Publicado por: Wally | Quarta-feira, Junho 18, 2008

O Olho do Mal


Cegueira alucinogénica

Sydney Wells é uma cega que aprendeu a ver o mundo de sua forma. Quando realiza um transplante, ela se vê (literalmente) com os olhos de uma mulher que possuía a maldição de enxergar a morte. Mergulhada nessa nova escuridão de sua vida, Sydney é tratada como louca ao não compreender o que consegue ver.

Baseado em um terror oriental batizado no Brasil de “The Eye – A Herança”, esta nova mercadoria de hollywood é uma realizada apenas com o intuito de reciclar o bom projeto chinês, o transformando em um produto completamente descartável e sem significado, lotado de defeitos, sem um pingo de emoção e copiando além do material original, típico no cinema atual, especialmente do gênero. O filme original tinha seus – muitos – defeitos, mas, com sua aura de mistério crescente, o filme conseguia assombrar, e isso é raro. Na reclicagem, os cineastas deram uma de cegos e adotoram do material original todos os defeitos, deixando de lado as virtudes primorosas. Para piorar, a cegueira aparente, que impossibilitou o filme de virtudes e o encheu de falhas, fica toda alucinada ao adicionar mais pesares à produção já pedestre. O uso de todos os tiques hollywoodianos baratos dessas produções estão aqui. Tudo para o “bem” do público nova geração. Às vezes, é bom fazer à moda antiga. O filme original era fragil, mas ao menos sabia disso.

Recapitulando, na reciclagem, o senso de mistério não existe, e o assombro é completamente minimizado pela digitalização em excesso. A produção é “bonitinha” de mais, e não oferece espaço para improviso e surpresa. É tudo calculado, principalmente para quem já viu o filme original. Adotando a mesma falha deste, o novo filme tem um estilo muitas vezes alucinado, graças à edição e a fotografia frenética, que não ajuda na tensão e apenas cria um estilo que não consegue adicionar em nada na narrativa. Mas tudo isso não era o suficiente. Ser cego não basta, é preciso ser aleijado. Aí entram novas falhas (alguma coisa tinha que ser refrescante né?). No meio, a personagem tem inúmeros sonhos descartáveis que seguem aquele habitual cliché de enganação. Achamos que ta sonhando, aquele sustinho é apresentado, percebemos o absurdo e ela acorda. Típico e cansativo. Ainda tem as criaturas da morte histéricas e gritando de um lado e pro outro, apenas para provocar sustos fáceis. Não tem tempo para tensão e mistério, o diretor joga as imagens na tela para assustar, mas o impacto não ocorre. Nada funciona, tudo soa deslocado e descartável.

Jessica Alba é a “estrela” de tudo. Aquela garota meiga, carismática e bela (ainda é!) de filmes como “Mergulho Radical” e até “Quarteto Fantástico” se tornou uma completamente desprovida de talento e novidade. Olhamos para a Alba e vemos perfeição estética, falta densidade emocional. Ela não consegue trasmitir emoções bem e o filme todo permanece com a pretensão de ter ido bem. Coitada. Seu coadjuvante também não agrada. Alessandro Nivola, que lembrei da série “Gol!” por ter sido carismático, também irrita, e seu personagem chato não ajuda nesse sentido. Parker Posey, que talvez seria a única esperança se perde no meio e se apresenta pouquíssimas vezes. Em outras palavras, o elenco não comforta os desgastados pela belezura do filme, apenas piora a situação, degradando seus já falhos personagens e aprimorando o clima permanente de superficialismo e artificialidade. Nada soa acreditável, não nos simpatizamos com ninguém, e no final, nada funciona.

Quem vai gostar desse “O Olho do Mal” são pessoas que nunca viram o original, não se irritam com clichés, não importam com sustos fáceis e gostam dos filmes do gênero da nova geração. Eu prefiro algo mais pessoal, trabalhado em emoções e não em efeitos visuais e sonoros (principalmente quando estes não funcionam muito bem). O filme é um fracasso de pretensões e um terror completamente incapaz de assustar ou ao menos instigar. Não cumpre sua promessa e ainda consegue incomodar em seus noventa e poucos minutos. Comete escolhas risíveis ao longo do caminho, e apesar do fim do original ter optado por um final recomfortante similar, o exemplo é maximizado aqui para ter-se um desfecho hollywoodiano extremamente feliz e deslocado, visto que o que foi trabalhado até então não foi forte o suficiente para fazer com que ele tenha algum significado. Alias, nada aqui tem significado. O filme não deveria ter sido feito. Ponto final.

