Publicado por: Wally | Quinta-feira, Junho 5, 2008

Desaparecidos


Dores artificiais

Após o seqüestro de Adriana, garota de 13 anos, no meio das ruas do Méxco, seu desesperado irmão vai á sua procura e depara com um veterano policial do Texas chamado Ray, que, assombrado pelo seu passado, tenta ajudar Jorge. Enquanto isso, Adriana e a igüalmente seqüestrada Verônica tentam sobreviver às angústias do tráfico e o abuso sexual.

Não é difícil sentir-se desconfortável e inquieto durante a sessão do polêmico, mas ainda assim ignorado Desaparecidos, que conta uma dura história sobre o tráfico de pessoas nas fronteiras do México, a vendas destas pelo abuso sexual e todos os danos morais e emocionais sofridos no meio do caminho. De trama forte e polêmica o filme tem. Falta, porém, maior autênticidade. O filme mira o impacto e o realismo, e realmente entrega cenas bem pesadas. Mas ao invés dessas conferirem emoção e intensidade, na maioria das vezes entregam apenas o desconforto. Esse talvez seja um dos vários fatores debilitantes do filme. Ao tentar impactar, acaba incomodando. Possui, ao menos, certo eqüilibrio em momentos que realmente são comoventes, além da narrativa conseguir envolver facilmente.

A urgência do filme é admirável, e realmente trata de temas importantes que irão facilmente comover e impactar certas pessoas. Depende muito da forma com que a audiência verá o filme. No falho roteiro, por exemplo, encontramos coincidências realmente improváveis rondando cada cena, só para o roteirista chegar aonde quer e ser conveniente. Para os mais atentos (e chatos) será inconveniente. Torna-se um problema a flexão da realidade em um filme que prima ser realista. Desgasta a narrativa, aborrece o espectador e a trama fica menos interessante. Dentre alguns exemplos, a perseguição do jovem Jorge atrás dos seqüestradores de sua irmã. Um momento realmente implausível. O que também não ajuda no realismo são algumas performances. Em especial, César Ramos, que retrata Jorge com o descompromisso certo nas cenas mais humoradas e a dramaticidade errada quando é necessária maior dedicação. Ele falha ao conferir emoção, e é um erro, visto que representa o elo dramático do filme como o personagem mais emocionalmente arrasado. No final das contas, não sentimos por ele. E isso é um equívoco.

Por outro lado, temos uma atuação simples, mas compensadora de Kevin Kline, um ator que sempre me agradou. Seu personagem triste, durão e em remorso cai em momentos na caricatura, mas o certo brilho dos olhos do ator desvia a atenção, demonstrando uma emoção autêntica que falta ao restante do filme. Emoção que é extraída poucas vezes. Ao menos esses momentos únicos e raros demonstram alguma eficiência, e capazes de comover e instigar. Mas na maioria das vezes, ganham um tratamento sonoro da trilha musical alta, usada justamente para manipular nossos sentidos. Mais um problema de autênticidade. Dentre eles, uma cena que mostra o primeiro abuso de uma personagem, ao entrar numa mata cruel e aterrorizante pelos demônios que se escondem lá. A cena comove, mas muito mais por causa da música do que por qualquer outra coisa. A chocante cena de um suicídio também é bastante apoiada nesse artifício técnico.

Mas é muito técnica. O filme felizmente não resgata aquele clima frenético abusado e chato de filmes como “Justiça a Qualquer Preço” – também sobre a pedofilia – mas também não possui aquela emoção ou paixao que o moveria corretamente. Tudo soa muito calculado. Você é envolvido para depois se decepcionar. Apenas momentos isolados funcionam bem, e o restante perece justamente por flexionar demais a realidade. Um exemplo claro é o desfecho, que termina tão politicamente correto que nem parece pertencer ao mesmo filme que já mostrou tanta crueldade e criticou tanto a corrupção. É feliz, e em nada combina com o resto. As atitudes de seus personagens são construídas para conferirem a eles honra e não honestidade. E o resultado é, no mínimo, implausível. O filme deveria impactar e assombrar, não incomodar e oferecer soluções fáceis. Na vida real, as coisas não terminam daquela forma. Ao final, créditos nos informam sobre o problema: os desaparecidos não são encontrados porque não são procurados. Talvez o intuito do filme seja o de mostrar o que aconteceria se alguém tomasse uma postura, mas é uma visão que acaba perdendo em urgência, e deixa a audiência ir embora sem aquele mal estar obrigatório. Aquele que corresponde ao sentimento exatraído não de um filme incômodo ou pesado, mas o de um filme que assombra.

Trade (2007)
Direção:
Marco Kreuzpaintner
Roteiro: Jose Rivera, baseado em artigo de Peter Landesman
Elenco: Kevin Kline, Cesar Ramos, Alicja Bachleda-Curus, Paulina Gaitan, Marco Pérez, Linda Edmond, Zack Ward e Kate del Castillo
[Drama, 120 minutos]

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Responses

  1. Pelo jeito, o maior problema desse filme é o mesmo que foi percebido em “Baixio das Bestas”. As imagens, ao invés de impactarem e mostrarem um certo realismo, nos causam o desconforto. A história parece ser mesmo interessante, mas vou deixar para ver “Desaparecidos” quando ele passar na TV.

