Publicado por: Wally | Sexta-feira, Junho 20, 2008

Traídos pelo Destino


Vidas em jogo

Após uma pequena comemoração, a família Learner – os pais Ethan e Grace e os filhos Emma e Josh – param para abastecer, tarde da noite, em um posto na ‘Estrada Reservation’. Quando Josh sai do carro, porém, ele é atropelado por Dwight Arno, que dirigia ao lado de seu filho Lucas e, numa escolha rápida e incerta, foge da cena do crime.

Mais do que qualquer outra coisa, o novo filme de Terry George – que há três anos entregou o estupendo “Hotel Ruanda” –  é um melodrama. Dialogando com a perda, o remorso e a tristeza, envolvendo a audiência em uma trama sofrível e angústiante sobre sentimentos e emoções frustradas, é um filme que envolve por causa dos personagens densos, mas também se distancia por causa de escolhas errôneas. O que incomoda no filme de George é que percebemos o quanto o cineasta falha ao desenvolver muitas das virtudes incontestáveis do filme. O roteiro, apesar de grandes falhas, possui uma honestidade emocional que toca, e consegue nos vencer por conseguir arquitetar personagens acreditáveis e coerentes (com algumas exceções). O grande problema aqui é que o material tinha todo o poder e a intensidade para entrar na sua pele, te deixar angustiado e emocionalmente abalado. Isso não ocorreu. O filme pode ter me tocado em momentos, mas em nenhum momento acredito que a experiência tenha sido marcante.

Em outras palavras, o filme não fica com você, apesar de suscitar questionamentos morais e éticos bastante interessantes e nos cercar com personagens que são efficientes ao nos fazer importar por eles. Porém, acho que grande parte desse mérito deve-se ao elenco, que em nenhum momento me decepcionou. Desde a pequena mas competente Elle Fanning, passando pela atuação menor mas ainda assim memorável de Jennifer Connelly, até chegar na crueza de ambos Joaquin Phoenix e Mark Ruffallo. Ambos atores vão além do que está no papel e criam personagens apenas com olhares e expressões. Muitas vezes não são os diálogos exatamente o motriz de certa cena, mas a emoção que ambos conseguem fazer transparecer em meio à simples mas ainda assim significativos olhares profundos, que dizem rios e tocam mais do que o esperado. É neles que o filme encontra seu forte. Principalmente por ser admirável rondar uma trama desse típo tendo como foco não a dor materna, mas a angústia de um pai (nesse caso dois) olhando pelos dois lados da moeda. Então mesmo quando o filme soa superficial, ele ganha pontos por ser denso e introspectivo.

Mas em um roteiro sem crueza e uma direção muitas vezes faltando a autênticidade necessária, é em Phoenix e Ruffallo que o filme tem seu forte, sua intensidade. Aprendemos a nos importar por eles, seguimos a jornada de ambos e logo nos vemos conectados e emocionalmente presos. Tal conexão, infelizmente, é diversamente rompida pelos já mencionados defeitos técnicos. Aspectos como fotografia prevalecem e principalmente trilha sonora, que cria um clima verdadeiro, não situando o filme em um patamar a la “telefilme”. Mas a edição já tem seus passos em falsos. No clímax do filme, por exemplo, temos uma cena decisiva entre ambos personagens principais, e a cena é terrívelmente mal montada, de forma que ficamos impossibilitados até mesmo de testemunhar as performances. O momento não reflete um pingo de emoção, e deveria ter acontecido exatamente o contrário. São essas as pedras no sapato do filme de George que, bem mais polido e coerente, teria atingido um resultado que fosse além do mero termo “assistível, mas descartável”.

Ainda assim me vejo recomendando o filme. Fui vítima da força da trama, ainda que esta seja frívola. Acho que o elenco fez um trabalho estupendo e a trama toda me instigou. Sou fascinado por dramas que cercam a inevitabilidade dos fatos e as surpresas que o destino nos reserva. O filme toca muito bem nisso. Nesse jogo do destino que, diversamente, prende tantas vidas em sua teia mortal. Testemunhar duas pessoas antagônicas e ao mesmo tempo tão igüais me interessou, ainda que o destino dessas no filme seja relativamente insatisfatório. O filme termina com uma nota corajosa, uma que não oferece respostas simples e foge do termo irritante de “fim mastigado”. Mas ainda assim faltou aquela carga emocional densa. Não me assombrou como deveria. Os questionamentos deveriam existir e permanecer contigo bem depois que o filme termina, como deveriam os personagens. Mas isso não ocorre. O que precisamos prezar são os momentos únicos especiais que o filme proporcionou, algumas virtudes incontestáveis e um ou outro aspecto louvável. Mas observando o trabalho como um todo, as queimaduras são visíveis.

