse filme. Acho que por ser o primeiro trabalho dos Wachowski pós-“Matrix”, pode ter decepcionado alguns, mas para mim eles continuam excelentes diretores. Não sei se tem falhas no roteiro (certamente têm), mas para mim funcionou perfeitamente e talvez seja o segundo melhor filme do verão – só perde para “WALL-E”, claro.

    Abraço!

  3. eai. nossa esse filme eu nao fikei com nenuma vontade de ver. apesar de nao gostar do estilo odiei todas a publicidadee! HASUDH

  4. Confio nesse irmãos, não vi, mas acho que vou gostar.

  5. Eu estou com o Vinícius. Gostei MUITO de “Speed Racer”. Achei o visual deslumbrante, as cenas de corrida muito bem feitas e adorei elementos como a direção de arte. No entanto, o grande diferencial do filme aparece quando temos as cenas no núcleo familiar dos Racers. A única coisa que não me agradou muito no longa foi a dupla Gordinho e Macaco. Achei-os totalmente sem-graça.

  6. Achei “Speed Racer” bem mediano, mas como você mesmo disse “defeitos e acertos eqüilibram-se”. Mas vale a pena ver sim, eu acho.

  7. Apesar de ter adorado como fã a transposição dos desenhos para o cinema, o filme como cinema é apenas um filme redondo que sabe conquistar a plateia especifica … agora com certeza poderá se considerar um dos filmes mais subestimados do ano dependendo da ótica de alguns criticos (não sendo chatos, claro … eehehehe abraços)

  8. Ainda não assisti, as cenas que assisti não me agradaram muito, mas vou conferir todo o filme ainda.

    Abraço

  9. Também achei bem mediano. Na verdade, tudo que eu gosto dos irmãos Coen eu desgosto dos Wachowski.

    Abraço!!!

  10. Ah não, gostei MUITO desse filme também. Não fiquei “cansado no fim”, pelo contrário. É o melhor blockbuster do ano na minha opinião, depois de Batman, claro.

    Abração!

  11. Emile Hirsch subiu no meu conceito com Na Natureza Selvagem, que assisti hoje. Puta atuação.
    Não era um fã do desenho Speed Racer, mas vou assisti-lo agora quando sair em DVD, em Setembro.

  12. Ao contrário de você, eu adorei o filme. A adaptação ficou muito boa. Até os diálogos, que podem parecer bobos, são muito fiéis aos do desenho. Lembro que enquanto via no cinema, me sentia uma criança brincando…

  13. É um dos filmes que pretendo assistir ainda, mas que não tive chance/tempo.

  14. Nesse caso descordo um pouco de você caro Wally. Pra mim as quatros estrelas valem a pena. É um filme agradável e envolvente.

  15. Um filme tão aquém do que eu esperava, que não pude deixar de vê-lo como péssimo. A experiência “visual, pop e sonora” a que você se refere me deu nos nervos, tanto que eu saí tonto do cinema. O hirsch está antisimpático e o roteiro é bobinho e infantil, repleto de clichês. É, não deu mesmo, tentei uma revisão há uns 20 dias atrás, mas o veredicto foi o mesmo.
    Nota: 4,0 (**)
    Um grande abraço!

  16. Como você sabe, DETESTO esse filme. Acho histérico e descontrolado. Não consegui entrar no clima. Nota 5.5

  17. ♦Marcel infelizmente, eu fiquei cansado. Talvez você tenha mais sorte. E eu gosto muito de Fox em Lost. Mas sua carreira no cinema ta deixando muito a desejar.

    ♦Vinicius não tive essa sorte de gostar tanto de “Speed Racer”. Obviamente tem seus valores, tanto que gostei do filme, mas ele realmente me deixou um pouco decepcionado. Falhas infelizmente existem.

    ♦Lucas então fique longe.

    ♦Hypado o filme é bom. Só não é tudo o que foi “Matrix”.

    ♦Kamila todos os pontos que você destacou do filme eu aprovei também, inclusive a dupla, que achei engraçada. O que me incomodou no filme foram outros fatores.

    ♦Mateus também achei isso. Vale a pena.

    ♦João Paulo o filme tem valores demais para ser completamente ignorado e contestado, mas também acho que possui defeitos demais para ser muito venerado. Para os fãs deve ter funcionado melhor mesmo.

    ♦Hugo o filme é bom. Só não é “aquele” filme.

    ♦Alexsandro o filme me agradou, mas sim, ao fim, estava cansado. Para mim, não passa de um simples “bom”.

    ♦Ibertson Hirsch têm se revelado, desde “Alpha Dog” ótimo e, finalmente, um puta ator mesmo no filme de Sean Penn. Em “Speed Racer”, ele enche a produção de charme. Veja o filme sim, apesar de achar que a experiência visual deve ser melhor no cinema.

    ♦Cecília como disse ao JP, os fãs devem ter adorado. Deve ter sido nostálgia pura! Que bom que você gostou tanto.

    ♦Isabela vale a pena se tiver um tempinho.

    ♦Robson envolvente até ficar chato e agradável até cansar, rsrsrs. Eu fiquei ‘mesmo’ no meio termo. Mas é um bom filme.

    ♦Weiner eu gostei do filme, mas ele tem falhas mesmo, bastante alias. E não tenho muita vontade de rever…

    ♦Matheus o filme tem problemas mesmo, mas fui mais leniente, consegui gostar, mesmo que pouco.

  18. Interessante como esse filme foi DESTRUÍDO qdo lançado nos cinemas e hj dia as pessoas estão vendo q não foi tão ruim assim. Mas realmente, tem q ter predisposição pra entrar no clima e suspender a descrença com relação a aquele visual. Abs!

  19. ♦Anderson é um filme incompreendido em certos aspectos mesmo, mas ainda assim bastante falho. O clima agrada ao mesmo tempo que incomoda quando em overdose.

  20. […] apenas o líder de um elenco afiadíssimo e completo. Os destaques ficam por conta de Emile Hirsch (Speed Racer) – numa surpreendente caracterização – um contido mas poderoso Josh Brolin (A Garota Morta), […]


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