Publicado por: Wally | Terça-feira, Junho 24, 2008

Southland Tales – O Fim do Mundo

Lançamento direto em DVD

Oderint dum metuant

Após um ataque nuclear ter acabado com metade do estado de Texas em 2005, a nação dos Estados Unidos tenta se integrar vivendo em uma constante ameaça no ano de 2008, com o governo em total controle. Surge nesse plano, uma empresa alemã que acredita ter achado a alternativa ao petróleo. Em volta de tudo isso, grupos rebeldes fazem de tudo para garantir liberdade enquanto um ator com amnésia, uma atriz pornô com conciência e um policial surgem no turbilhão político como peças chave.

Em 2001, o desconhecido Richard Kelly lança sua carreira com o independente “Donnie Darko”, uma pequena e alucinante obra-prima da ficção que logo se tornaria uma sensação cult em todos os cantos do mundo. 5 anos depois ele finalmente finaliza o seu tão aquardado e polêmico “Southland Tales”, o lançando em Cannes, onde o filme é vaiado, odiado e extremamente criticado. O cineasta é forçado a tirar 15 minutos do filme e melhorar o visual. O filme é oficialmente lançado, fracassa na bilheteria em salas limitadas e ganha o ódio da crítica. Esse ano chegou em DVD no Brasil (quem teria coragem de lança-lo nos cinemas?). O fato é que sou um dos grandes fãs de “Donnie Darko” e por isso abordei o novo projeto de Kelly com extrema ansiedade. Fato também é que esse seu novo projeto é um terrívelmente incompreendido e completamente subestimado. Mesmo que falho, principalmente quando se diz o excesso de informações jogado na tela e a falta de polimento ao tornar tudo mais claro, o filme é um denso, meticuloso e soberbo retrato satírico sobre uma nação estadunidense não tão distante da atual. Kelly tem algo a dizer, envia sua mensagem com grande estilo e originalidade e faz de seu filme um turbilhão de referências pop, elenco gigantesco bem conhecido mas pouco prestigado e muitos questionamentos, idiretas e críticas virtuosas.

É tanta coisa enviada em apenas 145 minutos (sim, apenas isso!) que fica difícil digerir tudo. Portanto, é recomendável uma revisão. “Southland Tales” é tão complexo que alguns detalhes se enriquecem com revisões e novas percepções. De início, é bastante recomendado aproveitar a viagem, e essa é uma primorosa. O visual do filme é excelente, contando com ótima direção de arte igualmente detalhista, efeitos especiais excelentes e um estilo único, próprio e irretocável. Momentos como o desfecho bombástico, uma festa glamourosa e um sonho pertubado de um soldado são memoráveis e muito bem dirigidos. Não só em questões de estética. Kelly esconde muito com simbolismos e detalhes, sem contar incontáveis referências. Sua trilha sonora é extremamente significativa e importante. Composta por Moby, é uma sensacional. Em certo momento, um veterano do Iraque traficante de drogas submerge em um louco sonho cantando “All These Things That I’ve Done” de The Killers. Não poderia ter canção mais ilustrativa para o momento, e cai como uma luva no comentário socio-político importante do cineasta. Em outra cena simbólica, durante a festa Rebekah Del Rio começa a cantar o hino nacional do país. Se alguém viu e se lembra de “Cidade dos Sonhos” de David Lynch, a cantora aparece cantando e hipnotizando a platéria de uma ópera, em um segmento que é, na verdade, um sonho. O que Kelly quer dizer aqui é que o hino nacional tornou se uma ilusão, como também o patriotismo. Faz tudo parte de um sonho distante que hipnotiza o povo americano aponto de manipula-los. É soberbo!

São momentos essênciais como esse que tornam a sessão extremamente prazerosa e gratificante. Como se não bastasse, o elenco todo errado se sai incrívelmente bem. Nunca achei Dwayne Johnson um ator, mas aqui ele me prova o contrário. Faz um par ótimo com uma bem humorada Sarah Michelle Gellar e um surpreendente Sean William Scott, em atuação realmente ótima. Justin Timberkale continua entregando trabalhos competentes e nem mesmo Mandy Moore compromete o espetáculo. Poderia listar todos do elenco, mas ficaria o dia todo, visto que a lista é longa. O filme é um trabalho de elenco, com diversas narrativas e personagens. Todos representam um típo americano, sofrendo um apuro satírico pelo roteiro de Kelly, deixando tudo bem mais ácido e divertido. A verdade é que todo seu filme é essêncial, oportuno e muitas vezes genial. Como declarado pelo diretor, a violência usada no filme serve meramente para exemplificar o quanto é estúpida e desnecessária. Uma válida crítica, como também a que vai contra todo o sistema, aos costumes americanos debilitantes, abrindo feridas divertidas de se ver ardendo.

