Publicado por: Wally | Sábado, Maio 24, 2008

2h37

Lançamento direto em DVD

O tempo que nos resta

Num colégio do ensino médio americano, as vidas de seis adolescentes são intercaladas ao passo que, em depoimentos, contam suas histórias e relatam sobre o dia que culminou em um ato trágico.

Claramente – e assumidamente – inspirado em “Elefante”, brilhante filme de Gus Van Sant que furta olhares acerca da alienação adolescente americana e a tragédia por trás de suas vidas, o drama de Murali K. Thalluri marca sua estréia, e mesmo que seja perceptível sua inexperiência como diretor e roteirista, é fácil encontrar virtudes no seu filme, que dialoga sobre um tema sombrio e conturbado dos dias de hoje, relacionando se não só aos sentimentos cada vez mais particulares e sombrios dos jovens, mas acerca da alienação da sociedade, já retratada de forma genial na obra de Van Sant. É claro, portanto, a falta de originalidade ao filme, que se inspira até no estilo de “Elefante”, ao seguir o dia de cada adolescente sobre pontos de vistas diferentes, finalmente culminando na tragédia. O diferencial é o fato de conter depoimentos dos personagens ao longa da história, que relatam seus sentimentos, algo que conseqüentemente os minimiza, o tornando menos impactantes e enigmáticos. Não temos o trabalho de tentar interpretá-los. É uma das falhas do filme, que se limita demais.

Mas pelo menos o filme de Thalluri envolve, cria personagens muito interessantes e possui diálogos bem verossímeis, criando situaçoes completamente acreditáveis e um fim que, se não fosse pelos depoimentos ao longo da fita, teria sido extremamente surpreendente. O fato é que o mistério ronda o que supostamente occore às 2:37 daquele dia. Nós sabemos que alguém morre. Em especial suicida. Mas não quem. Mas logo torna-se uma tarefa de apenas ir eliminando quem está depondo para descobrir quem foi que não sobreviveu. Em outras palavras, o suicída. O que senti falta também no filme foi um primor técnico. A trilha sonora é demasidamente fraca e pouco acentua ou acrescenta, e a montagem deveria ter sido mais elaborada, visto o estilo do filme.

O filme ganha cerca ressonância por causa do sentimento, algo infálivel. Nós acabamos por nos identificar por algum motivo ou outro com os personagens e começamos, pouco a pouco, a nos importar com eles. É impactante, portanto, quando descobrimos coisas trágicas sobre suas vidas, nos momentos raros onde os depoimentos funcionam. É triste, chocante e duro, em seu retrato da realidade e dos sentimentos dos adolescentes, que se perdem cada vez mais em suas próprias emoções ou caem nas armadilhas propostas por outros ou pela sociedade. Ele atinge a intensidade em cenas, que compensam o superficialismo de outras. Os diálogos às vezes funcionam, outras não. Quando funcionam é porque encaixam com verosimilhança no cotidiano e no modo de seus personagens, em outros por conseguirem resumir bem quem eles são por dentro, demonstrando sutileza que mais uma vez compensa a falta dessa nos depoimentos.

O elenco automáticamente se torna essêncial à narrativa e ao desenvolvimento, e apesar de apenas uma atriz realmente maravilhar, os outros estão bem em seus respectivos papéis. Teresa Palmer (Uma Verão para Toda Vida) que oferece o angustiante desempenho como a sofrida e traumatizada Melody, que esconde segredos em proteção a sí mesmo e ao seu irmão, que se revela inicialmente uma figura conservadora e logo choca quando suas verdades vem à tona. O filme é virtuoso também por ter esse trabalho em cima de seus personagens. Os depoimentos inicialmente tiram um pouco do brilho e os minimiza, como já coloquei, mas mais para o final vamos conhecendo como e quem são de verdade. Como alguém já disse, essa coisa que existe dentro de nós não tem nome. Khalluri sabe disso, compreende seus personagens e suas angústias. Ele ainda tem muito o que aprender acerca de autênticidade e principalmente originalidade, mas se revela um cineasta sensível e compreensível, percebendo que um dos maiores medos dos adolescentes de hoje é o tempo. O tempo que resta a todos eles. O tempo que – talvez – os levará a cometer as mais trágicas e infelizes escolhas. Aquele tempo que pode ser tão maldoso e sofrível. Às vezes ficamos tão presos ao nosso tempo e nosso ritmo que esquecemos das pessoas ao nosso redor, aquelas que talvez significam muito mais para nós do que poderíamos achar.

2:37 (2006)
Direção:
Murali K. Thalluri
Roteiro: Murali K. Thalluri
Elenco: Teresa Palmer, Frank Sweet, Sam Harris, Charles Bird, Joel Mackenzie, Marni Spillane, Clementine Mellor, Sarah Hudson
[Drama, 99 minutos]

obs: Pela falta de registro do filme nos principais sites brasileiros e por não ter tido uma estréia oficial em solo brasileiro (mesmo que seja fato sua exibição em salas de cinema de arte), considero um lançamento direto em DVD.