Reservation Road (2007)
Direção:
Terry George
Roteiro: Terry George, John Burnham Schwartz (baseado em seu livro)
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, Jennifer Connely, Elle Fanning, Mira Sorvino, Sean Curley, Eddie Alderson, Antoni Corone
[Drama, 102 minutos]


Responses

  1. Me deixou em duvida sua critica… mas vou assistir confiante mesmo nos trabalhos do elenco que é excelente nesse filme… pelo menos com os dois badalados Phoenix e Ruffalo e a bonitinha Elle Fanning que graças a Deus não é tão irritante quanto a irma dela a Dakota…rs
    eu não curto muitos os trabalhos da Jennifer Connelly, achei ela bem Uma mente brilhante , mas aí derrapa Água negra e Diamantes de sangue, enfim altos e baixos… mas sempre é bom ve-la no vídeo..rs
    abraços, Wally!!!

  2. É, deve ser bom este filme.

  3. O que mais me incomodou nesse filme foi o fato de que toda a emoção devido a situação central parece ser sentida apenas pelos personagens, já que em momento algum fiquei comovido com toda a história. É um tema bastante forte, porém Terry George o conduziu de maneira superficial e nunca memorável, beirando o medíocre mesmo. Se não fosse a excelente atuação do Mark Ruffalo, seria 1 estrela na certa…

    Abraço!

  4. Esse eu quero ver, já saiu em dvd né?

    O Mark Ruffalo é um ator que vem crescendo. Gosto dele.

    Abraço!

  5. Eu também adoro filmes assim e, mesmo com a maioria das reações sendo negativas, quero muito assistir “Traídos Pelo Destino”, até porque gosto muito do Joaquin Phoenix e do trabalho do Terry George.

    Bom final de semana!

  6. Wally, estou louco pra ver esse filme. Adoro o Joaquin Phoenix e gosto de HOTEL RUANDA, que é do mesmo diretor.

    Ninguém acha esse filme excelente, mas parece obrigatório, não? Pelo menos, graças ao elenco.

    Abs! Bom final de semana!

  7. ♦Rodrigo o filme é bonzinho. Não merece ser visto com grandes expectátivas, porque não corresponderá a elas. O triunfo é mesmo o elenco. E eu sempre amei Connelly e suas escolhas, incluindo o incompreendido “Água Negra”.

    ♦Luiz é bom e nada mais. Não vá ao pote com muita fome.

    ♦Vinicius concordo com muito do que você diz quanto aos problemas do filme, acho que a única diferença é que dei um pouco mais atenção ás virtudes do filme e, com isso, consegui gostar.

    ♦Pedro ainda não chegou em DVD. Vi nos cinemas mês passado e o filme é bonzinho, nada demais. Ruffallo é o melhor elemento do filme, deixando para trás até mesmo Phoenix.

    ♦Kamila o filme merece ser visto por tocar em temas relevantes, mesmo que muitas vezes de forma errada. Tem suas falhas, mas funciona. Veja sim.

    ♦Otavio não vá ver com muitas expectátivas. “Hotel Ruanda” é muito superior e Phoenix ta excelente, mas o destaque do filme é Ruffallo. E sim, o elenco é o triunfo do falho filme.

  8. Tenho vontade ver esse filme, apesar de ter lido críticas nada animadoras, mas a sua deu uma visão interessante.
    Só tenho receio quanto a direção, Terry George precisa quase sempre se entrega ao piegas.

  9. Bom, Wally, lhe digo que não assisti ao filme ainda, mas por falta de oportunidade, pois os cinemas daqui nem sentiram o cheiro de “Traídos Pelo Destino”.
    Que bom que você recomenda o filme, e ainda confirma minhas expectativas acerca do elenco. Sabia que ruffalo, Phoenix, Sorvino e Connely, juntos, seriam estupendos.
    Grande abraço!

  10. Eu gostei do trailer. Gosto das atuações de Joaquin Phoenix e por ser do mesmo diretor de Hotel Ruanda, me interessei em assistir.
    Apesar das críticas que li não serem tão favoráveis a ele.

  11. ♦Lucas o diretor errou a mão diversamente aqui, mas eu gostei do filme, mesmo que pouco.

    ♦Weiner o elenco é muito bom, mas Connelly aparece pouco e Sorvino deve ter uma duas cenas só. O foco é mesmo Ruffallo e Phoenix, ambos excelentes. O filme é bom, mas não é grande coisa.

    ♦Ibertson o filme é falho mas eu gostei. Só não vá ver com muita expectátiva.

  12. Vejo “Traídos Pelo Destino” como um guilty pleasure meu. É clichê, nada original e previsível, mas me conquistou, especialmente pelo elenco (com destaque para Mark Ruffalo, o melhor). Mark Isham realiza trabalho competente na trilha. Só detestei mesmo a cópia que fizeram de “Entre Quatro Paredes nos momentos finais.

  13. ♦Matheus o filme também me agradou, mesmo com seus defeitos. Concordamos quanto a Ruffalo e a trilha de Isham.

  14. […] especialmente se comparado ao ótimo Michael Rennie que viveu o original. Já Jennifer Connelly (Traídos pelo Destino) está bem no papel, como também Kathy Bates (Foi Apenas um Sonho). Mas Jaden Smith (À Procura da […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: