Publicado por: Wally | Quarta-feira, Junho 11, 2008

O Orfanato


Na imensidão do escuro

Voltando para o orfanato onde foi criada, Laura começa uma nova vida com seu marido e seu filho, re-inaugurando o orfanato para atender a crianças deficientes. Mas não demora a seu filho começar a entrar em contato com um amigo invisível e desencadear uma tragédia que logo afetará todos a sua volta.

Existem mundos inexplorados além do nosso, imensidões inteiras escondidas nas mais simples coisas. O espaço é uma incógnita tremenda, mas nada mais pertubador e instigante quanto a escuridão. O escuro esconde não só medo, mas mistério, e possui muitas histórias para contar. Na surpreendente estréia de J.A. Bayona a frente de um longa-metragem, somos presenteados com uma história de amor e terror narrada com angústia e mistério como poucos cineastas conseguiriam fazer, partindo da imensidão inquietante do escuro. O Orfanato é um filme de fantasmas, mas é também um sobre a determinação ferrenha de uma mãe, e os limites aos quais estamos dispostos a ir por amor, ou pelo menos a ilusão deste. O filme de Bayona é construído com paciência, e é um refresco em meio à tantos filmes de terror hollywoodianos descerebrados testemunhar um que parece mesmo ser movido por um senso cinematográfico mais elaborado. O longa de Bayona encontra barreiras, e em momentos, a irregularidade, mas tomando como partida um roteiro interessantíssimo, cujos personagens são construídos maravilhosamente, o longa atinge até mais do que incialmente esperamos.

O filme em sí é movido grande parte pela protagonista, Laura. Aprendemos a seguir Laura, compreendê-la e partir em sua busca, se tornando uma ótima personagem fortalecida pela atuação extremamente competente de Belén Rueda. Nesse meio, durante a busca de Laura, batemos de frente com certa previsibilidade, como a descrença das pessoas ao seu redor e sua busca aparentemente solitária pela verdade que mais parece inatingível. Mas bem dirigido, não tem lugar para incômodo. Sem contar o sentimento de autênticidade quase sempre presente, e os aspectos técnicos afiados sempre sofisticados. A ambientação é muito boa. Sombria, ora claustrofóbica e dando um sentimento de coisa velha e rústica, capturando bem a essência da história. A trilha sonora influente também deixa de ser apenas um fator inibido para dar força ao suspense e ao mistério, tornando-se importante e um personagem na narrativa. Em outras palavras, o filme de Bayona resgata virtudes esquecidas no gênero de hoje em dia. O Orfanato não é uma obra de terror e o máximo que causa é arrepios. Não senti medo e também não encontrei sustos fáceis. A história me moveu, e isso é sempre louvável.

O filme, portanto, te move e te instiga para depois surpreender. O desfecho de O Orfanato é um assombrador. Seu clímax inesperado toca fundo e meche com os nervos e as emoções. A profundidade com o qual é arquitetado e o realismo com que é atuado por Rueda fica com você, deixando uma grande impressão. Ao pé da letra, o filme é mesmo um conto de amor e uma história de terror, sobre fantasmas e amor, o escuro e a inocência. Bayona nos envolve para um arrebatador final, não só por causa da inesperada surpresa acerca do mistério tão sombrio do filme, mas por como tudo foi conduzido. Nós sentimos por Laura, conectamos com seu mundo e compartilhamos sua emoçao. Tudo fruto de um admirável roteiro e uma atuação sincera. O filme ainda não se limita e entrega uma bela história sobre o poder da inocência e a incompreensão sofrida por esta. A analogia feita ao final pelos personagens com “Peter Pan” funcionou não só maravilhosamente bem, mas trouxe imenso significado ao filme, que é sobre mundos escondidos, almas perdidas e o quanto a inocência pode ser influente e poderosa.

Belo, denso e assombrador, é uma obra altamente recomendável, principalmente visto a aridez de qualidade quanto ao gênero. Defeitos existem, sejam eles irregularidade ou elementos desnecessários, mas torna-se fácil, por causa da direção focada de Bayona, ficar nas virtudes e entrar na jornada de Laura como se fizessemos parte da história ou, mais importante, parte dela. Cenas bem filmadas, emoçõs genuínas e um efeito assombrador autêntico não ligado a fatores que têm a ver necessariamente com o sobrenatural e o horripilante, mas pertubador pela sua força emocional e psicológica, e por abrir uma ferida e mostrar que além da escuridão existe mais do que pensamos – ou tememos.