Responses

  1. Wally, vi no you tube u video comparando esse com Elefante e fica claro a ‘cópia descarada’ dele…
    nunca vi nenhum filme que chegasse a ter a mesma temática que o de Gus Van Sant – fora os deles próprio e, por isso, fico ansioso em ver como ficou esse trabalho…
    vou ver se encontro por aqui…
    abraços!!!

  2. Não gostei de Elefante. Odiei, na verdade rs… Mas nada impede que esse 2:37 me surpreenda… Vou conferir

  3. Fiquei muito interessado nesse filme desde que soube sua semelhança com “Elefante”, que para mim é uma obra-prima e um dos cinco melhores filmes dessa década. Certamente irei procurar nos próximos dias. Abraço!

  4. Eu gostei da historia de Elefante, mas nao gostei do filme. Não sei ao certo dizer o que faltou, mas sei que nao me agradou. Talvez esse consiga me trazer maior simpatia, ou menos ainda.

    Beijos!

  5. Amei esse filme, Wally. Mas, ao contrário de você, achei o final surpreendente. E também destaco a Teresa Palmer, que tem uma atuação belíssima nesse maravilhoso filme.

  6. Não conhecia esse filme até ler sua resenha.
    Pareceu uma cópia de Elefante mesmo.
    Vou procurar nas locadoras, já que gostei do filme do Van Sant.

  7. Interessante… Eu não sabia desse filme, Wally.

    Mas vi aí ao lado que vc assistiu a UM DIA DE CÃO. Gostou??

    Abs!

  8. Não sabia desse filme, mas a comparação com elefante é meio perigosa hein… No entanto, valeu pela dica…

  9. o filme choca, tem uma trilha sonora linda, os barulhos aleatorios que meio se confundem com o que o personagem sente, brilhante, o filme não é pop, não se ultiliza daquelas regras e receitas hollywoodianas, ele é simples, bonito , direto, claro, preciso e chocante, um dos melhores filmes que vi esse ano com certeza.

  10. esse filme é muito bom…acho q a diferença de ELEFANTEpara ele é q o primeiro fala de adolescentes para adultos e o segundo fala de adolescentes para adolescentes…

  11. Eu amei o filme… chorei grande parte dele… com certeza um dos melhores do estilo, pois embora não seja forte com trilha sonora, cenas etc… eu acredito que foi uma forma diferente de retratar o adolescente e suas mazelas, ja estava cansada de Aos treze, Requiém para um sonho… foi um filme que me impactou tanto quanto Cristiane F…. Para ser sincera um ótimo filme…

  12. Descobri o trailer de 2h37 por acaso, e procurei mais informações sobre o filme. Adorei a critica, expondo as falhas e os pontos positivos do filme. Assisti Elephant e a excessiva improvisação e a superficialidade da abordagem dos personagens fez o filme torna-se tedioso. Não diria que é um filme ruim, mas Van Sant ainda tem que aprender muito. 2h37 despertou-me interesse, pois parece que há um cuidado maior com os personagens, irei alugar o filme neste final de semana e espero que não seja um De Javu.

  13. Fraquíssimo, de verdade, são os comentários aqui registrados. Nada de adequa de fato com a posição de quem certamente entende de cinema poderia dar. O filme é brilhante! Um dos trunfos é a montagem. A trilha na medida certa. Os atores todos bem equilibrados. O roteiro intenso e bem contado. A estilística inovadora com o depoimento dos personagens nos faz ver o filme de forma diferente, pensando junto com os personagens; isto dá realismo ao filme. A tática de ir eliminando quem não depõe é absolutamente furada, pois a própria suicida dá o seu depoimento, caso o comentarista não percebe. Grande sacada do roteiro que nos leva para outro caminho de descobrimos, somente no finalzinho, o que o filme quer nos dizer de verdade. Decepcionante os comentários. Fascinante a estréia de Thalluri.
    P.S. Só mais uma correção. O filme é australianao e se passa numa escola australiana, facilmente perceptível.

  14. fiquei completamente chocado com o filme principalmente com a kelly nossa quemn diria que isso iria acontecer !

  15. Até concordo com a maioria das suas observações, mas a suicida só dá seu depoimento após o mistério ser revelado, o que mostra que , sim, seria válido dizer que uma boa tática seria prestar atenção na falta do seu depoimento. Mas na verdade, nem assim eu prestei atenção nisso (puxa ninguém ligava pra ela mesmo!). Gostei muito do filme. Um abraço!

  16. Esse filme realmente usa do mesmo estilo de narrativa que Elephant do Gus Van Sant e, apesar de muitos acharem que é uma cópia descarada ou falta de originalidade, eu encaro como um complemento muito bem pensado. Como a temática também é a mesma, as discussões sobre o ambiente escolar e as pressões psicológicas são intensificadas quando percebemos tantas semelhanças… que passam do aspecto técnico e invadem a história que está sendo contada. E as duas são baseadas em fatos reais.
    Falo um pouco mais da minha opinião sobre ele no meu blog, ficaria contente se me disser o que pensa.


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