Publicado por: Wally | Domingo, Junho 22, 2008

Não Estou Lá


Estrada para a perdição

A vida de Bob Dylan, retratada por seis personagens diferentes, cada um refletindo um aspecto da vida do cantor e uma essência de sua personalidade.

“Yes, it’s chaos, clocks, and watermelons – you know, it’s – it’s everything. These people actually think I have some kind of, uh… fantastic imagination. It gets very, uh, lonesome.”

Em certo momento do novo filme de Todd Haynes, o personagem de Jude Quinn diz aceitar o caos, mas fica incerto quanto ao fato do caos aceitar ele. “Não Estou Lá” tem que ser a biografia mais atípica já realizada pelo cinema. O cineasta e roteirista Haynes não se limita a fazer apenas uma releitura da vida de Dylan, seguindo fórmulas e dramas convencionais, mas faz jus ao homem ao arquitetar um filme diversificado, onde os personagens mesclam para formar um. Melhor ainda, mesclam para refletir todos os cantores ou celebridades que já sentiram o gosto da fama. Seu filme é sobre Dylan da mesma maneira que é sobre a indústria da música, a complexidade de sentimentos e a estrada para a perdição. Seu filme é tão atípico e diversificado que a ousadia se torna explosivamente afetuosa, ao mesmo tempo que alienígena. É preciso compreender todas as intenções de Haynes para entender o seu “caos”. Ele aceitou o caos, como Dylan, mas não sabe ao certo se ele mesmo será aceito.

Ousadia é a palavra chave nisso tudo. Audacidade toma controle do volante, ao embarcarmos em planos em contraste refletindo personagens tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, cada um comunicando algo com o outro. É completamente compreensível que a grande falha do filme de Haynes seja mesmo o efeito irregular que tanta ousadia cria, ao analisar o contraste entre planos. Talvez esta seja a intenção do diretor, mas ele poderia tê-la feito fluir de uma forma melhor e mais plausível. O seu filme, porém, denso e significativo, não falha ao cativar e principalmente ao oferecer uma visão introspectiva e simbólica sobre um homem atormentado e apaixonado. O filme é original, completamente inovador e surpreendentemente ambíguo. Seguimos as várias facetas de Dylan com certa curiosidade fascinante e somos diversamente impressionados pelos diálogos certeiros do roteiro ou a criatividade estupenda do visual. Haynes sabe arquitetar uma jornada com primor, e fortalece seu filme ao fazer isso, inserindo referências valiosas ao longo do caminho. Sua narrativa é sensacional.

A paixão intensa com a qual tudo foi realizado fica em primeiro plano a todo momento, mas o elenco espetácular é uma séria ameaça. É até cliché dizer isso, mas Cate Blanchett lidera. Sua atuação é monstruosa e perfeita em sentidos desconhecidos. Ela some e uma pessoa estranha, íntima e distante aparece na tela, com os melhores diálogos e liderando os segmentos mais valiosos de todo o filme. É nesses momentos que percemos o quanto todo o trabalho é expressivo e admirável. Ainda elogio bastante as atuações excelentes de Heath Ledger, em comovente cenas, e Christian Bale, mais uma vez incrível encarnando um personagem transformado pelo destino. Ben Wishshaw tem se revelado um ator bem competente e o jovem Marcus Carl Franklin não deixa a desejar na sua estréia. Richard Gere surge com o segmento mais estranho e protagoniza o elo fraco, não entregando uma atuação memorável ou virtuosa. O mais incrível é que foi com o desfecho maravilhoso que compreendi por completo as intenções de Haynes e o segmento até então fraco de Gere, que no fim, ganha uma significância absurda. O filme é sobre reencontrar a sí mesmo. Depois de mergulhar no turbulento mundo da fama, ainda saber quem você é. Nem todos conseguem, virando vítimas da fama e estigmatizados pelos pensamentos dos outros. O que importa é se imortalizar dentro de sí mesmo, permanecer uma alma intocável.

E assim minha afeição pelo filme todo cresce. Eu adorei a viagem, mesmo que longa, é uma relevante e acima de tudo memorável. A fotografia se concretiza fácil em sua ótica por ser tão formidável e a trilha sonora irretocável é uma que permanece com você por tempos a fio. O filme comunicou comigo e me senti impressionado pela forma com que Haynes decidiu contar sua história. Apesar das falhas, é um filme conquistador significativo. É sobre pessoas e sentimentos, fama e perdição, decadência e descobrimento. Sobre essas celebridades que se perdem e às vezes nunca voltam. Acredito que cada um lerá as entrelinhas de uma forma, e eu senti que foi isso o que Haynes queria dizer, retratando toda a complexidade, todos os contrastes e toda a irregularidade. Enfim, é sobre todo aquele caos. Sobre relogios, melâncias…tudo!

I’m Not There (2007)
Direção:
Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes, Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Ben Wishshaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcua Carl Franklin, Heath Ledger, Kris Kristofferson, Julianne Moore, Charlotte Gainsbourg, Bruce Greenwood, Michelle Williams
[Drama, 135 minutos]


Responses

  1. Há muito tempo que estou para conferir este filme, mas ateh agora n assisti.. pelo q falam parece ser excelente e empolgante..

    Estou de volta a ativa dps de um tempo ausente..

    vlws

  2. O filme é dificil porém belissimo (apesar de ter a pior interpretação de Christian Bale) que vale a pena ver mesmo sendo fã ou não …

    e Blanchett … nossa … pelo menos perdeu o careca para uma outra atriz foda … se não fosse ela … Blanchett teria mais esse caneco digo, careca!

