Publicado por: Wally | Domingo, Maio 11, 2008

Medo da Verdade

Lançamento direto em DVD

Escolhas e renúncias

Após o desaparecimento abrupto de uma garotinha, dois detetives são contratados para contribuir para a investigação policial e ajudar a família, cuja mãe da garota se revela irresponsável, não facilitando o andamento sombrio e complexo da investigação, que toma rumos inesprados.

O filme de estréia de Ben Affleck é um que provoca os mais diversos e intensos sentimentos. Ao longo de sua duração, nos sentimos aflitos, em momentos enraivados, em outros, devastados. No final de tudo, assombrados. O ator sempre foi bem mediocre, tendo feito raros bons papéis e emplacado uma performance ótima apenas há dois anos, com “Hollywoodland – Bastidores da Fama”, sua grande revelação. Mas antes havia se provado um roteirista promissor e talentoso ao lado de Matt Damon, ao escrever “Gênio Indomável”. Mas é com “Medo da Verdade” que ele encontra seu verdadeiro lugar no cinema: na cadeira do diretor. Uma grande revelação, a habilidade de Affleck em construir clima, delinear narrativa e conquistar os sentimentos da audiência se torna essêncial. E é por isso que seu filme funciona tão bem. Apesar de convencional em momentos, o que vence aqui é o núcleo emocional e a força esmagadora do questionamento final, que nos coloca bem no lugar de seu personagem principal.

O filme, baseado em obra de Dennis Lahane, soa muito como um convencional drama policial ao longo de sua primeira metade. Abrindo com um denso e relevante diálogo, baseia-se quase totalmente essa metade na introdução, na investigação principal e na construção de personagem. Tudo é realizado bem, apesar de nunca realmente decolar. Mas a preparação é essêncial, e a partir do meio, momento onde o caso é fechado e partir disso, assistimos apenas às suas consequências, somos hipnotizados pelos acontecimentos, os revira-voltas e algumas cenas dirigidas impecavelmente, como uma passada durante um tirotéio numa vizinhança, editada brilhantemente. É nessa metade final que encontramos densidade e uma forte beleza, onde somos fascinados pelos personagens e impressionados pela relevância absurda do roteiro, que é atual ao mesmo tempo que introspectivo. A verdade é que trata-se de um detalhado filme, e um que ousa realizar um poderoso e ácido questionamento acerca de escolhas e renúncias, o que define nós, como pessoas morais e éticas. Por isso, o personagem de Patrick Kenzie ganha uma ressonância eletrizante.

Passando o filme todo à procura da verdade, quando ele à encontra, não só a teme, mas tenta afastá-la de sí mesmo. Afinal de contas, como definir o certo e o errado? E pior ainda, o que é sensato? Patrick sofre, e realiza uma escolha que acaba se tornando uma renúncia, de tudo. Ele perde, talvez tudo que ele tenha prezado. Perdeu tudo por ter pensado no “correto”. Mas até que ponto o “correto” é certo? Perguntas sem resposta. A nota com a qual o filme termina é triste e assombradora. Affleck finaliza – genialmente – seu filme com uma cena de cortar o coração. Por isso, é fácil dizer que o filme permanece com você bem depois que ele termina, ecoando seus questionamenos, suas reflexões e seus estudos coerentes sobre seus personagens primorosos. Tudo ganhando um toque sofisticado do elenco, que além de contar com o talento revelação de Casey Affleck, ótimo, ganha em Morgan Freeman, Ed Harris e Michelle Monaghan coadjuvantes de peso. Mas é a indicada ao Oscar, Amy Ryan, o grande triunfo. Ela faz a personagem mais complexa, densa e realista do filme. Representando, de certa forma, o deseqüilibrio e toda a fragilidade do ser humano, e sua capacidade de detestar e ser detestado. Mas aí já é uma visão completamente pessoal.

Mesmo que bem longe do maravilhoso “Sobre Meninos e Lobos”, também um drama policial adaptado de obra de Dennis Lehane, se passado em Boston e tocando bastante em questões como esolhas, renúncias e a ambigüidade do ser humano, “Medo da Verdade” funciona como um filme brilhante, provavelmente porque Ben Affleck entende que na maior parte das vezes, a impressão deixada pelo fim de um filme seja mais impressionante do que a deixada ao início. E o fim do filme talvez seja um dos mais poderosos de recentemente, me causando extrema perplexidade, reflexão e assombração. Mas o filme todo se revela uma obra de inquestionáveis valores e importância. Desde sua parte técnica sofisticada (a fotografia é belíssima)ao seu elenco virtuoso, a trama suga o espectador, os personagens nos envolem para dentro de seus sentimentos e o núcleo emocional do filme explode sempre nos momentos certos e primordiais. Extremamente recomendado, e infelizmente, injustiçadamente, lançado direto em DVD no Brasil.