El Orfanato (2007)
Direção:
Juan Antonio Bayona
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Elenco: Bélen Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Andrés Gertrúdix, Edgar Vivar, Óscar Casas
[Thriller, 105 minutos]

Disponibilidade: lançamento da semana nas locadoras


Responses

  1. Wally, esse filme é excelente. Como falei no meu blog, ele tem um ‘ar’ diferente dos últimos suspenses americanos. Os espanhóis estão se mostrando experientes nesse gênero. O final é assomobroso e surpreendente!

    [****]

  2. Adorei esse filme, com excessão do finalzinho, ele prende o expectador do início ao fim. E eu quase me mijei com aquela cena dos paranormais examinando a casa! Tensão pura! E de quebra ainda tem o Sr. Barriga! :)

  3. é com certeza o proximo filme que irei assistir ao passar na locadora…
    depois de tantos elogios fiquei ansioso desde a estreia nos cinemas – fato esse que não chegou até aqui nos cinemas da minha cidade… mas tudo blz.. a ansiedade finalmente vai terminar, hehehe…
    Pelo jeito a turma lá do velho mundo tá dando uma lição de cinema desse genero para os hollywoodianos por aqui…
    abraços, Wally!!!

  4. O filme é bom e, como você colocou, possui cenas bem filmadas. Bélen Rueda está muito bem.

    Abraço!

  5. Eu adorei “O Orfanato”. Incrível como este é um filme extremamente convencional na sua narrativa, mas que consegue nos envolver por causa de três elementos importantíssimos: a atuação de Belén Rueda, a trilha sonora e a direção de Bayona.

  6. Gente, que medo dessa foto!

    Ainda não parei pra ver “O Orfanato”, devo corrigir isso em breve.
    Mas tenho que convencer alguém a assistir comigo, depois dessa foto não vejo sozinho não. uheuheuhe

    Abs cara!

  7. Coisa mais engraçada… Pensei que gostaria mais de “O orfanato”. Avaliei com um 5,5 na primeira sessão. Precio revê-lo? Acho que sim. Você mesmo apontou algumas qualidades que eu deixei passar.
    Abraço, Wally!

  8. ♦Robson concordo plenamente. O filme é ótimo.

    ♦Daniell gostei bastante do filme, mas inclusive o final, que adorei.

    ♦Rodrigo veja logo. É um refresco para o gênero poluido por Hollywood.

    ♦Pedro bem colocado. ;)

    ♦Kamila minha impressão foi a mesma que você, gostei muito do filme.

    ♦Victor não achei o filme assustador, mas assombroso no sentido emocional. Por isso gostei tanto. Veja sim!

    ♦Weiner veja novamente, sim. O filme foi me conquistando aos poucos e me deslumbrei ao final com toda sua maturidade. Revi a parte final ontém e percebi ainda mais virtudes.

  9. Quero muito ver, e apesar de não ter nada a ver com os gneros que gosto de assistir, é um filme que tenho grandes expectativas!

  10. Gostei bastante desse filme. Bem tradicional e sem ousadias, mas com um suspense bem construido e um pano de fundo dramatico convincente!

  11. Também gostei do filme. Tive a mesma sensação de filme de suspense que envolve o espectador em vez de apelar para sustos fáceis…

  12. As críticas dos amigos blogueiros, além da sua, me animaram. Ainda não vi, mas estou louco pra conferir O ORFANATO.

    Abs!

  13. Oi Wally, eu nao amei “O Orfanato”, mas nao desgostei completamente do filme, ainda que esse tenha me decepcionado bastante. Concordo com vc de que a obra fica acima de cliches do genero em Hollywood, mas tb fica muito abaixo de outros exemplares atuais e maravilhosos do genero, como “Os Outros” e “O Labirinto do Fauno”. O que vc mais gostou, o final emocionante com a metafora sobre o Peter Pan, foi justamente a pedra no meu sapato.