  3. Ainda não consegui assitir, mas Todd Haynes é um diretor extremamente criativo e profissional! Tenho certeza de que vou aprovar…
    Abraço

  4. Gostei mais pelos atores do que pelo filme em si, que é um pouco cansativo e se perde em suas inventividades. Mas Cate Blanchett e Heath Ledger compensam os defeitos, pois estão maravilhosos!

  5. Pois é, foi o que citei na minha crítica. Quando um filme aposta numa temática tão diferente quanto essa, tudo depende da recepção do espectador. Eu não consegui engolir muitas das passagens do Não Estou Lá…

    Mas numa coisa concordamos, Blanchett realmente esteve muito bem!

  6. Sem dúvida é um belo trabalho do Haynes, pena que seja inferior a todos os seus filmes anteriores. Por vezes confuso, encanta pela produção técnica e ótimo elenco, com destaque para a Cate Blanchett. Abraço!

  7. Acho que a originalidade do filme, ao mesmo tempo em que é o ponto alto de “Não Estou Lá”, acaba sendo um ponto fraco da obra, já que – como você bem diz – o segmento do Richard Gere é fraco. Os meus Bob Dylans favoritos foram: Christian Bale, Cate Blanchett e Heath Ledger.

  8. Faz cinco minutos que vi esse filme, e sinceramente gostei e odiei ao mesmo tempo. Adorei a tentativa de recriar personagens diferentes para desmembrar um homem com uma personalidade tão grande e tão diferente, assim como vi belas atuações, mas em dados momentos, não sei se pelo excesso de ‘quebradas’ da vida dele, separando um Dylan de outro, acabava meio enfadonho, e depois voltava a melhorar, e depois se tornava novamente enfadonho. Meu Dylan preferido sem dúvida é a Cate, em seguida a dupla Marcus Carl Franklin e Ben Whishaw.

  9. Topei com ele na videolocadora, mas acredite! Ainda não trouxe para casa. Parece que aquele fogo de Oscar deu uma abrandada, mas vou correndo atrás do prejuízo. Juro.
    Abraço!

  10. Faz tempo que quero ver esse filme.
    Parabéns! Mais um texto muito bem construído.
    Chegou nas locadoras?
    Ainda não vi por aqui.

  11. O filme não achei muito bom, mas a Cate e o Ledger…..

    Para começo de conversa, o Oscar era para ter sido da Cate Blanchett. O papel dela foi uma das coisas mais brilhantes que já no cinema.

    Abraço!!

  12. ♦Sérgio que bom que voltou! O filme é excelente, mas só será empolgante para quem se identificar.

    ♦João o filme realmente é difícil e belo, adorei Blanchett mesmo e ela merecia mais um Oscar, mas também gostei de Bale, não achei uma atuação ruim.

    ♦William se eu te conheço, você vai gostar sim. Um trabalho inusitado e belo.

    ♦Matheus o filme realmente é grande, mas adorei a jornada. O elenco é mesmo magnífico, sendo o destaque justamente esses dois.

    ♦Marco a atuação brilhante de Blanchett é icontestável e eu entendo quem não conseguir gostar do filme, mas eu adorei.

    ♦Vinicius é o primeiro filme que vejo do diretor, e já tenho uma bela impressão do que é capaz. A produção é impecável e o elenco, idem. Blanchett esmaga!

    ♦Kamila acho que a originalidade realmente pode atrapalhar em aspectos, mas eu acredito ter entendido todo o caos do cineasta e adorei o filme. E esses três também foram meus Bobs preferidos.

    ♦Isabela o filme tem defeitos e o principal é a irregularidade. Mas olhando por trás disso, um belíssimo, tocante, denso e introspectivo filme. O elenco é sensacional. Cate é minha preferida, seguida por Ledger e Bale.

    ♦Weiner procure vê-lo assim que puder. Vale muito a pena!

    ♦Ibertson muito obrigado! Eu vi o filme nos cinemas mês passado mas acho que já chegou nas locadoras. Por aqui eu também não encontrei.

    ♦Pedro Cate e Ledger detonam mesmo, e ela merecia de longe o Oscar, mesmo que eu ame a atuação de Swinton. Mas eu tenho certo afeto pelo filme.

  13. Wally, estou muuuuuito curioso pra ver esse filme, só elogios!! Quero vê-lo o quanto antes!

  14. Acho o filme ótimo, só não acho o melhor do Todd.
    E concordo com você, o seguimento do Richard Gere é o pior, o filme quase se perde nele. Poderia muito bem voltar para a sala de edição e retirar e seguimento.

  15. ♦Robson veja sim! Espero que goste. ;)

    ♦Lucas é o único que vi de Haynes. O segmento de Gere realmente é o pior, mas a incrível significância que ganha ao final é tão sublime que é possível ignorar todo o rancor. Por isso, acho que o segmento não pode ser descartado. Poderia ter sido melhorado, apenas.

  16. Eu queria ver esse filme novamente, fiquei muito confusa no cinema nos segmentos de Richard Gere e ate em muitas partes de Cate Blanchett (ainda que a fotografia, a atuacao incrivel da atriz e a presenca da Michelle Williams me prendeu na trama de todo jeito). Tb gostei da parte de Heath Ledger, e concordo com o elogio que vc faz a sua atuacao. Tb gostei da atriz que atua ao lado dele (nunca consigo lembrar o nome!). E esse final do seu texto eh otimo, Wally.

  17. ♦Romeika veja novamente sim. Os segmentos podem soar deslocados de início mas na verdade todos se unem no final como um para enviar a bela mensagem. Os aspectos que você elogiou são mesmo louváveis. E a atriz é Charlotte Gainsburg, adoro ela. E sim, muito obrigado. ;)


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