Gone Baby Gone (2007)
Direção:
Ben Affleck
Roteiro: Ben Affleck, Aaron Stockard, baseado em obra de Dennis Lehane
Elenco: Casey Affleck, Michele Monaghan, Morgan Freeman, Ed Harris, Amy Ryan, John Ashton, Amy Madigan, Titus Welliver
[Policial, 114 minutos]


Responses

  1. Incrível como filmes incríveis foram lançados diretamente em DVD nesse ano. Como se já não bastasse ver “Margot e o Casamento” e “Chumbo Grosso” na telinha, o excelente “Medo da Verdade” também não teve a chance de estrear comercialmente. Uma pena, pois certamente esse é um dos melhores filmes do ano. A cena final é mesmo brilhante, grande direção (e roteiro) do Affleck. Abraço!

  2. Wally, concordo plenamente. Ben Affleck encontrou sua verdadeira vocação: ser diretor. O trabalho dele em “Medo da Verdade” é impressionante. Desde o roteiro (quando ele foi muito feliz ao mudar passagens do livro do Lehane) até a escalação do elenco. O filme é daqueles que fica com a gente por um bom tempo, já que nos identificamos com os conflitos vividos por Patrick Kenzie.

  3. O filme acaba no meio e de repente dá uma volta enorme e recomeça com novas tramas… é espetacular… os Affleck´s tem que se orgulhar mesmo…
    abraços!!!

  4. Belíssimo filme! Tomara que Ben Affleck continue se dedicando como diretor. Mil vezes melhor que sua função como ator.

    Abs!

  5. Estou ansioso para ver este filme, que em Portugal foi muito associado ao caso da Maddie McCann.

    ——-
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  6. Quero muito ver esse filme, mas sempre está alugado na locadora.

  7. Senti tremenda falta de um filme como este passando pelos cinemas. Havia tudo que se podia explorar – direção nova, indicação ao Oscar, baseado num romance do esritor e “Sobre Meninos e Lobos”, etc…
    O roteiro é fantástico, avaliar positivamente ou não as decisões de Kenzie serão para sempre um mistério da Humanidade.
    Amy Ryan e Casey Affleck soberbos.
    Abraço!

  8. Se o Ben Affleck “só” dirigir eu viro fã dele. Prometo. Medo da Verdade é um “filmão”

    Abraço!!!

  9. Olá Wally
    Aqui é o Marco Aurélio Marcondes, da MOVIEMOBZ , nova distribuidora – que nesta sexta-feira, 16 de maio, está lançando nos cinemas, o primeiro filme dirigido pela atriz Sarah Polley, LONGE DELA ( Away From Her), estrelado por Julie Christie. Vi o seu comentário sobre a critica feita ao filme no Cinema e Argumento, e de seu interesse em assisti-lo. Pois, agora ele entra nos cinema do Rio, São Paulo, Santos, Porto Alegre e Curitiba. Em outras cidades no dia 23.
    Nós da MOVIEMOBZ, que iremos fundamentalmente trabalhar com filmes independentes, gostaríamos de manter contato regular com você. Além de lançamentos convencionais, como LONGE DELA, vamos trabalhar um novo conceito, que é o cinema sob demanda, e no final de junho estaremos lançando um sítio, que creio você vai gostar de conhecer. Por favor, entre em contato conosco.
    Abs
    MAM

  10. O Ben Affleck me lembrou o Liev Schreiber: Ator de mais baixos que altos e um diretor consciente. Adorei “Medo da Verdade” e espero que seja apenas o começo. Parabéns pelo seu texto, Wally!

  11. Já li várias críticas boas sobre este filme, está na minha lista para assistir.

    Abraço

  12. Eu esperava um filme excelente ao estilo de “Mystic River”, ainda assim nao saih desapontada da sessao, afinal, o filme impacta ao menos por esse dilema moral na conclusao de sua narrativa. A unica coisa que nao me chamou a atencao (ao contrario de todos que viram o filme, ao que parece hehe) foi a atuacao da Amy Ryan, a achei bem, mas nao fui conquistada por sua performance, pra mim era uma das indicadas ao Oscar que menos merecia a estatueta.

  13. […] o destinado pelo esquemático roteiro. Mas é muito difícil. O mesmo ocorre com Michelle Monaghan (Medo da Verdade), adorável mas limitada pelos próprios esquemas de sua personagem. Sydney Pollack (Conduta de […]


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