  2. Ainda não assisti a esse filme. A premissa até me interessa, mas depois da sua avaliação negativa, vou passar longe!

  3. É bom nem sempre levarmos ao pé da letra o que os filmes nos retratam, haja vista o terrível filmes que fizeram sobre tráfico de órgãos no Brasil. Esse filme não me interessa, em nada,inda mais agora!

  4. ♦Kamila ainda não achei Baixio das Bestas para assistir. Desaparecidos tem esses problema sim, mas me incomodei mais mesmo com o roteiro.

    ♦Louis dê uma chance. O filme não é uma tragédia, só fiquei bem amargurado com alguns elementos. O filme poderia ter sido bem melhor visto sua premissa.

    ♦Robson realmente filmes manipulam demais. Mas esse “Desaparecidos” não conseguiu me pegar. O filme é interessante, mas muito, muito falho.

  5. Acho lamentável quando uma produção até tem um tema interessante e de certa relevância, mas não consegue passar isso de forma adequada. Pelos seus comentários parece ser o caso desse “Desaparecidos”, do qual deverei passar longe…

  6. A premissa do filme é bem interessante, mas filme que termina politicamente correto demais, depois de já ter mostrado tanta crueldade é no mínimo lamentável. Senti isso em “O Suspeito”, achei que teve um final fantasioso demais, feliz demais.

  7. É, Kevin Kline assinou seu próprio óbito ao participar desse filme.

    Abraço!

  8. ♦Vinicius é muito triste mesmo quando isso acontece. Uma pena até…

    ♦Marcel é lamentável isso, mas não senti isso em “O Suspeito”. Nesse caso, o filme mostra que o ciclo vicioso pode ser quebrado dependendo de escolhas, e faz um paralelo fantástico entre os personagens de Gyllenhaal e Saarsgard, e como suas escolhas foram decisivas. Mas o filme poderia ter sido melhor mesmo se tivesse oferecido um desafio moral ao fim da sessão.

    ♦Pedro sempre gostei de Kline, mas realmente foi um pecado sua participação neste filme.

  9. Parece que o filme só vale pelo Kline mesmo, que é um ator que sempre gostei, com uma atuação fantástica em Tempestade de Gelo.

    P.S.: Dei uma sumida, mas agora voltei. :P

  10. Eu gostei do trailer.
    Depois verei!

  11. Seu texto me deixou curioso.. vou procurar assistir.. A temática realmente é polêmica e interessante, o que muitas vezes prejudica e tb ajuda alguns filmes..

    vlws

  12. ♦Lucas Kline é um dos poucos pontos positivos do filme, e ele realmente ta sensacional no belo Tempestade de Gelo.

    ♦Ibertson depois me diga o que achou. O filme segue as trilhas do trailer: alto e melodramático.

    ♦Sérgio realmente polêmica pode prejudicar ao mesmo tempo que ajudar. Nesse caso, a polêmica não foi bem utilizada e o impacto, raso demais.

  13. Kevin Kline? Que sumido…

  14. Espero ver depois, mais compensa?

  15. Eu ia escrever sobre esse filme ainda hoje, mas resolvi parar e pensar um pouquinho mais para falar dele. ADOREI o tema do filme, acho uma historia e um assunto super valido, mas fiquei tambem um tanto decepcionada pela abordagem da direção. As atuações não são ruins, e acho que se tivesse tido um roteiro/direção melhor, poderia ser um grande filme.

  16. ♦Otavio realmente ele ta muito sumido, e o admiro bastante. Saudades de sua época de ouro…

    ♦Hypado como eu disse, o filme é bem meia-boca e falho, mas talvez você goste.

    ♦Isabela concordo, o tema é muito interessante e o filme me envolveu de início ao fim, mas aspectos como direção e roteiro decepcionam mesmo. Gostei apenas de alguns do elenco. Poderia ter sido um filme bem melhor…alias, precisava ser.

  17. Quero assistir, só não sei como, ahahah… vou deixar mesmo qdo encontrar por aqui dando sopa nas locadoras…
    Eu, vou ser bem honesto contigo Wally… muitas das vezes desligo o sensor “critico” e acabo gostando do filme..
    A temática que esse aí apresenta parece ser bem interessante e tbm extremamente importante parao debate do tema, enfim… mas parece que tbm é o tipico do filme que mesmo que vc queíra fica dificil de assisti-lo de forma descompromissada sem se preocupar com detalhes de roteiros e afins….
    abraços!!!

  18. ♦Rodrigo da para gostar do filme, mas é preciso mesmo se desligar do senso crítico, pois defeitos existem muitos.

  19. olá…
    acabei de ver o filme…
    gostei bastante da idéia… prendeu muito a minha atenção… mas realmente existem falhas graves de roteiro…
    o Kevin Kline está muito bem… e apesar de algumas falhas (acho que causadas por um diretor ruim), gostei muito da atuação do garoto Cesar Ramos… alguém aí sabe de algum outro filme que ele tenha atuado ?


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