    Aquele final teria sido maravilhoso se o resto do filme tivesse seguido o mesmo esquema desde o inicio, no entanto, achei extremamente desconectado e mal encaixado, forcoso mesmo. Os sustos, muitos achei faceis, outros nem tanto. A grande forca do filme eh a atuacao forte da protagonista, alem de seus aspectos tecnicos.

  14. Estou com esse filme aqui, mas não assisti ainda.
    Quero muito ver, no entanto.
    Vou achar um tempinho para assisti-lo hehehehe

  15. ♦Isabela veja sim, acho que vai gostar. Como dizem, é um conto de terror mas uma história de amor.

    ♦Louis realmente faltou mais ousadia, mas achei refrescante não utilizar dos cansativos artíficios dos filmes do gênero atuais. Gostei bastante.

    ♦Marco acho que essa é com certeza uma das maiores virtudes do filme.

    ♦Otavio se eu te conheço, acho que vai gostar do filme sim, veja seguro mas sem aumentar demais as expectátivas. O achei imensamente efficiente.

    ♦Romeika concordo com alguns de seus pontos e te entendo. O filme realmente fica (bem) abaixo da média de filmes como Os Outros e O Labirinto do Fauno, mas eu fui bem envolvido por ele, culpa da personagem e a atuação memorável de Rueda. Mas eu achei que a nota com a qual o filme termina foi genial porque o filme todo dá dicas para esse final sensível, que foca exclusivamente o amor e a perda. As crianças agem como os garotos perdidos, e a personagem de Rueda sai do orfanato jovem e volta adulta, refletindo bem a personagem de Wendy. A metáfora, portanto, ficou brilhante.

    ♦Ibertson veja logo, eu achei muito bom.

  16. Uma das piores decepções do ano …
    filme boca a boca com sabor amargo …
    só presta a atuação de Belen Rueda e uma competente direção … pena que o resto não funciona …

    e final repeteco de fauno … caiu no meu conceito …

  17. ♦João não entendi bem seu comentário. Acho que o final não tem nada a ver com o de Fauno e o filme, apesar dos problemas, me tocou bastante. Achei o final assombrador, a metáfora final genial e o resultado, eficiente.

  18. Reveja fauno e depois O Orfanato … entenderás … e aquele final … deprimente …

  19. ♦João eu pretendia mesmo revê-lo, mas lembro vividamente do maravilhoso fim. Acho que o toque de Del Toro se restringiu ao de produtor executivo. Ambos filmes fazem analogias à fabulas em seus desfechos, mas fora isso, nada remotamente parecido. Mas me explica, porque não gostou?

  20. Oi Wally, em termos bem obvios, a metafora do final funciona que eh uma beleza mesmo (ela como Wendy e as criancas como os garotos perdidos), o que eu quero dizer eh que se comparado ao estilo de narrativa de todo o resto do filme (suspense alternado com o drama da personagem), aquele final nao bate. Naquele momento em que ela e as criancas se abracam, eu pensei:”ah, agora elas (as criancas) nao sao tao assustadoras assim, nao?” Em filmes como “Os Outros” e “O Labirinto do Fauno”, os elementos estao presentes e bem conectados ao final “nao esperado” a todo momento. Como se o suspense e terror fossem apenas um pano de fundo para uma mensagem mais forte. Ja em “O Orfanato”, me senti assistindo a um filme comum de suspense sobrenatural do inicio, meio, para no fim, ver o roteiro dando uma virada de 180 graus que pouco condiz com a historia que estava sendo contada, entende?

    Bom, apenas uma opiniao, tem quem ame o final, pra mim soh piorou o que ja nao era tao bom.. :)

  21. ♦Romeika entendo completamente seu ponto vista. Tanto que para mim um dos pontos fracos do filme é justamente sua irregularidade, e a oscilação entre um típo de filme e outro. Acho que o final foi tão surpreendente e belo para mim que automáticamente descartei o que você notou, que não combinava muito, mesmo que eu não tenha me incomodado. Acho que apesar disso, o diretor fez um trabalho correto ao conseguir impor aquele clima de mistério, e portanto, o fim funcionou…ao menos para mim. ;)


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