The Eye [2008]
Direção:
David Moreau, Xavier Palud
Roteiro: Sebastian Gutierrez, baseado em roteiro de Jo Jo Yuet-chun Hui, Oxide Pang Chun e Danny Pang
Elenco: Jessica Alba, Alessandro Nivola, Parker Posey, Rade Serbedzija, Fernanda Romero, Rachel Ticotin, Obba Babatundé, Danny Mora, Chole Moretz
[Terror, 98 minutos]

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Responses

  1. Esses roteiros dos irmãos Pang são ruins no original pela péssima qualidade dos recursos e da execução, no americano consegue ficar ainda pior. Vai entender!

  2. Com uma sinopse dessa, Com Jessica Alba e com suas palavras iniciais “um produto completamente descartável e sem significado, lotado de defeitos, sem um pingo de emoção e copiando além do material original, típico no cinema atual, especialmente do gênero.” Prefiro passar longe cara, bem longe!

  3. Não assisti ao filme original e já achei “O Olho do Mal” um filme bem abaixo da média. Só não entendo por quê todo mundo pega no pé da Jessica Alba por causa da performance neste filme. De longe, ela é uma das melhores coisas do filme, pelo menos na minha opinião!

  4. Certo que não vi muitos filmes ruins nesse ano, mas de todos sem dúvida esse “Olho do Mal” é o pior. Como você disse, é bem cansativo (quase durmo) e pouco assusta, o que é algo fundamental para esse tipo de fita. E coitada da Jessica Alba mesmo, precisa de um curso de interpretação…

  5. Depois de tantos fracassos pessoais, eu estou começando a achar que a Jessica Alba é feia.

    Abraços.

  6. Eu estaria mentindo se dissesse aqui que não gosto da Jessica Alba. Mas acho ela linda. Só. Talentosa como atriz… aí é outra coisa.

    Bom, tive medo de ir ao cinema. Vou alugar em DVD.

    Abs!

  7. ♦Isabela acho que os orientais ainda conseguem provocar alguma espécie de assombro. Nesse filme, é nulo.

    ♦Robson é a melhor coisa que você faz!

    ♦Kamila eu até achava ela “legal” mas nunca encontrei talento nela. E com uma personagem tão falha, atingiu o fundo do poço com esse “O Olho do Mal”. E ainda piorou a situação em “Maldita Sorte”.

    ♦Vinicius é tudo isso que você disse mesmo. Um filme fútil, em outras palavras.

    ♦Pedro acho que não vai demorar muito até ela chegar a esse ponto. Mas ainda tenho esperanças de que ela consiga encontrar um diretor que tire algo dela.

    ♦Otavio também a acho linda, mas falta talento total nela. Veja em DVD, mas sem expectátivas, por favor.

  8. ahaha… jpa tinha decidido passar longe desse filme nos cienmas, agora o aguardo ansiosamente para encontra-lo na minha locadora e passar longe dele tbm por lá, hehehe
    Parabéns pela sua coragem em ve-lo…rs
    abraços, Wally!!!

  9. Alguns filmes de terror oriental são até bons como o primeiro “O Chamado” e “O Hospedeiro”, mas a maioria original são apenas razoáveis e as refilmagens americanas mais fracas ainda.

    Abraço

  10. ♦Rodrigo passa longe mesmo! E obrigado, rsrsrs.

    ♦Hugo acho que filmes orientais são muito bons. Do gênero do terror, adoro “O Hospedeiro” e “Água Negra”, e ainda acho que algumas refilmagens funcionam muito bem como a de “O Chamado” e a própria “Água Negra” de Walter Salles, mas já cansou, desgastou. O primeiro “The Eye” era apenas razoavelmente bom e não merecia ter sido refilmado. O que ganhou foi uma tragédia.

  11. OLá! Eu não tinha muitas esperanças por esse filme, mas depois das criticas negativas ja não tenho nenhumas! Abraço

  12. ♦Francisco é a melhor coisa que você pode ter: zero expectátivas. Não veja.

  13. […] Eye – A Herança” neste mesmo ano, entregando aquele trágico trabalhado chamado “O Olho do Mal“, que tanto representa a falta de criatividade atual do cinema de terror norte americano. É […]


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