Ou seja, ao assistir “Southland Tales”, ignorem todas as críticas e tentam se aprofundar na visão do diretor completamente, prestando atenção aos seus detalhes e ao que o visual possa te comunicar. Fique sempre atento à música essêncial e ás referências cinematográficas importantes. Tudo isso importa e apenas adiciona ao filme. Como o que esta inscrito nas viaturas da polícia, em latim: “oderint dum metuant”. Significado? “Deixe que eles odeiem, contanto que eles temem.”. Foi dito pelo imperador romano Calígula. A frase reflete de uma forma estupenda toda a sociedade americana estigmatizada, onde o povo americano vive em completo estado vegetativo, sofrendo de ódio ao passo que temem o atual governo bélico. Como Michael Moore mostrou em seu documentário “Fahrenheit 11 de Setembro”, é com o medo que o povo é controlado. Então, uma dica: não veja “Southland Tales” de forma impaciente e não o julge cedo demais. Não o odeie, pois o que Kelly fez foi confrontar o grande medo Hollywoodiano e ir contra toda a maré. Seu filme não poderia ser mais averso e subversivo, ao mesmo tempo que genial e até mesmo brilhante. Olhos abertos!

Southland Tales (2006)
Direção:
Richard Kelly
Roteiro: Richael Kelly
Elenco: Dwayne Johnson, Sarah Michelle Gellar, Sean William Scott, Justin Timberlake, Mandy Moore, Christopher Lambert, Jon Lovitz, Bai Ling, Miranda Richardson, Lou Taylor Pucci, Amy Poehler, Cheri Oteri, Rebekah Del Rio
[Ficção, 145 minutos]

 


Responses

  1. Li um texto que comparava esse filme ao que “Pulp Fiction” foi para a carreira do Tarantino, ou seja, Kelly mudou em tom e estilo aquilo que tinha feito com “Donnie Darko”. Mesmo não tendo gostado do filme, adoro ver opiniões positivas como a sua, mostram que não foi um fracasso total. E um aspecto que também chamou minha atenção foi o elenco, apesar do argumento não me convencer. Abraço!

  2. Putz, li críticas metendo o pau nesse filme, palavras como “pretencioso” e “fogo de palha” reinavam nessas críticas, mas foi bom ler algo diferente.
    Agora você me deixou curioso quanto ao filme, acho que vou alugar.

  3. Estamos sós nessa grande barca amigo …
    Mas já na segunda conferida consegui captar tudo …

    Um grande filme subestimado … pena …
    mas é assim mesmo … a vida continua e depois … terá seu reconhecimento merecido …

  4. Já li muita coisa ruim desse filme e por isso estou me preparando mutio para ve-lo, já que sou fã do Kelly.
    Muitos tbm andam dizendo em reve-lo, enfim.. vou tentar captar toda a essencia dele logo na primiera olhada, odeio rever o mesmo filme seguidamente.. mas se for preciso farei…rs… mas não sei se um filme pode ser considerado bom se vc precisa reve-lo para entender ou captar a mensagem dele…
    abraços!!!

  5. Eu estava com muita vontade de assistir esse filme, mas como as coisas que eu lia não ajudava em nada, perdi um pouco a vontade. Mas seu texto me despertou a curiosidade novamente, acho que vou procurar por ele esses dias. =D

  6. ♦Vinicius o filme ta longe de ser um Pulp Fiction (a estréia do diretor é mais expressiva) mas é sim um filme singular cujo estilo é arrebatador. É impossível ignorar o imenso elenco e o argumento demorou a me convencer também, foi preciso um esforço.

    ♦Lucas o que tornou o filme pretensioso foi a expectátiva do público quanto a ele. Não vi nada disso no filme, apenas uma ótima obra de arte contemplativa e expressiva. Procure ver.

    ♦João estamos sozinhos mesmo, e espero realmente que ele ganhe o reconhecimento merecido daqui a algum tempo.

    ♦Rodrigo a essência é inevitável capturar de primeira, o que deixa o filme melhor e melhor com a revisão são os detalhes e as novas percepções. Acho exatamente o contrário, um filme complexo é diversas vezes muito mais recompensador do que um simples, onde da primeira sessão tira-se apenas o óbvio. Kelly nos faz refletir. Isso é sempre bom.

    ♦Marcel o filme sofreu muito com as críticas mesmo. Espero que um dia seu valor seja reconhecido. E procure mesmo. Vale a pena.

  7. Pois é, um filme com o Justin e com a Sarah Michele não consegue me cativar, mas em compensação dirigido pelo Kelly me faz pensar duas vezes… A história me é interessante, e seu post contribuiu, verei em breve… Abraços…

  8. Não tinha ouvido falar desse filme, mas parece ser muito bom!! Fiquei curioso!

  9. Eu não vi Donnie Darko ainda. Quero ver antes desse Southland Tales. Mesmo sabendo que não tem nada a ver.

    Abraço!!!

  10. Não gosto muito de “Donnie Darko” e seu texto é o primeiro que leio que elogia bastante “Southland Tales”. Esse é o tipo de filme que eu só irei assistir quando passar na TV.

  11. Ainda não assisti, mas irei imediatamente colocar na minha lista. Uma coisa que observei, é mais um filme com o Justin que não é cotado como péssimo, será que o menino esta sabendo escolher os filmes, pois nos ultimos tempos ele não só tem aparecido bastante, mas tem constantemente surgido em filmes e sempre melhores aos anteriores.

  12. ♦O Cara da Locadora bem-vindo e sim, o elenco assusta, mas no filme, satisfazem. O longa tem seus problemas, mas achei muitíssimo interessante.

    ♦Robson este filme levou porrada da crítica. Mas eu gostei bastante. Espero que goste.

    ♦Pedro apesar de não ter nada a ver, é bom para se comparar as visões do diretor sobre o futuro. Donnie Darko é obra-prima!

    ♦Kamila amo Donnie Darko e se você tiver a chance, veja o filme antes, eu achei muito interessante e divertido.

    ♦Isabela veja sim. Timberkale começou muito mal com “Edison” filme que contava até com Spacey e Freeman, mas foi uma merda. A partir disso, só boas e válidas escolhas mesmo. Este foi seu melhor até agora.

  13. Do diretor de Donnie Darko.. pode ser bom então.. vou procurar assistir dps de ter lido seu texto..

    vlws

  14. Eu tava muito, muito a fim de conferir o novo trabalho do R.K. mas o povo malhou tanto que eu dei uma broxada, felizmente seu comentário reacendeu as expectativas. Devo conferir essa semana…

  15. Mas é bom assim??????

    Bom, estou louco pra ver NÃO ESTOU LÁ. Vou tentar alugar hoje.

    Abs!

  16. Esse Richard Kelly tem talento, quero ver o novo ”The Box”

  17. ♦Sérgio espero que você goste.

    ♦Daniell trata-se de um filme incompreendido, que sofreu um preconceito por parte das pessoas que não quiseram se aprofundar em seu detalhismo genial.

    ♦Otavio eu gostei muito. Viajei legal e achei extremamente crítico e urgente. E Não Estou Lá é melhor ainda! Espero que goste.

    ♦Hypado isso ele tem mesmo, de sobra. Também quero muito ver “The Box”.

  18. Kelly a cada dia que passa vem me surpreendendo mais e mais. Ainda é cedo para falar isso, mas quem sabe esteja surgindo um novo grande nome no cinema mundial. Até o Justin, que me surpreendeu em Alpha Dog, mais uma vez calou a minha boca. Um entretenimento de gala.

    Quer discutir a imprensa?
    acesse http://robertoqueiroz.wordpress.com

  19. Quero ver esse filme. Vi críticas metendo o pau nele também, mas só nos blogs relacionados, já vi três elogiando bastante. Contando com você.
    Brevemente irei alugar.

  20. ♦Roberto Kelly ja se monstrou, ao menos para mim, um dos grandes cineastas da atualidade. Timberlake pecou apenas em seu primeiro filme: “Edison”, de resto, ta sempre muito bem. Entretenimento de gala mesmo, perfeito! Hoje passo em seu blog. ;)

    ♦Ibertson realmente o filme abocanhou muito ódio por aí, mas eu achei muito bom. É um filme difícil cujo público será bem seletivo. Espero que goste.

  21. […] em previsibilidade. E a ilustre Lucy surge, com uma atuação tocante e sincera de Mandy Moore (Southland Tales – O Fim do Mundo), que a cada filme que passa mostra maiores melhorias em demonstrar emoções mais genuínas. Lucy […]

  22. […] e seu personagem realmente não decola, tirando um ou outro tique, enquanto Justin Timberlake (Southland Tales – O Fim do Mundo) passa uma tremenda de uma vergonha como um francês com, aparentemente, um pênis gigante (que […]

  23. FILME DO CARALHO!! xD


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